Li outro dia um parágrafo que se fingia de morto em um canto de página do livro "La paradoja divina" do Sesha, um destes que eu já tinha lido várias vezes, como aquele pedaço de caminho que você acha que já conhece tão bem, e de repente te dá um tombo. Trilhava as páginas do livro no fim de semana de páscoa quando tropecei e caí nesta sutilmente transformadora visão:
"Para que algo que esteja está acontecendo no presente se converta em passado e possa ser projetado ao futuro, é preciso induzir sobre ele (este algo) apetência ao fruto e sentido de posse."
OK, vamos reler.
Para que um conteúdo, ação, emoção, que faça parte do aqui agora - isto é, que esteja sucedendo neste exato instante - seja limitado em forma de passado - seja fixado na massa mental da memória com nome e forma - e possa ser projetado ao futuro - como um pensamento no qual o ‘eu’ viaja - é requerido que o sujeito que presencia o presente diferencie, crie limites para este aqui e agora, separando-o em uma parte que é observada e diferente do sujeito que observa, e através da interpretação mental (desnecessária) encharque a realidade vivida de uma sensação de posse e de busca de fruto para si próprio. Isto cria todo o encademaneto conhecido por Karma!
Bueno, certamente ficou mais complicado.
O mais importante de tudo é: "além da mente linear a Realidade é, sempre foi, e sempre será, não-diferente, não-dual, absoluta, eterna." diz Sesha. É assim que as coisas naturalmente são. Nós é que desfiguramos a cena. É necessária uma ação (e um dispêndio de energia) para nos apropriarmos desta realidade, cortá-la em pedacinhos e nos acreditarmos reais, sujeitos separados da própria realidade que observamos e vivemos, e agentes independentes deste teatro. A Realidade sempre flui, nossa pequena mente é que sutilmente tinge e encharca o presente com as cores do ‘eu’ que necessita se crer real e separado. E consegue. Apenas para depois de muitos ciclos, finalmente, clamar pela re-união (yoga).
terça-feira, 14 de abril de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
Simba safari
O Rodrigo colocou um comentário interessante (tks!) sobre o último texto alguns dias atrás, e quando comecei a responder me dei conta que estava ficando muito longo, então resolvi aproveitar o gancho para continuarmos nossa conversa em um novo texto.
Abaixo a pergunta que faz parte do comentário:
"Na perspectiva mais "selvagem" do ser humano, o pré-conceito acabava por ser uma vantagem na sobrevivência. Explico, lá atrás o fato de um homem selvagem rotular um leão como ameaça o colocou em vantagem para que, logo ao ver o leão, reagiria rapido em fuga para salvar sua vida vida. Então a pergunta, não seria um pouco anti "natural" botar de lado este mecanismo humano ?? "
Talvez a forma mais direta de abordar este ponto seja lembrar que existe um tipo de ação / decisão que deriva da intuição e que não requer o processo dialético mental. A intuição é uma experiêmcia que todos nós já tivermos, mas é pouco compreendida, e isto é natural. A ‘compreensão’ linear da intuição é um processo que ocorre em nossa mente, a qual busca percorrer um processo linear dialético até chegar a uma síntese. No entanto a intuição não flui através do universo percebido pela mente linear, sendo mais um piscar brilhante de uma Realidade não-dual que – de alguma forma – escapa dos véus de separatividade que construímos com o ego e nos atinge. A mente linear não consegue compreender um evento que ocorre além das fronteiras que ela própria cria ao diferenciar o universo. É como se um habitante do universo de duas dimensões procurasse explicar o que é um cubo; ele pode chegar a entender um quadrado, mas não um cubo.
Ao nos depararmos com o processo mental linar habitual é importante invetsigar um pouco mais as funções do conjunto ao qual no ocidente chamamos simplificadamente de mente. Na filosofia Vedanta Advaita se empresta a visão “anatômica” sutil da mente ensinada na escola Samkhya. A mente, que para o ocidente é apenas um órgão, e mesmo filosoficamente na melhor das hipóteses a residência de uma consciência individual (que é por construção separada da realidade que está “fora”), é descrita como um conjunto chamado Antakarana (o órgão de sentidos interno, em analogia aos órgãos de sentidos externos) composto pelas seguintes funções: Manas, Chitta, Buddhi, Ahamkara. Chitta é a substância mental (memória), Manas é a faculdade de pensar, Ahamkara é o sentido de propriedade, e Buddhi a capacidade de discernimento (intelecto), o assento da consciência.
A percepção da realidade não requer a interferência do ego (Ahamkara) que se apropria do que percebe (dando um nome e forma). A agitação da massa mental (chitta) é causada por um processo de pensamentos caóticos, fora da oportunidade de lugar e tempo para que aconteçam; isto encobre a capacidade de discernimento (buddhi). A memória e a capacidade de pensar devem sim ser utilizadas – e muito intensamente – na correta oportunidade de lugar e tempo.
