segunda-feira, 28 de abril de 2008

where to?

Por vezes me canso de navegar
ainda que sem direito, bem sei...

por vezes me canso de falar
me canso de ouvir
e de me ouvir
de tentar compreender o que pode ser
tentar ser o que não compreendo

por vezes me canso deste cansaço mesmo
do peso de vestir uma carne
do moto quase contínuo de respirar
de mais de um bilhão de batimentos

por vezes me assusto
instantes em que a dúvida congela o discernimento
o apego me ancora na ignorância
e as sombras iluminam cercas maiores que os caminhos

sem o mapa do conforto do corpo
sem as coordenadas do buscar um sentido com final feliz
sem a bússola das crenças construídas de argila mental
busco o norte nas estrelas

para onde ir?

por vezes vislumbro no meu céu
sem névoa ou dúvida
sem perguntas
sem quem pergunte
as sussuradas sílabas iniciais de uma resposta

Ir sem retorno
a volta nunca será para onde se partiu
Ir
para onde se espera,
se espera,
e se espera
um pouco mais
e enquanto nada mais se passa
o esperar deixa de ser temporal
se desnuda como uma existência em si mesma

Ir
onde a existência brilha poderosa e brutal
cega os sentidos imaturos e decepa membros ineptos
onde Ser sem interrupção tempera a estrutura mental
onde a suave e crescente compreensão do que É
acaricia uma super-nova
a semente do amor

Ir logo ali
ali onde o onde já não traz significado
posto que é sem resposta
local sem endereço
do diverso para o um
da área para o ponto
da certeza para a potencialidade

Às vezes isto tudo não é mais que um segundo
um sussurrado vaga-lume
farol entre penhascos na noite de tempestade
continuo navegando

sexta-feira, 18 de abril de 2008

amsterdam

Acabo de voltar de dez dias em Amsteradm, a trabalho.
Uma viagem nunca é apenas uma viagem no sentido externo ou físico; entrar em um avião que voa a 11 km de altura, respirar um ar de outra língua, conhecer pessoas diferentes, a distância do conhecido, o desconforto e as surpresas... sempre aparecem desafios às nossas habituais certezas. Sempre acontece uma viagem interior, paralela e transversal ao concreto imaginado.
Passei um final de semana por lá, e andei muito.

Adoro andar, é a velocidade mais perfeita para a percepção do mundo. Experimente caminhar por uma rota que você normalmente faz de carro, e ficará muito evidente tudo o que perdemos ao acelerar sobre caminhos aparentemente conhecidos. Um universo de detalhes e novidades se abre aos sentidos.
Caminhei pelo Vondelpark (um central park de Amsterdam), observando e sentindo. O novo sempre traz esta curiosidade de conhecer... e daí à certeza de que o simples ato de perceber o mundo é impressionantemente vivo é um pequeno passo. Peceber que se está vivo, e que existe a chance de conhecer, que existe uma propriedade chamada atenção que me permite conhecer, e que ela é intrínseca à própria consciência... perceber que a atenção flui, e que às vezes algo parece tão próximo de você que você já não sabe diferenciar o que percebe de você mesmo... é algo incrível. E está sempre aí, em qualquer e toda parte do mundo, sempre à nossa disposição.

Fui ao Rijksmuseum, e ali passeei pela história da Holanda. Não consegui apreciar a beleza das pinturas, pois acabei afogado no fogueira das vaidades. Impressionante como o ser humano, era após era, cai nas mesmas armadilhas dos desejos do olimpo sonhado do egoísmo. As sempre iguais medalhas de ouro do ilusório pódio das conquistas individuais. Um grande almirante e seu busto em mármore, a petrificação do orgulho. Um trio de ricos comerciantes semi-eternizados em uma tela, tintas lindas perfeitamente retratam os olhares empapados de ilusão e arrogância. Uma época após outra, uma guerra após outra, uma fortuna após outra, uma miséia após outra, tudo o que buscamos é petrificar a ilusão de que somos nós que atuamos e decidimos, erigir um busto do granito nascido da ambição do fruto de nossas ações, pintar um quadro magnífico da nossa absoluta ignorância sobre quem somos. Isto é a raiz do Samsara, a eterna roda do Karma.

