Hoje não tenho melhor alternativa que compartilhar com vocês a aula de Presença que é este poema de Fernando Pessoa.
Bom proveito.
O Meu Olhar
(F. Pessoa /A. Caeiro)
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
segunda-feira, 21 de julho de 2008
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Epifania
Definições usuais de epifania:
“A Epifania representa a assunção humana de Jesus Cristo, quando o filho do Criador dá-se a conhecer ao Mundo. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια, : "a aparição; um fenômeno miraculoso") é uma festa religiosa cristã que... passou a ser comemorada 2 domingos após o Natal.”
“Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante acontece, que parece ser divino em natureza (este é o uso em língua inglesa, principalmente, como na expressão I just had an epiphany, o que indica que ocorreu um pensamento, naquele instante, que foi considerado único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural).”
Adoro estas definições... “quase sobrenatural”, como se soubéssemos definir o que é natural, como se a vida que levamos imersos nos labirintos dos desejos, apegos e moto-contínuo de pensamentos - gatos enredados em um novelo de lã sem fim - fosse natural.
Não é interessante esta palavra, epifania? Todos já vivemos vários momentos como esse em nossas vidas. É um instante de compreensão verdadeira; um instante em que nos sentimos não diferentes de tudo o que nos cerca; um instante de amor por tudo e todos; um instante de paz profunda. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Nos grupos de prática sempre pergunto por estes instantes, e invariavelmente a resposta é que sim, este momento já existiu em minha vida. Alguns se lembram do instante em que ouviam uma música e por um momento a música e o ouvinte eram uma só coisa, um arrepio corre o corpo, todas as sensações se ampliam, cada instrumento e voz é ouvido separadamente e integrados ao mesmo tempo. Outros se lembram de surfar aquela onda perfeita e o silêncio profundo daqueles segundos de harmonia perfeita entre onda, prancha e surfista. Outros ainda se recordam de uma compreensão profunda – uma grande ficha que cai e parece que o mundo todo espera, num tempo mais lento, enquanto o todo faz algum sentido – e qualquer um que já presenciou isso sabe da potência do brilho dos olhos deste momento.
O que todos estes instantes – epifanicos – tem em comum? O “eu” da personalidade não está lá. É verdade, não está. Se ele estivesse não seria uma epifania. Não é o pequeno eu que passa por estas experiências; mas quando ele está ausente, então elas podem ocorrer. O motivo é simples: estas experiências passam muito longe do pensamento comum; enquanto nossos “canais” estão entupidos com pensamentos não é possível que qualquer outra coisa seja perceptível. Quando deixamos nossos canais vazios de pensamentos, outras percepções podem ocorrer. O “eu” apenas se apropria destas experiências (memória) depois que elas passam.
Segundo o Vedanta, em parte similar às proposições de Patanjali, temos diversos estados de existência ou consciência: sono, pensamento, observação, concentração, meditação e samadhi. Nós vivemos 99,9% de nosso tempo nos dois primeiros. Estes instantes de epifania pertencem aos outros estados, na maioria das vezes ao estado de observação ou concentração.
O “eu” enquanto sujeito só está presente enquanto pensamos. Ele não tem continuidade (nem enquanto dormimos). Entretanto nossa civilização ocidental tem como um dos principais cânones o “eu” como sujeito permanente e separado do mundo real – basta ver o nó filosófico que as implicações da física quântica causam ao demonstrar que o observador (o sujeito) altera a realidade.
O Vedanta explica que para cada um dos estados de consciência há um sujeito correspondente – até chegar ao estado de meditação em que o sujeito é Atman, “...o sujeito que conhece o universo enquanto simultânea e ubiquamente conhece a si mesmo.(*)” A permanência no estado de meditação leva ao Samadhi, estado em que se é Sat-Chit-Ananda: Existência, Consciência e Bem-aventurança infinitas e absolutas.
Entre a meditação e o pensamento temos a possibilidade de experimentar os estados de observação e concentração, em que a outros sujeitos é permitido atuar – e ao que ás vezes damos o nome de epifania.
Como podemos ver há muito o que se explorar além do nosso novelo-novela de pensamentos e fantasias, e o caminho é a prática.
(*) Ivan Oliveiros
“A Epifania representa a assunção humana de Jesus Cristo, quando o filho do Criador dá-se a conhecer ao Mundo. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια, : "a aparição; um fenômeno miraculoso") é uma festa religiosa cristã que... passou a ser comemorada 2 domingos após o Natal.”
“Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante acontece, que parece ser divino em natureza (este é o uso em língua inglesa, principalmente, como na expressão I just had an epiphany, o que indica que ocorreu um pensamento, naquele instante, que foi considerado único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural).”
Adoro estas definições... “quase sobrenatural”, como se soubéssemos definir o que é natural, como se a vida que levamos imersos nos labirintos dos desejos, apegos e moto-contínuo de pensamentos - gatos enredados em um novelo de lã sem fim - fosse natural.
Não é interessante esta palavra, epifania? Todos já vivemos vários momentos como esse em nossas vidas. É um instante de compreensão verdadeira; um instante em que nos sentimos não diferentes de tudo o que nos cerca; um instante de amor por tudo e todos; um instante de paz profunda. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Nos grupos de prática sempre pergunto por estes instantes, e invariavelmente a resposta é que sim, este momento já existiu em minha vida. Alguns se lembram do instante em que ouviam uma música e por um momento a música e o ouvinte eram uma só coisa, um arrepio corre o corpo, todas as sensações se ampliam, cada instrumento e voz é ouvido separadamente e integrados ao mesmo tempo. Outros se lembram de surfar aquela onda perfeita e o silêncio profundo daqueles segundos de harmonia perfeita entre onda, prancha e surfista. Outros ainda se recordam de uma compreensão profunda – uma grande ficha que cai e parece que o mundo todo espera, num tempo mais lento, enquanto o todo faz algum sentido – e qualquer um que já presenciou isso sabe da potência do brilho dos olhos deste momento.