Vamos a um exemplo: um pesquisador deve sim utilizar os conteúdos de sua memória e a capacidade de associação pertinente ao pensar quando está escrevendo um novo artigo acadêmico. O instante presente neste momento pede que ele escreva um artigo, e para tal ele deve utilizar todo o maquinário mental que está ao seu serviço. O ato de refletir sobre o passado, associar idéias e conteúdos da memória e produzir um artigo (neste exemplo) pode ser feito de modo puro, sem a interferência do ego, sem a idéia de apropriação sobre o que se produz, sem a expectativa de benefício próprio em função do resultado que se produz. Uma ação efetuada desta forma é chamada “reta-ação”, não gera efeitos potenciais futuros (karma). A arte está em discernir o que o instante presente demanda de nós. Ou, em outras palavras, efetuar as ações conforme a correta oportunidade de lugar e tempo.
Instantes em que a realidade que acontece nos demanda intensamente nos levam imediatamente a estados de maior presença – isto é natural. Quando o leão (de verdade) aparece é fundamental que o homem possa rapidamente acessar o conteúdo de memória e reagir, tomando uma decisão. Quanto maior a presença neste instante mais inteligente e neutra será a ação tomada. A necessidade de prontidão para a ção implica total atenção e presença. Este é também o princípio das artes marciais. O resultado será tanto mais natural quanto menor a interferência egóica. Ao final, o melhor paradoxo: quanto menor a interferência de seu ego querendo um maior benefício para si mesmo, melhor o resultado obtido para todo o sistema envolvido.
Abaixo a pergunta que faz parte do comentário:
"Na perspectiva mais "selvagem" do ser humano, o pré-conceito acabava por ser uma vantagem na sobrevivência. Explico, lá atrás o fato de um homem selvagem rotular um leão como ameaça o colocou em vantagem para que, logo ao ver o leão, reagiria rapido em fuga para salvar sua vida vida. Então a pergunta, não seria um pouco anti "natural" botar de lado este mecanismo humano ?? "
Talvez a forma mais direta de abordar este ponto seja lembrar que existe um tipo de ação / decisão que deriva da intuição e que não requer o processo dialético mental. A intuição é uma experiêmcia que todos nós já tivermos, mas é pouco compreendida, e isto é natural. A ‘compreensão’ linear da intuição é um processo que ocorre em nossa mente, a qual busca percorrer um processo linear dialético até chegar a uma síntese. No entanto a intuição não flui através do universo percebido pela mente linear, sendo mais um piscar brilhante de uma Realidade não-dual que – de alguma forma – escapa dos véus de separatividade que construímos com o ego e nos atinge. A mente linear não consegue compreender um evento que ocorre além das fronteiras que ela própria cria ao diferenciar o universo. É como se um habitante do universo de duas dimensões procurasse explicar o que é um cubo; ele pode chegar a entender um quadrado, mas não um cubo.
Ao nos depararmos com o processo mental linar habitual é importante invetsigar um pouco mais as funções do conjunto ao qual no ocidente chamamos simplificadamente de mente. Na filosofia Vedanta Advaita se empresta a visão “anatômica” sutil da mente ensinada na escola Samkhya. A mente, que para o ocidente é apenas um órgão, e mesmo filosoficamente na melhor das hipóteses a residência de uma consciência individual (que é por construção separada da realidade que está “fora”), é descrita como um conjunto chamado Antakarana (o órgão de sentidos interno, em analogia aos órgãos de sentidos externos) composto pelas seguintes funções: Manas, Chitta, Buddhi, Ahamkara. Chitta é a substância mental (memória), Manas é a faculdade de pensar, Ahamkara é o sentido de propriedade, e Buddhi a capacidade de discernimento (intelecto), o assento da consciência.
A percepção da realidade não requer a interferência do ego (Ahamkara) que se apropria do que percebe (dando um nome e forma). A agitação da massa mental (chitta) é causada por um processo de pensamentos caóticos, fora da oportunidade de lugar e tempo para que aconteçam; isto encobre a capacidade de discernimento (buddhi). A memória e a capacidade de pensar devem sim ser utilizadas – e muito intensamente – na correta oportunidade de lugar e tempo.
Vamos a um exemplo: um pesquisador deve sim utilizar os conteúdos de sua memória e a capacidade de associação pertinente ao pensar quando está escrevendo um novo artigo acadêmico. O instante presente neste momento pede que ele escreva um artigo, e para tal ele deve utilizar todo o maquinário mental que está ao seu serviço. O ato de refletir sobre o passado, associar idéias e conteúdos da memória e produzir um artigo (neste exemplo) pode ser feito de modo puro, sem a interferência do ego, sem a idéia de apropriação sobre o que se produz, sem a expectativa de benefício próprio em função do resultado que se produz. Uma ação efetuada desta forma é chamada “reta-ação”, não gera efeitos potenciais futuros (karma). A arte está em discernir o que o instante presente demanda de nós. Ou, em outras palavras, efetuar as ações conforme a correta oportunidade de lugar e tempo.