sexta-feira, 28 de março de 2008

perdidos no espaço

Encontrar o tempo para praticar não é fácil. Todo aquele que já praticou qualquer esporte ou até meditação em silêncio sabe que em determinado momento, quando aparece uma janela na agenda e você percebe que poderia iniciar a prática, pode surgir uma vozinha dizendo “agora não, daqui a pouco eu faço”, ou então “acho que hoje não será um bom dia”, ou talvez “com certeza posso fazer isso mais tarde”, ou “agora preciso fazer aquelas compras/arrumar o escritório/ etc.etc.etc.”.
Ainda assim, algumas vezes vencemos a inércia e conseguimos sentar e praticar. Daí chega aquele momento em que você diz a você mesmo: “acho que já está bom”, ou então “preciso terminar para fazer isto ou aquilo”, ou então “não aguento mais, minha cabeça não para é além disso minha perna está doendo”, ou mesmo “ eu não sirvo para isso”, ou ainda “isso é uma tortura”. A lista é interminável, como também o-são nossos diálogos internos. O que será que nos faz seguir em frente? O que nos motiva a um minuto mais, alguns segundos mais?
Já falamos anteriormente sobre a inquietação, a curiosidade e a disciplina. Não sei se nesta ordem, mas são fatores chave para a busca. Se sentar para praticar sem curiosidade sobre o que poderá ser é o caminho mais certo para um longo suplício. Não cultivar a disciplina de frequência e tempo de prática é o caminho mais curto para a desistência. Não encontrar inquietação com o estar-vivo, com o que é a realidade, o amor, a compreensão, a existência ou a perecepção da mesma, é o não-caminho.
Dois pontos hoje me chamam a atenção.
O primeiro é como damos poder a estes diálogos internos.
Quando estas vozes aparecerem com força a seguinte questão: quem está falando? quem está com preguiça? quem acha que é hora de parar a prática? A resposta invariavelmente será: o bom e velho conhecido “eu”, a personalidade, o ego, que tem RG e sobrenome. Exige muito desprendimento, porém se você conseguir fazer esta pergunta, e mais ainda, encarar a resposta de frente, este diálogo certamente murchará.
O segundo é a falta de curiosidade.
Como podemos perder tão facilmente a capacidade de nos surpreender? A resposta normalmente passa pela memória: a primeira vez que vemos ou encontramos algo temos aquela doce e leve sensação de surpresa; na segunda vez a surpresa já não é tão intensa, lá pela quinta vez não temos mais grande interesse. O que passa é que registramos aquele objeto com um nome em nossa memória. Deste momento em diante quando nos encontramos novamente com o objeto nossa mente aciona o nome em nossa memória, buscando o significado a ele associado. Desta forma não nos relacionamos mais com o objeto “real”, mas sim com a nome/siginificado registrados em nossa memória. É fácil testar: mostre uma caneta esferográfica para alguém e pergunte o que é. A pessoa provavelmente responderá que é uma caneta, sem sequer fixar os olhos no objeto. Pergunte detalhes, e ela não saberá responder. Esta pessoa se relacionou com sua própria memória, não com o objeto a que foi apresentada.
Fazemos isso o tempo todo, e deste modo perdemos a chance de nos relacionar com o mundo. Presos em nossa rede de registros nos relacionamos umbelicalmente com nossas próprias idéias sobre o mundo, e nos privamos de conhecer o mundo. Para conhecer o mundo há que se esquecer do eu.
Os mais velhos devem se lembrar do robô de perdidos no espaço, que dizia “não tem registro” e daí pifava. Pois é...

sexta-feira, 14 de março de 2008

koans

" To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour"

William Blake: "Auguries of Innocence"