O que todos estes instantes – epifanicos – tem em comum? O “eu” da personalidade não está lá. É verdade, não está. Se ele estivesse não seria uma epifania. Não é o pequeno eu que passa por estas experiências; mas quando ele está ausente, então elas podem ocorrer. O motivo é simples: estas experiências passam muito longe do pensamento comum; enquanto nossos “canais” estão entupidos com pensamentos não é possível que qualquer outra coisa seja perceptível. Quando deixamos nossos canais vazios de pensamentos, outras percepções podem ocorrer. O “eu” apenas se apropria destas experiências (memória) depois que elas passam.
Segundo o Vedanta, em parte similar às proposições de Patanjali, temos diversos estados de existência ou consciência: sono, pensamento, observação, concentração, meditação e samadhi. Nós vivemos 99,9% de nosso tempo nos dois primeiros. Estes instantes de epifania pertencem aos outros estados, na maioria das vezes ao estado de observação ou concentração.
O “eu” enquanto sujeito só está presente enquanto pensamos. Ele não tem continuidade (nem enquanto dormimos). Entretanto nossa civilização ocidental tem como um dos principais cânones o “eu” como sujeito permanente e separado do mundo real – basta ver o nó filosófico que as implicações da física quântica causam ao demonstrar que o observador (o sujeito) altera a realidade.
O Vedanta explica que para cada um dos estados de consciência há um sujeito correspondente – até chegar ao estado de meditação em que o sujeito é Atman, “...o sujeito que conhece o universo enquanto simultânea e ubiquamente conhece a si mesmo.(*)” A permanência no estado de meditação leva ao Samadhi, estado em que se é Sat-Chit-Ananda: Existência, Consciência e Bem-aventurança infinitas e absolutas.
Entre a meditação e o pensamento temos a possibilidade de experimentar os estados de observação e concentração, em que a outros sujeitos é permitido atuar – e ao que ás vezes damos o nome de epifania.
Como podemos ver há muito o que se explorar além do nosso novelo-novela de pensamentos e fantasias, e o caminho é a prática.
(*) Ivan Oliveiros
terça-feira, 17 de junho de 2008
A esfera
Quão distante é o centro de uma esfera quando todos os caminhos que conhecemos e todos os mapas que construímos estão na superfície? Imagine que a sua perspectiva, o seu ponto de vista, é sempre o da superfície desta esfera; todo o seu caminhar, todos os planos futuros de vida, todos os desejos, se deitam ao chão desta esfera. Toda a sua história, todas as suas razões e motivos, cada hábito, apego e aversão também transitam apenas nesta superfície.
Como uma lei geométrica, não é possível acessar uma outra possibilidade dimensional enquanto seguimos construindo mais e mais estradas nesta mesma superfície. Não chegaremos ao centro da esfera construindo estradas mais largas e mais bem feitas na superfície. Entretanto é exatamente isso o que fazemos a cada dia, a cada minuto.
Enquanto seguimos alimentando os mesmos padrões de consumo da personalidade, alimentando-a com todo o tipo de chocolates, bolsas, carros e jóias emocionais/energéticas, não estamos fazendo mais do que construir super-estradas, que permitem velocidades mais altas de modo que cheguemos mais rapidamente a lugar algum. E o mais engraçado é que são exatamente os mesmos por toda a vida, cada um de nós não tem mais do que um ou dois padrões básicos de funcionamento deste pequeno eu.
Quando começamos a buscar o centro da esfera, quando iniciamos uma busca por quem realmente somos, aparece um gancho ainda mais sutil deste pequeno eu. Inversamente proporcional à sutileza é a potência e efetividade deste gancho, chamado de materialismo espiritual e bem explicado por Tarthang Tulku (Além do materialismo espiritual, ed. cultrix). Este gancho nada mais é do que os mesmos padrões habituais, só que revestidos de um delicioso psico-chantili espiritual – mas isto é motivo para outra conversa.
Preste atenção ao momento em que você desperta. Não o momento em que você levanta da cama, nem o momento em que abre os olhos, mas o instante anterior. É claro que tem que ser em um dia em que você não acorda com o barulho do despertador... Tente prestar atenção ao momento em que você está consciente de que não está mais dormindo, antes de abrir os olhos. É bastante sutil, mas possível. Permanecendo neste estado por um par de segundos você poderá confirmar que o que existe é apenas a consciência de existir – o princípio do centro da esfera. O que ocorre normalmente é que este instante é muito rápido, e logo começamos a acionar nossa memória, isto é, começamos a agitar a massa mental que então repousava. Acionamos nossa memória para registrar quem somos, onde estamos, o que aconteceu na noite passada, se eu deveria estar triste ou alegre por causa disso, ou daquela pessoa, etc., etc. E assim, peça por peça de um vestuário sempre semelhante, nos vestimos de nossa personalidade. Religamos todos os fios e cabos que acreditamos serem perenes e reais de nosso pequeno eu, sem perceber que eles de fato precisam ser religados para existirem. E assim “despertamos” diretamente para mais um dia de sono real, de volta à superfície tão familiar, esquecendo de novo do centro, que ali permanece - sempre.
Como uma lei geométrica, não é possível acessar uma outra possibilidade dimensional enquanto seguimos construindo mais e mais estradas nesta mesma superfície. Não chegaremos ao centro da esfera construindo estradas mais largas e mais bem feitas na superfície. Entretanto é exatamente isso o que fazemos a cada dia, a cada minuto.
Enquanto seguimos alimentando os mesmos padrões de consumo da personalidade, alimentando-a com todo o tipo de chocolates, bolsas, carros e jóias emocionais/energéticas, não estamos fazendo mais do que construir super-estradas, que permitem velocidades mais altas de modo que cheguemos mais rapidamente a lugar algum. E o mais engraçado é que são exatamente os mesmos por toda a vida, cada um de nós não tem mais do que um ou dois padrões básicos de funcionamento deste pequeno eu.