Instantes em que a realidade que acontece nos demanda intensamente nos levam imediatamente a estados de maior presença – isto é natural. Quando o leão (de verdade) aparece é fundamental que o homem possa rapidamente acessar o conteúdo de memória e reagir, tomando uma decisão. Quanto maior a presença neste instante mais inteligente e neutra será a ação tomada. A necessidade de prontidão para a ção implica total atenção e presença. Este é também o princípio das artes marciais. O resultado será tanto mais natural quanto menor a interferência egóica. Ao final, o melhor paradoxo: quanto menor a interferência de seu ego querendo um maior benefício para si mesmo, melhor o resultado obtido para todo o sistema envolvido.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Objetos e sujeitos
Parece tão seco discutir sobre sujeitos e objetos e as características do processo de cognição. Lembro das primeiras vezes que ouvi o Ivan explicar sobre o agente que observa (sujeito) e o que é observado (objeto). Pensava comigo mesmo “ok, mas no que isso me ajuda? Quero compreender a razão da existência, e não argumentar sobre ‘coisas’ que são observadas...”. It´s been a long way, e hoje algumas destas proposições são assustadoramente próximas da realidade cotidiana.
No ocidente nos parece tão óbvio que há um sujeito que vive imerso em uma realidade, e mais, que este sujeito é dotado de consciência, sendo esta última um atributo do primeiro, e naturalmente este sujeito é capaz de observar a realidade externa a ele. Assim nós cremos que a realidade é uma incessante fila de eventos da qual somos testemunhas.
Segundo a filosofia Vedanta Advaita isto também é verdade. O pequeno problema é a palavra ‘também’. Pois existem diversas possibilidades de percepção, ação e vida. Quando dormimos a realidade onírica é real enquanto dura o sonho, ou seja, para o ‘sujeito onírico’. Porém quando acordamos o novo sujeito (digamos vigílico, aquele que você está mais acostumado a pensar que é) percebe que aquela realidade onírica não era “real”, pois você acorda e percebe outra realidade.
Do mesmo modo existem outros estados possíveis de consciência em que o sujeito se dá conta de que o estado vigílico tampouco é real. Estes estados são observação, concentração e meditação. Uma das dinâmicas que mudam conforme se altera o estado de consciência é a relação entre sujeito e objeto.
Vamos considerar a situação em que estamos acordados (no sentido mais rasteiro), executando nossas ações no mundo, como trabalhar, se movimentar, etc. Chamemos de objetos qualquer coisa que possa ser observada ou sentida pelos sentidos. No estado vigílico usualmente percebemos os objetos à distância (particularizamos o objeto ao constituir distância cognitiva entre o sujeito e objeto), mas nem sempre foi assim. Basta observar uma criança e perceber como ela observa um brinquedo: ela está imersa no brinquedo. Nós temos esta capacidade inata de observar a partir da própria coisa observada! Neste modo de percepção não há diferença entre o que se observa e quem observa... Neste modo de percepção não há diferença entre quem ouve uma música e as próprias ondas e cenários que se abrem na melodia e ritmos. Neste modo de percepção não há separação entre o amante, o ser amado e o próprio amor.
Assim é um pouco como se o observador se percebesse observando o objeto a partir do próprio objeto observado. Isto é possível por um elemento de construção fundamental do universo: é a Consciência que – ao final – é testemunha e objeto simultaneamente de tudo o que ocorre. Esta propriedade não é do “eu”, do sujeito que pensa, como normalmente nos habituamos a construir a realidade em nossas mentes. Nós não somos (neste sentido) conscientes de um processo que ocorre externamente a nós. Nós somos parte integrante de um processo auto-consciente, auto-iluminado. Uma interpretação mental de nossa parte – que busca estabelecer um agente que faz a ação - apenas reduz o processo Consciente (maiúsculo) a uma sombra percebida por nós, como se agentes reais do que ocorre fossemos. A mente linear limita e diferencia uma Realidade que existe em uma dimensão que não pode ser percebida pela mente mesma.
Assim o ‘árido’ tema do observador e do objeto descortina trilhas inimagináveis de pesquisa e busca. Não é por menos que o mais profundo livro de Ivan se chama ‘Kshetra Kshetragna: El Campo y el Conocedor del Campo’.
No ocidente nos parece tão óbvio que há um sujeito que vive imerso em uma realidade, e mais, que este sujeito é dotado de consciência, sendo esta última um atributo do primeiro, e naturalmente este sujeito é capaz de observar a realidade externa a ele. Assim nós cremos que a realidade é uma incessante fila de eventos da qual somos testemunhas.
Segundo a filosofia Vedanta Advaita isto também é verdade. O pequeno problema é a palavra ‘também’. Pois existem diversas possibilidades de percepção, ação e vida. Quando dormimos a realidade onírica é real enquanto dura o sonho, ou seja, para o ‘sujeito onírico’. Porém quando acordamos o novo sujeito (digamos vigílico, aquele que você está mais acostumado a pensar que é) percebe que aquela realidade onírica não era “real”, pois você acorda e percebe outra realidade.
Do mesmo modo existem outros estados possíveis de consciência em que o sujeito se dá conta de que o estado vigílico tampouco é real. Estes estados são observação, concentração e meditação. Uma das dinâmicas que mudam conforme se altera o estado de consciência é a relação entre sujeito e objeto.
Vamos considerar a situação em que estamos acordados (no sentido mais rasteiro), executando nossas ações no mundo, como trabalhar, se movimentar, etc. Chamemos de objetos qualquer coisa que possa ser observada ou sentida pelos sentidos. No estado vigílico usualmente percebemos os objetos à distância (particularizamos o objeto ao constituir distância cognitiva entre o sujeito e objeto), mas nem sempre foi assim. Basta observar uma criança e perceber como ela observa um brinquedo: ela está imersa no brinquedo. Nós temos esta capacidade inata de observar a partir da própria coisa observada! Neste modo de percepção não há diferença entre o que se observa e quem observa... Neste modo de percepção não há diferença entre quem ouve uma música e as próprias ondas e cenários que se abrem na melodia e ritmos. Neste modo de percepção não há separação entre o amante, o ser amado e o próprio amor.