Quando começamos a buscar o centro da esfera, quando iniciamos uma busca por quem realmente somos, aparece um gancho ainda mais sutil deste pequeno eu. Inversamente proporcional à sutileza é a potência e efetividade deste gancho, chamado de materialismo espiritual e bem explicado por Tarthang Tulku (Além do materialismo espiritual, ed. cultrix). Este gancho nada mais é do que os mesmos padrões habituais, só que revestidos de um delicioso psico-chantili espiritual – mas isto é motivo para outra conversa.
Preste atenção ao momento em que você desperta. Não o momento em que você levanta da cama, nem o momento em que abre os olhos, mas o instante anterior. É claro que tem que ser em um dia em que você não acorda com o barulho do despertador... Tente prestar atenção ao momento em que você está consciente de que não está mais dormindo, antes de abrir os olhos. É bastante sutil, mas possível. Permanecendo neste estado por um par de segundos você poderá confirmar que o que existe é apenas a consciência de existir – o princípio do centro da esfera. O que ocorre normalmente é que este instante é muito rápido, e logo começamos a acionar nossa memória, isto é, começamos a agitar a massa mental que então repousava. Acionamos nossa memória para registrar quem somos, onde estamos, o que aconteceu na noite passada, se eu deveria estar triste ou alegre por causa disso, ou daquela pessoa, etc., etc. E assim, peça por peça de um vestuário sempre semelhante, nos vestimos de nossa personalidade. Religamos todos os fios e cabos que acreditamos serem perenes e reais de nosso pequeno eu, sem perceber que eles de fato precisam ser religados para existirem. E assim “despertamos” diretamente para mais um dia de sono real, de volta à superfície tão familiar, esquecendo de novo do centro, que ali permanece - sempre.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
luzes, câmera... ação
Volta e meia me encontro conversando com estagiários, trainees, e colegas de trabalho sobre o futuro das carreiras, se o caminho está certo, e coisas do tipo. A conversa sempre toma um quase-fim quando lembro que o que importa é como você faz, e não o quê você faz. Este quase-fim em geral vem da falta de compreensão geral que nós temos sobre a ação e suas consequências. Em termos absolutos não faz diferença se trabalho em uma ONG que busca a paz no oriente médio ou se sou caixa de um banco. Simplesmente não faz diferença. Esta régua ética tem medidas enraizadas na personalidade e suas razões.
A diferença realmente está no modo como a ação é executada.
Existem dois modos de se executar incorretamente uma ação: 1) buscando que a ação me traga um benefício, um fruto (“vou ganhar algo com isso”); 2) me percebendo fazedor, sujeito, da ação (“sou eu que faço isso”). Tire estas duas condições e você terá agido de forma natural, pura, sem gerar karma.
Entretanto considere rapidamente as suas últimas 10 ações; você verá que em todas elas uma das duas condições estava presente. Ou você buscava um benefício para você mesmo com aquela ação, ou você se considera agente (fazedor) daquela ação; muito provavelmente as duas condições estiveram presentes em todas as 10 ações. Ou seja: todas elas geraram consequências, tendências, densidades de probabilidades futuras para “você”, em outras palavras, karma.
Imagine que seja possível atuar de modo natural, conforme o próprio sistema no qual você está inserido requeira a ação, nem um grama a mais, nem um milímetro a menos. Agir conforme é necessário, porque – ainda que não saiba a razão – você foi colocado naquele ambiente naquele exato momento para agir. Enquanto você age deste modo não há a sensação de estar agindo, apenas a ação acontece por si mesma. Depois que a ação ocorre, não há orgulho pelo ato. Não há com o que se apegar. É este o significado de deixar cada momento da vida nascer, mas também deixá-lo morrer. São os infinitos ciclos.Amplie um pouco este cenário: considere a possibilidade de que todos – repetindo: todos! – os instantes de sua vida foram cuidadosamente montados para que você vivesse exatamente aquela experiência. Como um presente que você recebe, uma pequena jóia na forma de uma lição aprendida, uma inspiração, uma compreensão. Muda um pouco a perspectiva de todos os nossos problemas, caminhos, “escolhas”, enfim, de todos os nossos “very limited affairs” não?
A diferença realmente está no modo como a ação é executada.
Existem dois modos de se executar incorretamente uma ação: 1) buscando que a ação me traga um benefício, um fruto (“vou ganhar algo com isso”); 2) me percebendo fazedor, sujeito, da ação (“sou eu que faço isso”). Tire estas duas condições e você terá agido de forma natural, pura, sem gerar karma.
Entretanto considere rapidamente as suas últimas 10 ações; você verá que em todas elas uma das duas condições estava presente. Ou você buscava um benefício para você mesmo com aquela ação, ou você se considera agente (fazedor) daquela ação; muito provavelmente as duas condições estiveram presentes em todas as 10 ações. Ou seja: todas elas geraram consequências, tendências, densidades de probabilidades futuras para “você”, em outras palavras, karma.
Imagine que seja possível atuar de modo natural, conforme o próprio sistema no qual você está inserido requeira a ação, nem um grama a mais, nem um milímetro a menos. Agir conforme é necessário, porque – ainda que não saiba a razão – você foi colocado naquele ambiente naquele exato momento para agir. Enquanto você age deste modo não há a sensação de estar agindo, apenas a ação acontece por si mesma. Depois que a ação ocorre, não há orgulho pelo ato. Não há com o que se apegar. É este o significado de deixar cada momento da vida nascer, mas também deixá-lo morrer. São os infinitos ciclos.Amplie um pouco este cenário: considere a possibilidade de que todos – repetindo: todos! – os instantes de sua vida foram cuidadosamente montados para que você vivesse exatamente aquela experiência. Como um presente que você recebe, uma pequena jóia na forma de uma lição aprendida, uma inspiração, uma compreensão. Muda um pouco a perspectiva de todos os nossos problemas, caminhos, “escolhas”, enfim, de todos os nossos “very limited affairs” não?