Assim é um pouco como se o observador se percebesse observando o objeto a partir do próprio objeto observado. Isto é possível por um elemento de construção fundamental do universo: é a Consciência que – ao final – é testemunha e objeto simultaneamente de tudo o que ocorre. Esta propriedade não é do “eu”, do sujeito que pensa, como normalmente nos habituamos a construir a realidade em nossas mentes. Nós não somos (neste sentido) conscientes de um processo que ocorre externamente a nós. Nós somos parte integrante de um processo auto-consciente, auto-iluminado. Uma interpretação mental de nossa parte – que busca estabelecer um agente que faz a ação - apenas reduz o processo Consciente (maiúsculo) a uma sombra percebida por nós, como se agentes reais do que ocorre fossemos. A mente linear limita e diferencia uma Realidade que existe em uma dimensão que não pode ser percebida pela mente mesma.
Assim o ‘árido’ tema do observador e do objeto descortina trilhas inimagináveis de pesquisa e busca. Não é por menos que o mais profundo livro de Ivan se chama ‘Kshetra Kshetragna: El Campo y el Conocedor del Campo’.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Presente, sempre
O ego não é mais do que a sensação de localização e apropriação dos conteúdos residentes na memória.
É quase impossível de se mover mentalmente após ler esta frase de Sesha.
O presente é o ambiente no qual tudo o que se sucede acontece. O presente é a chave mestra que pode nos abrir a porta da compreensão, do discernimento real. E o mais belo de tudo é que no Presente o ego não existe. Vejamos novamente a frase inicial.
Toda a nossa imensa fundação subterramentalemocional que sustenta a ilusão de um agente (o “eu”) diferenciado do que acontece em nossa volta é construída a partir deste simples – porém de consequências imensas – ato: a sensação de localização e apropriação dos conteúdos da memória.
Nosso dia a dia é uma repetição interminável do ato de matar o presente e voltar para a memória. Senão vejamos: quando vivemos uma nova experiência é possível que sintamos aquela sensação de surpresa (e presença), por exemplo, quando nos deparamos com uma linda paisagem. No instante seguinte matamos o presente ao “etiquetar” a experiência; por exemplo, podemos pensar “que linda esta paisagem que estou observando”. Este pensamento denota que o processo de etiquetagem da experiência, e armazenamento na memória, já ocorreu. Ou seja, já não se está vivendo o presente, mas sim a memória.
Este rapidíssimo processo introduz um viés de diferenciação na percepção do mundo. Por mais sutil que possa parecer, há uma sensação de posse do ocorrido, e esta sensação é o “eu” - sem esta sensação de posse da memória, não há “eu”. De fato, no instante mesmo da surpresa com a paisagem não havia “eu”. Ele só aparece no instante seguinte, quando se dá o processo de etiquetagem e armazenamento. O Vedanta Advaita denomina este processo de nama e rupa (nome e forma).
Se conseguirmos nos treinar a buscar no presente o que as coisas são sem atribuir nome e forma – ou seja, sem o peso da posse mental-emocional sobre a realidade – conseguiremos começar a compreender que não somos diferentes daquilo mesmo que acontece. Muitas práticas simples podem nos ajudar; a mais fácil é escolher um objeto e observá-lo em cada pequeno detalhe, mas sem atribuir-lhe qualquer definição previamente existente em sua mente (pois se assim o–fizer você não estará no presente, mas na sua própria memória). Continue observando o objeto, e perceba como a sensação muda quando você vê o objeto a partir dele mesmo, e não a partir de sua memória. Esta sensação é a porta de entrada do presente. Este é um exemplo de prática de meditação externa.
A contínua prática de se viver no presente naturalmente nos mostra que existem outros agentes de percepção que não o “eu”, presentes em estados de consciência superiores do ponto de vista de discernimento da Realidade.
Sem a sombra e o cheiro encharcado da constante apropriação das ações que acontecem no presente pelo insaciável ego há uma trilha infindável de uma leveza e liberdade que talvez nem consigamos suspeitar.
É quase impossível de se mover mentalmente após ler esta frase de Sesha.
O presente é o ambiente no qual tudo o que se sucede acontece. O presente é a chave mestra que pode nos abrir a porta da compreensão, do discernimento real. E o mais belo de tudo é que no Presente o ego não existe. Vejamos novamente a frase inicial.
Toda a nossa imensa fundação subterramentalemocional que sustenta a ilusão de um agente (o “eu”) diferenciado do que acontece em nossa volta é construída a partir deste simples – porém de consequências imensas – ato: a sensação de localização e apropriação dos conteúdos da memória.
Nosso dia a dia é uma repetição interminável do ato de matar o presente e voltar para a memória. Senão vejamos: quando vivemos uma nova experiência é possível que sintamos aquela sensação de surpresa (e presença), por exemplo, quando nos deparamos com uma linda paisagem. No instante seguinte matamos o presente ao “etiquetar” a experiência; por exemplo, podemos pensar “que linda esta paisagem que estou observando”. Este pensamento denota que o processo de etiquetagem da experiência, e armazenamento na memória, já ocorreu. Ou seja, já não se está vivendo o presente, mas sim a memória.
Este rapidíssimo processo introduz um viés de diferenciação na percepção do mundo. Por mais sutil que possa parecer, há uma sensação de posse do ocorrido, e esta sensação é o “eu” - sem esta sensação de posse da memória, não há “eu”. De fato, no instante mesmo da surpresa com a paisagem não havia “eu”. Ele só aparece no instante seguinte, quando se dá o processo de etiquetagem e armazenamento. O Vedanta Advaita denomina este processo de nama e rupa (nome e forma).
Se conseguirmos nos treinar a buscar no presente o que as coisas são sem atribuir nome e forma – ou seja, sem o peso da posse mental-emocional sobre a realidade – conseguiremos começar a compreender que não somos diferentes daquilo mesmo que acontece. Muitas práticas simples podem nos ajudar; a mais fácil é escolher um objeto e observá-lo em cada pequeno detalhe, mas sem atribuir-lhe qualquer definição previamente existente em sua mente (pois se assim o–fizer você não estará no presente, mas na sua própria memória). Continue observando o objeto, e perceba como a sensação muda quando você vê o objeto a partir dele mesmo, e não a partir de sua memória. Esta sensação é a porta de entrada do presente. Este é um exemplo de prática de meditação externa.
A contínua prática de se viver no presente naturalmente nos mostra que existem outros agentes de percepção que não o “eu”, presentes em estados de consciência superiores do ponto de vista de discernimento da Realidade.
Sem a sombra e o cheiro encharcado da constante apropriação das ações que acontecem no presente pelo insaciável ego há uma trilha infindável de uma leveza e liberdade que talvez nem consigamos suspeitar.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Domingos de meditação
Neste segundo semestre o Instituto Brahmavidya, coordenado pelo Eloi, estará fazendo encontros mensais de meditação aos domingos.
Para aqueles que gostariam de conhecer um pouco melhor a simplicidade e profundidade da filosofia e da prática Vedanta Advaita (tema de fundo deste blog), e para aqueles que sempre quiseram praticar mas tem dificuldade de encontrar o tempo e a disciplina, esta é uma grande oportunidade.
Instituto Brahmavidya
Vedanta Advaita Sesha
ENCONTROS DE MEDITAÇÃO INTERNA
“SER SILÊNCIO”
UM DOMINGO AO MÊS AS 07H3O
DIAS: 15/02, 15/03, 12/04, 10/05, 07/06, 12/07, 09/08, 06/09, 04/10, 08/11, 06/12.
Obs: Não será permitido entrar após as 07h30.
Coordenação: Eloi Campos (9101-9086)
Rua Indiana, 1403, Brooklin (5506-5220)
Para aqueles que gostariam de conhecer um pouco melhor a simplicidade e profundidade da filosofia e da prática Vedanta Advaita (tema de fundo deste blog), e para aqueles que sempre quiseram praticar mas tem dificuldade de encontrar o tempo e a disciplina, esta é uma grande oportunidade.
Instituto Brahmavidya
Vedanta Advaita Sesha
ENCONTROS DE MEDITAÇÃO INTERNA
“SER SILÊNCIO”
UM DOMINGO AO MÊS AS 07H3O
DIAS: 15/02, 15/03, 12/04, 10/05, 07/06, 12/07, 09/08, 06/09, 04/10, 08/11, 06/12.
Obs: Não será permitido entrar após as 07h30.
Coordenação: Eloi Campos (9101-9086)
Rua Indiana, 1403, Brooklin (5506-5220)
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Sobre homens e ratos
Hoje acordei às 5:20h. Me levantei da cama e me sentei na almofada do quarto ao lado para praticar. Me cobri com um cobertor, ajustei a posição das pernas, fechei os olhos. Às 6:15 o despertador tocou novamente. Me levantei e fui tomar um banho rápido. Me vesti e fui buscar os meninos para levá-los à escola. Conversamos no caminho – entre jogos de celular e músicas no i-pod e os deixei na portaria. Mais meia hora de trânsito e cheguei ao trabalho. Seis horas depois fui almoçar. Na saída do restaurante carros de bombeiro e um pequeno incêndio no prédio vizinho. Mais seis horas e estou escrevendo alguma coisa, no que parece ser o instante presente. Depois voltarei para casa, para tomar outro banho, comer alguma coisa, deitar e, após algum tempo, dormir. Ou algo assim. Posso viver mais dez anos (ou vinte) deste modo. Mas como estou de fato vivendo? O que foi real neste dia? Quantos instantes de presença?