terça-feira, 20 de maio de 2008
very limited affairs
Outro dia assistia a um vídeo do Krishnamurti... que nem me atrai muito, mas de qualquer modo é fantástico. Sobe ao pequeno palanque embaixo de um toldo branco em um parque num dia chuvoso na Inglaterra um velho senhor, já um pouco curvado. Sem perder tempo começa a falar, direto ao ponto. Sem falsas delicadezas, sem manipulação emocional sobre a platéia - o que é tão sordidamente comum nos pseudo-gurus da nova era que vendem toneladas de livros – ele mergulha de imediato no convite a uma busca conjunta, e não no convite à simples audição de uma palestra. Deixa claro que não há resposta que possa vir de fora, de alguém, de um professor. Ninguém tem essa autoridade. Urge a platéia para que inquiram junto com ele, busquem as respostas, e não esperem para ouví-las. E ainda assim percebia claramente, naquele mesmo instante, como a maior parte das pessoas apenas aguardava ouvir “a verdade” em vez de se questionar.
O auto-questionamento é o fundamento proposto na busca. Ramana Maharshi escreveu uns poucos pequenos livretos - self inquiry, who am I, instrução espiritual – que tratam deste simples método (http://www.arunachala-ramana.org/).
Em um nível infinitamente mais simples o mesmo princípio se aplica às questões psicológicas nas terapias comuns, ou nos processos de mentoring, coaching, etc. E mesmo neste nível nós já sentimos bastante dificuldade em colocar o pé na lagoa de nossos hábitos e vícios mental-físico-emocionais. É de se imaginar quão maior será a dificuldade em se mergulhar nas cavernas mais profundas da raiz do próprio eu.
Porém uma vez perdida a inocência das certezas infantis da permanência das coisas, da realidade, do eu, não há como não sentir a atração pelo mergulho, pela busca.
Krshnamurti, olhos semi-cerrados em total presença, dizia: todos os nossos grandes problemas pessoais são ao final ‘very limited affairs’. Quão mais verdadeiro do que isso se pode ser? Porém a percepção de como nos prendemos a questões ínfimas do eu-goísmo costuma aparecer raramente se não desgrudamos pelo menos por alguns segundos nossos ouvidos de alma do ipod-mântrico dos hábitos e vícios da personalidade.
O auto-questionamento é o fundamento proposto na busca. Ramana Maharshi escreveu uns poucos pequenos livretos - self inquiry, who am I, instrução espiritual – que tratam deste simples método (http://www.arunachala-ramana.org/).
Em um nível infinitamente mais simples o mesmo princípio se aplica às questões psicológicas nas terapias comuns, ou nos processos de mentoring, coaching, etc. E mesmo neste nível nós já sentimos bastante dificuldade em colocar o pé na lagoa de nossos hábitos e vícios mental-físico-emocionais. É de se imaginar quão maior será a dificuldade em se mergulhar nas cavernas mais profundas da raiz do próprio eu.
Porém uma vez perdida a inocência das certezas infantis da permanência das coisas, da realidade, do eu, não há como não sentir a atração pelo mergulho, pela busca.
Krshnamurti, olhos semi-cerrados em total presença, dizia: todos os nossos grandes problemas pessoais são ao final ‘very limited affairs’. Quão mais verdadeiro do que isso se pode ser? Porém a percepção de como nos prendemos a questões ínfimas do eu-goísmo costuma aparecer raramente se não desgrudamos pelo menos por alguns segundos nossos ouvidos de alma do ipod-mântrico dos hábitos e vícios da personalidade.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
where to?
Por vezes me canso de navegar
ainda que sem direito, bem sei...
por vezes me canso de falar
me canso de ouvir
e de me ouvir
de tentar compreender o que pode ser
tentar ser o que não compreendo
por vezes me canso deste cansaço mesmo
do peso de vestir uma carne
do moto quase contínuo de respirar
de mais de um bilhão de batimentos
por vezes me assusto
instantes em que a dúvida congela o discernimento
o apego me ancora na ignorância
e as sombras iluminam cercas maiores que os caminhos
sem o mapa do conforto do corpo
sem as coordenadas do buscar um sentido com final feliz
sem a bússola das crenças construídas de argila mental
busco o norte nas estrelas
para onde ir?
por vezes vislumbro no meu céu
sem névoa ou dúvida
sem perguntas
sem quem pergunte
as sussuradas sílabas iniciais de uma resposta
Ir sem retorno
a volta nunca será para onde se partiu
Ir
para onde se espera,
se espera,
e se espera
um pouco mais
e enquanto nada mais se passa
o esperar deixa de ser temporal
se desnuda como uma existência em si mesma
Ir
onde a existência brilha poderosa e brutal
cega os sentidos imaturos e decepa membros ineptos
onde Ser sem interrupção tempera a estrutura mental
onde a suave e crescente compreensão do que É
acaricia uma super-nova
a semente do amor
Ir logo ali
ali onde o onde já não traz significado
posto que é sem resposta
local sem endereço
do diverso para o um
da área para o ponto
da certeza para a potencialidade
Às vezes isto tudo não é mais que um segundo
um sussurrado vaga-lume
farol entre penhascos na noite de tempestade
continuo navegando
ainda que sem direito, bem sei...
por vezes me canso de falar
me canso de ouvir
e de me ouvir
de tentar compreender o que pode ser
tentar ser o que não compreendo
por vezes me canso deste cansaço mesmo
do peso de vestir uma carne
do moto quase contínuo de respirar
de mais de um bilhão de batimentos
por vezes me assusto
instantes em que a dúvida congela o discernimento
o apego me ancora na ignorância
e as sombras iluminam cercas maiores que os caminhos
sem o mapa do conforto do corpo
sem as coordenadas do buscar um sentido com final feliz
sem a bússola das crenças construídas de argila mental
busco o norte nas estrelas
para onde ir?