Posso rechear as horas e os minutos com centenas de emoções e pensamentos, mas nada disso importaria. Como os romances de trezentas páginas - lençóis encharcados de emoção. Afinal, precisamos nos distrair. Sem consciência e presença só nos resta a opção da distração... Nós não conseguimos sequer alguns minutos de concentração e paz mental, como poderíamos sobreviver a um dia de paz? De fato não conseguimos, de certo modo não estamos prontos. E de certo modo – segundo dizem os mestres – estamos sempre prontos, já que a ignorância é absolutamente ilusória. Enquanto nadamos nesta lagoa de ignorância a alternativa para manutenção da sanidade (??) é a distração. E assim trabalhamos, amamos, brigamos, vivemos e morremos – tudo distração, porque não suportamos sustentar a presença por mais que alguns segundos. Não suportamos nos desapegar de nossos mais rasos medos, de nossos vícios emocionais com nossos parceiros, de nossas tão amadas e bem construídas imagens. Não concebemos ser possível um dia sem uma troca, uma negociação emocional implícita entre eu e os outros – seja mulher, marido, filhos, colegas, chefes, garçons... Não concebemos ser livres. Assim resta a distração – que cumpre bem o papel da descompressão. Assim podemos manter a razão...
Dizia Nisargadatta: “ mantenha-se no centro; quando você caminha através de uma multidão você não luta com cada pessoa que passa, você encontra seu caminho por entre elas. Assim devemos fazer em nossa prática ou em nosso dia a dia quando percebemos as emoções e pensamentos se aproximando.”
Este tipo de liberdade que parece quase inverossímil é a única realidade. Assim posso rever meu dia, e vejo que passei por muitas multidões; muitas vezes lutei sem perceber, e em outras achei um modo de permanecer no centro. Assim espero o próximo dia, e minha única expectativa é não esquecer de lembrar disto.
Posso rechear as horas e os minutos com centenas de emoções e pensamentos, mas nada disso importaria. Como os romances de trezentas páginas - lençóis encharcados de emoção. Afinal, precisamos nos distrair. Sem consciência e presença só nos resta a opção da distração... Nós não conseguimos sequer alguns minutos de concentração e paz mental, como poderíamos sobreviver a um dia de paz? De fato não conseguimos, de certo modo não estamos prontos. E de certo modo – segundo dizem os mestres – estamos sempre prontos, já que a ignorância é absolutamente ilusória. Enquanto nadamos nesta lagoa de ignorância a alternativa para manutenção da sanidade (??) é a distração. E assim trabalhamos, amamos, brigamos, vivemos e morremos – tudo distração, porque não suportamos sustentar a presença por mais que alguns segundos. Não suportamos nos desapegar de nossos mais rasos medos, de nossos vícios emocionais com nossos parceiros, de nossas tão amadas e bem construídas imagens. Não concebemos ser possível um dia sem uma troca, uma negociação emocional implícita entre eu e os outros – seja mulher, marido, filhos, colegas, chefes, garçons... Não concebemos ser livres. Assim resta a distração – que cumpre bem o papel da descompressão. Assim podemos manter a razão...
Dizia Nisargadatta: “ mantenha-se no centro; quando você caminha através de uma multidão você não luta com cada pessoa que passa, você encontra seu caminho por entre elas. Assim devemos fazer em nossa prática ou em nosso dia a dia quando percebemos as emoções e pensamentos se aproximando.”
Este tipo de liberdade que parece quase inverossímil é a única realidade. Assim posso rever meu dia, e vejo que passei por muitas multidões; muitas vezes lutei sem perceber, e em outras achei um modo de permanecer no centro. Assim espero o próximo dia, e minha única expectativa é não esquecer de lembrar disto.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
mapa das trilhas
Em muitas conversas ouço perguntas inquietas sobre como podemos trilhar um caminho de busca verdadeira no meio de um ambiente que nos impulsiona para o lado oposto. O que é a busca na vida cotidiana, para quem não se recolheu a um mosteiro? Como não nos deixarmos levar pelo materialismo espiritual?
São questões fundamentais.
No Bhagavad Gita encontramos o seguinte:
“Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e faze as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com teu sucesso ou insucesso, com teu ganho ou prejuízo pessoal. Não caias, porém, em ociosidade e inanição, como acontece facilmente com os que perderam a ilusão de esperar uma recompensa de suas ações.
Coloca-te no meio entre esses dois extremos e cumpre, em tranquila resignação, o dever por ser dever, e não pela expectativa da recompensa. Conserva ânimo igual na ventura ou desventura: assim é que faz o yogi.
Por muito importante que seja tua reta-ação, o primeiro lugar pertence sempre ao reto-pensamento. Procura, portanto, o teu refúgio na paz e calma do reto-pensar... quem atingiu a consciência de um yogi é capaz de elevar-se acima dos resultados bons e maus. Esforça-te por atingir esta consciência, porque ela é a chave que abre o mistério da ação.
Quando te tiveres elevado acima da trama das ilusões, não te inquietarás com os cuidados e questões a respeito das doutrinas, nem com disputas sobre ritos, cerimoniais e outros enfeites dispensáveis da vestimenta da idéia espiritual.
Livre serás, então, de todas as opiniões alheias, tanto das que se acham nos livros sagrados, como das dos teólogos eruditos ou dos que ousam interpretar o que não compreendem; em lugar disso, fixarás a tua mente na mais séria contemplação do espírito, e assim alcançarás a harmonia com o Eu real, que é a base de tudo.”