por vezes vislumbro no meu céu
sem névoa ou dúvida
sem perguntas
sem quem pergunte
as sussuradas sílabas iniciais de uma resposta
Ir sem retorno
a volta nunca será para onde se partiu
Ir
para onde se espera,
se espera,
e se espera
um pouco mais
e enquanto nada mais se passa
o esperar deixa de ser temporal
se desnuda como uma existência em si mesma
Ir
onde a existência brilha poderosa e brutal
cega os sentidos imaturos e decepa membros ineptos
onde Ser sem interrupção tempera a estrutura mental
onde a suave e crescente compreensão do que É
acaricia uma super-nova
a semente do amor
Ir logo ali
ali onde o onde já não traz significado
posto que é sem resposta
local sem endereço
do diverso para o um
da área para o ponto
da certeza para a potencialidade
Às vezes isto tudo não é mais que um segundo
um sussurrado vaga-lume
farol entre penhascos na noite de tempestade
continuo navegando
sexta-feira, 18 de abril de 2008
amsterdam
Acabo de voltar de dez dias em Amsteradm, a trabalho.
Uma viagem nunca é apenas uma viagem no sentido externo ou físico; entrar em um avião que voa a 11 km de altura, respirar um ar de outra língua, conhecer pessoas diferentes, a distância do conhecido, o desconforto e as surpresas... sempre aparecem desafios às nossas habituais certezas. Sempre acontece uma viagem interior, paralela e transversal ao concreto imaginado.
Passei um final de semana por lá, e andei muito.
Adoro andar, é a velocidade mais perfeita para a percepção do mundo. Experimente caminhar por uma rota que você normalmente faz de carro, e ficará muito evidente tudo o que perdemos ao acelerar sobre caminhos aparentemente conhecidos. Um universo de detalhes e novidades se abre aos sentidos.
Caminhei pelo Vondelpark (um central park de Amsterdam), observando e sentindo. O novo sempre traz esta curiosidade de conhecer... e daí à certeza de que o simples ato de perceber o mundo é impressionantemente vivo é um pequeno passo. Peceber que se está vivo, e que existe a chance de conhecer, que existe uma propriedade chamada atenção que me permite conhecer, e que ela é intrínseca à própria consciência... perceber que a atenção flui, e que às vezes algo parece tão próximo de você que você já não sabe diferenciar o que percebe de você mesmo... é algo incrível. E está sempre aí, em qualquer e toda parte do mundo, sempre à nossa disposição.
Fui ao Rijksmuseum, e ali passeei pela história da Holanda. Não consegui apreciar a beleza das pinturas, pois acabei afogado no fogueira das vaidades. Impressionante como o ser humano, era após era, cai nas mesmas armadilhas dos desejos do olimpo sonhado do egoísmo. As sempre iguais medalhas de ouro do ilusório pódio das conquistas individuais. Um grande almirante e seu busto em mármore, a petrificação do orgulho. Um trio de ricos comerciantes semi-eternizados em uma tela, tintas lindas perfeitamente retratam os olhares empapados de ilusão e arrogância. Uma época após outra, uma guerra após outra, uma fortuna após outra, uma miséia após outra, tudo o que buscamos é petrificar a ilusão de que somos nós que atuamos e decidimos, erigir um busto do granito nascido da ambição do fruto de nossas ações, pintar um quadro magnífico da nossa absoluta ignorância sobre quem somos. Isto é a raiz do Samsara, a eterna roda do Karma.
Uma viagem nunca é apenas uma viagem no sentido externo ou físico; entrar em um avião que voa a 11 km de altura, respirar um ar de outra língua, conhecer pessoas diferentes, a distância do conhecido, o desconforto e as surpresas... sempre aparecem desafios às nossas habituais certezas. Sempre acontece uma viagem interior, paralela e transversal ao concreto imaginado.
Passei um final de semana por lá, e andei muito.
Adoro andar, é a velocidade mais perfeita para a percepção do mundo. Experimente caminhar por uma rota que você normalmente faz de carro, e ficará muito evidente tudo o que perdemos ao acelerar sobre caminhos aparentemente conhecidos. Um universo de detalhes e novidades se abre aos sentidos.
Caminhei pelo Vondelpark (um central park de Amsterdam), observando e sentindo. O novo sempre traz esta curiosidade de conhecer... e daí à certeza de que o simples ato de perceber o mundo é impressionantemente vivo é um pequeno passo. Peceber que se está vivo, e que existe a chance de conhecer, que existe uma propriedade chamada atenção que me permite conhecer, e que ela é intrínseca à própria consciência... perceber que a atenção flui, e que às vezes algo parece tão próximo de você que você já não sabe diferenciar o que percebe de você mesmo... é algo incrível. E está sempre aí, em qualquer e toda parte do mundo, sempre à nossa disposição.
Fui ao Rijksmuseum, e ali passeei pela história da Holanda. Não consegui apreciar a beleza das pinturas, pois acabei afogado no fogueira das vaidades. Impressionante como o ser humano, era após era, cai nas mesmas armadilhas dos desejos do olimpo sonhado do egoísmo. As sempre iguais medalhas de ouro do ilusório pódio das conquistas individuais. Um grande almirante e seu busto em mármore, a petrificação do orgulho. Um trio de ricos comerciantes semi-eternizados em uma tela, tintas lindas perfeitamente retratam os olhares empapados de ilusão e arrogância. Uma época após outra, uma guerra após outra, uma fortuna após outra, uma miséia após outra, tudo o que buscamos é petrificar a ilusão de que somos nós que atuamos e decidimos, erigir um busto do granito nascido da ambição do fruto de nossas ações, pintar um quadro magnífico da nossa absoluta ignorância sobre quem somos. Isto é a raiz do Samsara, a eterna roda do Karma.
sexta-feira, 28 de março de 2008
perdidos no espaço
Encontrar o tempo para praticar não é fácil. Todo aquele que já praticou qualquer esporte ou até meditação em silêncio sabe que em determinado momento, quando aparece uma janela na agenda e você percebe que poderia iniciar a prática, pode surgir uma vozinha dizendo “agora não, daqui a pouco eu faço”, ou então “acho que hoje não será um bom dia”, ou talvez “com certeza posso fazer isso mais tarde”, ou “agora preciso fazer aquelas compras/arrumar o escritório/ etc.etc.etc.”.
Ainda assim, algumas vezes vencemos a inércia e conseguimos sentar e praticar. Daí chega aquele momento em que você diz a você mesmo: “acho que já está bom”, ou então “preciso terminar para fazer isto ou aquilo”, ou então “não aguento mais, minha cabeça não para é além disso minha perna está doendo”, ou mesmo “ eu não sirvo para isso”, ou ainda “isso é uma tortura”. A lista é interminável, como também o-são nossos diálogos internos. O que será que nos faz seguir em frente? O que nos motiva a um minuto mais, alguns segundos mais?
Já falamos anteriormente sobre a inquietação, a curiosidade e a disciplina. Não sei se nesta ordem, mas são fatores chave para a busca. Se sentar para praticar sem curiosidade sobre o que poderá ser é o caminho mais certo para um longo suplício. Não cultivar a disciplina de frequência e tempo de prática é o caminho mais curto para a desistência. Não encontrar inquietação com o estar-vivo, com o que é a realidade, o amor, a compreensão, a existência ou a perecepção da mesma, é o não-caminho.
Dois pontos hoje me chamam a atenção.
O primeiro é como damos poder a estes diálogos internos.
Quando estas vozes aparecerem com força a seguinte questão: quem está falando? quem está com preguiça? quem acha que é hora de parar a prática? A resposta invariavelmente será: o bom e velho conhecido “eu”, a personalidade, o ego, que tem RG e sobrenome. Exige muito desprendimento, porém se você conseguir fazer esta pergunta, e mais ainda, encarar a resposta de frente, este diálogo certamente murchará.
O segundo é a falta de curiosidade.
Como podemos perder tão facilmente a capacidade de nos surpreender? A resposta normalmente passa pela memória: a primeira vez que vemos ou encontramos algo temos aquela doce e leve sensação de surpresa; na segunda vez a surpresa já não é tão intensa, lá pela quinta vez não temos mais grande interesse. O que passa é que registramos aquele objeto com um nome em nossa memória. Deste momento em diante quando nos encontramos novamente com o objeto nossa mente aciona o nome em nossa memória, buscando o significado a ele associado. Desta forma não nos relacionamos mais com o objeto “real”, mas sim com a nome/siginificado registrados em nossa memória. É fácil testar: mostre uma caneta esferográfica para alguém e pergunte o que é. A pessoa provavelmente responderá que é uma caneta, sem sequer fixar os olhos no objeto. Pergunte detalhes, e ela não saberá responder. Esta pessoa se relacionou com sua própria memória, não com o objeto a que foi apresentada.
Fazemos isso o tempo todo, e deste modo perdemos a chance de nos relacionar com o mundo. Presos em nossa rede de registros nos relacionamos umbelicalmente com nossas próprias idéias sobre o mundo, e nos privamos de conhecer o mundo. Para conhecer o mundo há que se esquecer do eu.
Os mais velhos devem se lembrar do robô de perdidos no espaço, que dizia “não tem registro” e daí pifava. Pois é...
Ainda assim, algumas vezes vencemos a inércia e conseguimos sentar e praticar. Daí chega aquele momento em que você diz a você mesmo: “acho que já está bom”, ou então “preciso terminar para fazer isto ou aquilo”, ou então “não aguento mais, minha cabeça não para é além disso minha perna está doendo”, ou mesmo “ eu não sirvo para isso”, ou ainda “isso é uma tortura”. A lista é interminável, como também o-são nossos diálogos internos. O que será que nos faz seguir em frente? O que nos motiva a um minuto mais, alguns segundos mais?
Já falamos anteriormente sobre a inquietação, a curiosidade e a disciplina. Não sei se nesta ordem, mas são fatores chave para a busca. Se sentar para praticar sem curiosidade sobre o que poderá ser é o caminho mais certo para um longo suplício. Não cultivar a disciplina de frequência e tempo de prática é o caminho mais curto para a desistência. Não encontrar inquietação com o estar-vivo, com o que é a realidade, o amor, a compreensão, a existência ou a perecepção da mesma, é o não-caminho.
Dois pontos hoje me chamam a atenção.
O primeiro é como damos poder a estes diálogos internos.
Quando estas vozes aparecerem com força a seguinte questão: quem está falando? quem está com preguiça? quem acha que é hora de parar a prática? A resposta invariavelmente será: o bom e velho conhecido “eu”, a personalidade, o ego, que tem RG e sobrenome. Exige muito desprendimento, porém se você conseguir fazer esta pergunta, e mais ainda, encarar a resposta de frente, este diálogo certamente murchará.
O segundo é a falta de curiosidade.
Como podemos perder tão facilmente a capacidade de nos surpreender? A resposta normalmente passa pela memória: a primeira vez que vemos ou encontramos algo temos aquela doce e leve sensação de surpresa; na segunda vez a surpresa já não é tão intensa, lá pela quinta vez não temos mais grande interesse. O que passa é que registramos aquele objeto com um nome em nossa memória. Deste momento em diante quando nos encontramos novamente com o objeto nossa mente aciona o nome em nossa memória, buscando o significado a ele associado. Desta forma não nos relacionamos mais com o objeto “real”, mas sim com a nome/siginificado registrados em nossa memória. É fácil testar: mostre uma caneta esferográfica para alguém e pergunte o que é. A pessoa provavelmente responderá que é uma caneta, sem sequer fixar os olhos no objeto. Pergunte detalhes, e ela não saberá responder. Esta pessoa se relacionou com sua própria memória, não com o objeto a que foi apresentada.