Este é o mapa das trilhas de busca e ação em nossas vidas. Se conseguirmos vislumbrar como verdade uma pequena parte do que está acima escrito, e procurarmos torná-la real e prática em nossas vidas, já daremos um imenso passo em nossa busca. Imersos em nossa sociedade atual – construída sobre os pilares do egoísmo, oposto infinitamente distante da harmonia da não-dualidade - por vezes nos parece quase fantasia uma proposta de vida como esta. Entretanto, é a única realidade possível aos olhos da busca com o coração.
São questões fundamentais.
No Bhagavad Gita encontramos o seguinte:
“Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e faze as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com teu sucesso ou insucesso, com teu ganho ou prejuízo pessoal. Não caias, porém, em ociosidade e inanição, como acontece facilmente com os que perderam a ilusão de esperar uma recompensa de suas ações.
Coloca-te no meio entre esses dois extremos e cumpre, em tranquila resignação, o dever por ser dever, e não pela expectativa da recompensa. Conserva ânimo igual na ventura ou desventura: assim é que faz o yogi.
Por muito importante que seja tua reta-ação, o primeiro lugar pertence sempre ao reto-pensamento. Procura, portanto, o teu refúgio na paz e calma do reto-pensar... quem atingiu a consciência de um yogi é capaz de elevar-se acima dos resultados bons e maus. Esforça-te por atingir esta consciência, porque ela é a chave que abre o mistério da ação.
Quando te tiveres elevado acima da trama das ilusões, não te inquietarás com os cuidados e questões a respeito das doutrinas, nem com disputas sobre ritos, cerimoniais e outros enfeites dispensáveis da vestimenta da idéia espiritual.
Livre serás, então, de todas as opiniões alheias, tanto das que se acham nos livros sagrados, como das dos teólogos eruditos ou dos que ousam interpretar o que não compreendem; em lugar disso, fixarás a tua mente na mais séria contemplação do espírito, e assim alcançarás a harmonia com o Eu real, que é a base de tudo.”
Este é o mapa das trilhas de busca e ação em nossas vidas. Se conseguirmos vislumbrar como verdade uma pequena parte do que está acima escrito, e procurarmos torná-la real e prática em nossas vidas, já daremos um imenso passo em nossa busca. Imersos em nossa sociedade atual – construída sobre os pilares do egoísmo, oposto infinitamente distante da harmonia da não-dualidade - por vezes nos parece quase fantasia uma proposta de vida como esta. Entretanto, é a única realidade possível aos olhos da busca com o coração.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
em 2009...
Uma citação de Nisargadatta para inspiração no próximo ano:
Love says "I am everything".
Wisdom says "I am nothing".
Between the two, my life flows.
Love says "I am everything".
Wisdom says "I am nothing".
Between the two, my life flows.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Prática da beira do mar
Estava passando um final de semana na praia alguns dias atrás, e fui até a beira do mar, naquela faixa que as ondas varrem quando chegam, e varrem de volta quando se vão, às vezes com água acima da canela, às vezes seco.
Observava o horizonte e as ondas, e ouvia cada som: os ventos, ondas quebrando lá no fundo, água raspando areia ali pertinho, espuma no ar, e um som base de fundo. Enquanto isso deixei os pés se fixarem na areia enquanto a água ia e vinha. Fechei os olhos e comecei a buscar o equilíbrio físico: conforme a água passava os pontos de equilíbrio dos meus pés com a areia mudavam. A cada mudança buscava novo ponto de equilíbrio, sem tirar os pés do chão, sem tirar a atenção de tudo o que ocorria em minha volta, de olhos fechados. Sem antecipar a chegada da onda por causa de um novo estrondo, mas buscando a flexibilidade a cada mudança. Sem tirar os pés do chão, aceitando cada diferente onda e volume de água, cada corrente e mudança de topografia da areia, apenas buscando fluir com a situação, em equilíbrio móvel, mas profundo. Percebi também como isto é a base de todo o aikido – mas isto fica para um outro dia.
Assim permaneci por um longo tempo.
Por vezes vinha para dentro (de mim mesmo) e me dava conta de um grande silêncio e paz. A simetria entre o externo e o interno é linda: a busca do equilíbrio físico (externo) exige plena atenção, e este estado é o mesmo, seja dentro ou fora. Assim quando estamos em um estado de maior harmonia fora, e nos voltamos para dentro, o mesmo estado ali se mostrará. E vice-versa.
Cada instante de vida traz uma possibilidade nova de aprendermos a buscar e compreender. Como no nosso trabalho diário. Ontem conversava com uma pessoa que faz mentoring comigo, e ela falava sobre seus pontos positivos / negativos e como “melhorar”. Às vezes estamos tão rígidos presos a uma necessidade de enquadramento - que é fruto basicamente dos nossos medos mais simples – que qualquer movimento diferente do previsto nos desequilibra, nos derruba. Há que ser buscada uma harmonia das nossas forças naturais com a realidade, de modo que possamos viver em estado de equilíbrio. Este estado de equilíbrio é único para cada indivíduo. Temos capacidades desenvolvidas e outras a desenvolver, mas não sob a ótica de um molde externo, e sim do ponto de vista mais sábio e interno, aquele que nos levará a um equilíbrio dinâmico com a realidade. Como permanecer em equilíbrio e paz à beira do mar.