Fazemos isso o tempo todo, e deste modo perdemos a chance de nos relacionar com o mundo. Presos em nossa rede de registros nos relacionamos umbelicalmente com nossas próprias idéias sobre o mundo, e nos privamos de conhecer o mundo. Para conhecer o mundo há que se esquecer do eu.
Os mais velhos devem se lembrar do robô de perdidos no espaço, que dizia “não tem registro” e daí pifava. Pois é...
sexta-feira, 14 de março de 2008
koans
" To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour"
William Blake: "Auguries of Innocence"
Recebi este belo poema esta semana de uma amiga, e achei que seria ótimo compartilhá-lo no blog. A ‘eternidade em uma hora’ me lembrou dos koans.
Koan... já ouviram esta palavra? Um koan é uma pergunta, uma colocação, que tem como resultado deixar nosso equipamento lógico de raciocínio ininterrupto – nossa mente - em suspenso. Suspensão, como naqueles momentos do cinema em que o herói (tipo... Indiana Jones) está fugindo dos bandidos pela selva (trilha sonora é uma orquestra em altíssimo volume e ritmo forte) e de repente cai em um precipício com um riozinho lááá embaixo. No momento em que ele começa a cair o movimento é mostrado em câmara super lenta, e a trilha sonora é apenas o som do vento. Este é um momento de suspensão.
O zen-budismo é a escola mais conhecida por fazer uso de koans.
O Koan, ao trazer uma pergunta sem lógica racional, traz a probabilidade de criação de um salto quântico em nosso labirinto linear mental. Como em um salto conseguimos enxergar além das paredes racionais de nossa memória. Por exemplo, um famoso koan é “qual o som de uma só mão batendo palmas?”. A surpresa pela pergunta sem resposta lógica pode – ainda que por um instate - deixar nossa mente em suspensão. E este é o momento mágico, em que podemos nos dar conta do que há antes da mente pensante, e que está sempre ali.
Porém o Koan mais famoso de todos os tempos é outro. A flecha deste koan é muito poderosa, mas só se torna real quando a pergunta é ouvida com total disponibilidade de coração, quando o alvo então se abre.
Este koan é curto e certeiro, não se amedronta, não se acanha, infinitamente busca seu alvo uma vez que seja lançado. “Quem é você?“. Eis aí o maior de todos os koan.
Ramana Maharshi, em sua didática exposição sobre o método de auto-inquirição, explica como esta simples pergunta pode ter efeitos devastadores sobre nosso moto-quase-contínuo de pensamento.
Especialmente quando se faz uma prática de silêncio interior esta pode ser uma linda chave. Normalmente reclamamos dos pensamentos que não param, reclamamos de como nos perseguem e grudam qual algodão doce em rosto de criança. Mas a vontade e o desejo de se livrar destes pensamentos apenas os torna mais persistentes, uma vez que estamos depositando nossa atenção neles (a atenção é o combustível vital dos pensamentos). Se neste momento pudermos nos perguntar – com verdadeira intenção e curiosidade – “quem sou eu? “, ou “quem percebe estes pensamentos?” , e e buscarmos profundamente a resposta, então haverá um instante de suspensão real. Isto ocorre porquê a atenção se volta para si mesma com o choque da não resposta imediata. Neste instante os pensamentos já não existem mais. Podem voltar se você voltar a levar sua atenção a eles. Mas também é possível que este estado de suspensao se sustente um pouquinho mais, e aí começa aparecer o gostinho de dar uma rápida lambida na mais saborosa compreensão e existência do que somos.E a cada vez que voltam os pensamentos, nos perguntamos novamente quem os percebe, e assim seguimos, e seguimos, na esperança da suspensão inesperada, do refresco de uma ducha de cachoeira inesperada após uma trilha ao sol.
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour"
William Blake: "Auguries of Innocence"
Recebi este belo poema esta semana de uma amiga, e achei que seria ótimo compartilhá-lo no blog. A ‘eternidade em uma hora’ me lembrou dos koans.
Koan... já ouviram esta palavra? Um koan é uma pergunta, uma colocação, que tem como resultado deixar nosso equipamento lógico de raciocínio ininterrupto – nossa mente - em suspenso. Suspensão, como naqueles momentos do cinema em que o herói (tipo... Indiana Jones) está fugindo dos bandidos pela selva (trilha sonora é uma orquestra em altíssimo volume e ritmo forte) e de repente cai em um precipício com um riozinho lááá embaixo. No momento em que ele começa a cair o movimento é mostrado em câmara super lenta, e a trilha sonora é apenas o som do vento. Este é um momento de suspensão.
O zen-budismo é a escola mais conhecida por fazer uso de koans.
O Koan, ao trazer uma pergunta sem lógica racional, traz a probabilidade de criação de um salto quântico em nosso labirinto linear mental. Como em um salto conseguimos enxergar além das paredes racionais de nossa memória. Por exemplo, um famoso koan é “qual o som de uma só mão batendo palmas?”. A surpresa pela pergunta sem resposta lógica pode – ainda que por um instate - deixar nossa mente em suspensão. E este é o momento mágico, em que podemos nos dar conta do que há antes da mente pensante, e que está sempre ali.
Porém o Koan mais famoso de todos os tempos é outro. A flecha deste koan é muito poderosa, mas só se torna real quando a pergunta é ouvida com total disponibilidade de coração, quando o alvo então se abre.
Este koan é curto e certeiro, não se amedronta, não se acanha, infinitamente busca seu alvo uma vez que seja lançado. “Quem é você?“. Eis aí o maior de todos os koan.
Ramana Maharshi, em sua didática exposição sobre o método de auto-inquirição, explica como esta simples pergunta pode ter efeitos devastadores sobre nosso moto-quase-contínuo de pensamento.
Especialmente quando se faz uma prática de silêncio interior esta pode ser uma linda chave. Normalmente reclamamos dos pensamentos que não param, reclamamos de como nos perseguem e grudam qual algodão doce em rosto de criança. Mas a vontade e o desejo de se livrar destes pensamentos apenas os torna mais persistentes, uma vez que estamos depositando nossa atenção neles (a atenção é o combustível vital dos pensamentos). Se neste momento pudermos nos perguntar – com verdadeira intenção e curiosidade – “quem sou eu? “, ou “quem percebe estes pensamentos?” , e e buscarmos profundamente a resposta, então haverá um instante de suspensão real. Isto ocorre porquê a atenção se volta para si mesma com o choque da não resposta imediata. Neste instante os pensamentos já não existem mais. Podem voltar se você voltar a levar sua atenção a eles. Mas também é possível que este estado de suspensao se sustente um pouquinho mais, e aí começa aparecer o gostinho de dar uma rápida lambida na mais saborosa compreensão e existência do que somos.E a cada vez que voltam os pensamentos, nos perguntamos novamente quem os percebe, e assim seguimos, e seguimos, na esperança da suspensão inesperada, do refresco de uma ducha de cachoeira inesperada após uma trilha ao sol.
segunda-feira, 3 de março de 2008
O trem e a bagagem
Neste último texto tivemos duas visitas ilustres nos comentários: T.S. Elliot e Spinoza... muito erudito este blog! Acho fantástico, espero que esta troca de visões e idéias esteja fazendo (algum) sentido para vocês.
Já dizia Ramana Maharshi, de modo um tanto simples, sobre a questão da ilusão da liberdade citada no comentário da Lara (Spinoza):
“Se você pega um trem porquê carregar sua bagabem pesada no colo? porquê não colocá-la no bagageiro, e deixar que o trem a leve?”
Neste caso o trem é uma analogia da vida em si mesma, do contínuo fluxo de Consciência que é o que existe, onde nós existimos e do qual não somos diferentes. Entretanto nós, do alto de nossa ignorância, assumimos como certo o fato de de termos controle sobre nosso caminho, e fazemos absoluta questão de continuar a carregar a bagagem pesada no colo. Assuminos como fato que somos separados e diferentes do próprio universo ao buscarmos a imposição de uma vontade pessoal.
Todas as linhas de busca tratam do tema ao explicar a experiência do desapego, do abrir mão, da entrega. Nesta analogia proposta por Ramana a entrega suprema parece tão simples: deixar o trem levar a bagagem e aproveitar a viagem!
Eis aí o que se busca afinal: a felicidade não está em tentar controlar o seu futuro através da sua vontade, mesmo que ao final se alcance a meta, mas descobrir a felicidade em cada instante de entrega à realidade. Abrir a janela do trem e sentir o vento no rosto.
Outro dia me dei conta de que vivo ainda sob a sombra de um aparente juízo final sobre a minha vida e meus atos. Herança sem dúvida de toda a história que vivi, do local em que nasci, do caldo de milênios em que brotei. Uma e outra e outra vez me dou conta e percebo a ilusoriedade que há nesta idéia de que há um “caminho certo” a seguir nesta vida, seja qual seja a dimensão a que nos refiramos.
Mas este final de semana em um pequeno momento me dei conta da sutileza da persistência deste conceito. Como uma tênue sombra ele permanece, como aquele interruptor que você só percebe ao não focalizá-lo no escuro. Como uma voz confortável e acolhedora, tão familiar... e tão ilusória.
Ali mesmo, escondida por trás desta idéia, está a esperança mais sutil e fundamental do “pequeno eu”, a esperança de existência e do controle.
O caminho está dado desde sempre, avante com passos largos! Sem espelho retrovisor e sem mapa, nosso livre arbítrio real é caminhar.
Já dizia Ramana Maharshi, de modo um tanto simples, sobre a questão da ilusão da liberdade citada no comentário da Lara (Spinoza):
“Se você pega um trem porquê carregar sua bagabem pesada no colo? porquê não colocá-la no bagageiro, e deixar que o trem a leve?”
Neste caso o trem é uma analogia da vida em si mesma, do contínuo fluxo de Consciência que é o que existe, onde nós existimos e do qual não somos diferentes. Entretanto nós, do alto de nossa ignorância, assumimos como certo o fato de de termos controle sobre nosso caminho, e fazemos absoluta questão de continuar a carregar a bagagem pesada no colo. Assuminos como fato que somos separados e diferentes do próprio universo ao buscarmos a imposição de uma vontade pessoal.
Todas as linhas de busca tratam do tema ao explicar a experiência do desapego, do abrir mão, da entrega. Nesta analogia proposta por Ramana a entrega suprema parece tão simples: deixar o trem levar a bagagem e aproveitar a viagem!
Eis aí o que se busca afinal: a felicidade não está em tentar controlar o seu futuro através da sua vontade, mesmo que ao final se alcance a meta, mas descobrir a felicidade em cada instante de entrega à realidade. Abrir a janela do trem e sentir o vento no rosto.
Outro dia me dei conta de que vivo ainda sob a sombra de um aparente juízo final sobre a minha vida e meus atos. Herança sem dúvida de toda a história que vivi, do local em que nasci, do caldo de milênios em que brotei. Uma e outra e outra vez me dou conta e percebo a ilusoriedade que há nesta idéia de que há um “caminho certo” a seguir nesta vida, seja qual seja a dimensão a que nos refiramos.
Mas este final de semana em um pequeno momento me dei conta da sutileza da persistência deste conceito. Como uma tênue sombra ele permanece, como aquele interruptor que você só percebe ao não focalizá-lo no escuro. Como uma voz confortável e acolhedora, tão familiar... e tão ilusória.
Ali mesmo, escondida por trás desta idéia, está a esperança mais sutil e fundamental do “pequeno eu”, a esperança de existência e do controle.
O caminho está dado desde sempre, avante com passos largos! Sem espelho retrovisor e sem mapa, nosso livre arbítrio real é caminhar.
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