Observava o horizonte e as ondas, e ouvia cada som: os ventos, ondas quebrando lá no fundo, água raspando areia ali pertinho, espuma no ar, e um som base de fundo. Enquanto isso deixei os pés se fixarem na areia enquanto a água ia e vinha. Fechei os olhos e comecei a buscar o equilíbrio físico: conforme a água passava os pontos de equilíbrio dos meus pés com a areia mudavam. A cada mudança buscava novo ponto de equilíbrio, sem tirar os pés do chão, sem tirar a atenção de tudo o que ocorria em minha volta, de olhos fechados. Sem antecipar a chegada da onda por causa de um novo estrondo, mas buscando a flexibilidade a cada mudança. Sem tirar os pés do chão, aceitando cada diferente onda e volume de água, cada corrente e mudança de topografia da areia, apenas buscando fluir com a situação, em equilíbrio móvel, mas profundo. Percebi também como isto é a base de todo o aikido – mas isto fica para um outro dia.
Assim permaneci por um longo tempo.
Por vezes vinha para dentro (de mim mesmo) e me dava conta de um grande silêncio e paz. A simetria entre o externo e o interno é linda: a busca do equilíbrio físico (externo) exige plena atenção, e este estado é o mesmo, seja dentro ou fora. Assim quando estamos em um estado de maior harmonia fora, e nos voltamos para dentro, o mesmo estado ali se mostrará. E vice-versa.
Cada instante de vida traz uma possibilidade nova de aprendermos a buscar e compreender. Como no nosso trabalho diário. Ontem conversava com uma pessoa que faz mentoring comigo, e ela falava sobre seus pontos positivos / negativos e como “melhorar”. Às vezes estamos tão rígidos presos a uma necessidade de enquadramento - que é fruto basicamente dos nossos medos mais simples – que qualquer movimento diferente do previsto nos desequilibra, nos derruba. Há que ser buscada uma harmonia das nossas forças naturais com a realidade, de modo que possamos viver em estado de equilíbrio. Este estado de equilíbrio é único para cada indivíduo. Temos capacidades desenvolvidas e outras a desenvolver, mas não sob a ótica de um molde externo, e sim do ponto de vista mais sábio e interno, aquele que nos levará a um equilíbrio dinâmico com a realidade. Como permanecer em equilíbrio e paz à beira do mar.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Liberdade
Dizemos ansiar pela liberdade, ansiar por tirarmos este peso de existir em uma certa forma, sermos livres... Quão amplamente ilusórios e plenos de ignorância são nossos desejos recorrentes. Mas se somos fundamentalmente o brilho da ignorância associado a um reflexo da infinita consciência, não há qualquer surpresa nisso. De fato se diz que a ignorância (em um sentido bastante alto) é que dá forma a nós enquanto indivíduos, pois a remoção da primeira nos leva de volta ao estado não-dual de existência plena. É como a poeira (ignorância) que dá forma a um invisível espelho de cristal (Consciência).E quando uma pequeníssima área deste espelho é limpada o brilho é tão forte que – algumas vezes – nos faza recuar. De volta ao conforto das certezas nascidas da dúvida.
A liberdade é tão potencialmente devastadora que por vezes nos traz nossos mais remotos e profundos medos. Perceber que de fato somos algo de natureza muito distinta daquilo que usualmente nos acostumamos a pensar que somos traz um assombro comprido, altíssimo, sem chão. Dar-se conta de não ser uma personalidade e mesmo assim observar que se pode seguir vivendo de modo realmente livre é espantoso. O que fazer com todo aquele arsenal de gostos, apegos, raivas de estimação, justificativas e medos colecionados? Como abrir mão desta minha imagem tão árduamente moldada? Aqui começa o trabalho do buscador, pois há que se suar, e muito, muito mesmo.
A liberdade não é fazer o que você quer. Veja o contra-senso: você quer controlar a sua forma de liberdade. Uma vontade da sua personalidade, nascida de seu desejo e apego, só gera mais desejo, apego e controle, qualidades que não levam à liberdade.
O livre arbítrio de não se apoderar do que ocorre, aceitar fazer parte do mundo sem buscar um fruto egoísta: esta é a natureza da liberdade. Ao alcance do coração, para todos nós. Mas precisamos buscar.
A liberdade é tão potencialmente devastadora que por vezes nos traz nossos mais remotos e profundos medos. Perceber que de fato somos algo de natureza muito distinta daquilo que usualmente nos acostumamos a pensar que somos traz um assombro comprido, altíssimo, sem chão. Dar-se conta de não ser uma personalidade e mesmo assim observar que se pode seguir vivendo de modo realmente livre é espantoso. O que fazer com todo aquele arsenal de gostos, apegos, raivas de estimação, justificativas e medos colecionados? Como abrir mão desta minha imagem tão árduamente moldada? Aqui começa o trabalho do buscador, pois há que se suar, e muito, muito mesmo.
A liberdade não é fazer o que você quer. Veja o contra-senso: você quer controlar a sua forma de liberdade. Uma vontade da sua personalidade, nascida de seu desejo e apego, só gera mais desejo, apego e controle, qualidades que não levam à liberdade.
O livre arbítrio de não se apoderar do que ocorre, aceitar fazer parte do mundo sem buscar um fruto egoísta: esta é a natureza da liberdade. Ao alcance do coração, para todos nós. Mas precisamos buscar.
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