Recebi este belo poema esta semana de uma amiga, e achei que seria ótimo compartilhá-lo no blog. A ‘eternidade em uma hora’ me lembrou dos koans.
Koan... já ouviram esta palavra? Um koan é uma pergunta, uma colocação, que tem como resultado deixar nosso equipamento lógico de raciocínio ininterrupto – nossa mente - em suspenso. Suspensão, como naqueles momentos do cinema em que o herói (tipo... Indiana Jones) está fugindo dos bandidos pela selva (trilha sonora é uma orquestra em altíssimo volume e ritmo forte) e de repente cai em um precipício com um riozinho lááá embaixo. No momento em que ele começa a cair o movimento é mostrado em câmara super lenta, e a trilha sonora é apenas o som do vento. Este é um momento de suspensão.
O zen-budismo é a escola mais conhecida por fazer uso de koans.
O Koan, ao trazer uma pergunta sem lógica racional, traz a probabilidade de criação de um salto quântico em nosso labirinto linear mental. Como em um salto conseguimos enxergar além das paredes racionais de nossa memória. Por exemplo, um famoso koan é “qual o som de uma só mão batendo palmas?”. A surpresa pela pergunta sem resposta lógica pode – ainda que por um instate - deixar nossa mente em suspensão. E este é o momento mágico, em que podemos nos dar conta do que há antes da mente pensante, e que está sempre ali.
Porém o Koan mais famoso de todos os tempos é outro. A flecha deste koan é muito poderosa, mas só se torna real quando a pergunta é ouvida com total disponibilidade de coração, quando o alvo então se abre.
Este koan é curto e certeiro, não se amedronta, não se acanha, infinitamente busca seu alvo uma vez que seja lançado. “Quem é você?“. Eis aí o maior de todos os koan.
Ramana Maharshi, em sua didática exposição sobre o método de auto-inquirição, explica como esta simples pergunta pode ter efeitos devastadores sobre nosso moto-quase-contínuo de pensamento.
Especialmente quando se faz uma prática de silêncio interior esta pode ser uma linda chave. Normalmente reclamamos dos pensamentos que não param, reclamamos de como nos perseguem e grudam qual algodão doce em rosto de criança. Mas a vontade e o desejo de se livrar destes pensamentos apenas os torna mais persistentes, uma vez que estamos depositando nossa atenção neles (a atenção é o combustível vital dos pensamentos). Se neste momento pudermos nos perguntar – com verdadeira intenção e curiosidade – “quem sou eu? “, ou “quem percebe estes pensamentos?” , e e buscarmos profundamente a resposta, então haverá um instante de suspensão real. Isto ocorre porquê a atenção se volta para si mesma com o choque da não resposta imediata. Neste instante os pensamentos já não existem mais. Podem voltar se você voltar a levar sua atenção a eles. Mas também é possível que este estado de suspensao se sustente um pouquinho mais, e aí começa aparecer o gostinho de dar uma rápida lambida na mais saborosa compreensão e existência do que somos.E a cada vez que voltam os pensamentos, nos perguntamos novamente quem os percebe, e assim seguimos, e seguimos, na esperança da suspensão inesperada, do refresco de uma ducha de cachoeira inesperada após uma trilha ao sol.

segunda-feira, 3 de março de 2008

O trem e a bagagem

Neste último texto tivemos duas visitas ilustres nos comentários: T.S. Elliot e Spinoza... muito erudito este blog! Acho fantástico, espero que esta troca de visões e idéias esteja fazendo (algum) sentido para vocês.
Já dizia Ramana Maharshi, de modo um tanto simples, sobre a questão da ilusão da liberdade citada no comentário da Lara (Spinoza):

“Se você pega um trem porquê carregar sua bagabem pesada no colo? porquê não colocá-la no bagageiro, e deixar que o trem a leve?”
Neste caso o trem é uma analogia da vida em si mesma, do contínuo fluxo de Consciência que é o que existe, onde nós existimos e do qual não somos diferentes. Entretanto nós, do alto de nossa ignorância, assumimos como certo o fato de de termos controle sobre nosso caminho, e fazemos absoluta questão de continuar a carregar a bagagem pesada no colo. Assuminos como fato que somos separados e diferentes do próprio universo ao buscarmos a imposição de uma vontade pessoal.

Todas as linhas de busca tratam do tema ao explicar a experiência do desapego, do abrir mão, da entrega. Nesta analogia proposta por Ramana a entrega suprema parece tão simples: deixar o trem levar a bagagem e aproveitar a viagem!
Eis aí o que se busca afinal: a felicidade não está em tentar controlar o seu futuro através da sua vontade, mesmo que ao final se alcance a meta, mas descobrir a felicidade em cada instante de entrega à realidade. Abrir a janela do trem e sentir o vento no rosto.
Outro dia me dei conta de que vivo ainda sob a sombra de um aparente juízo final sobre a minha vida e meus atos. Herança sem dúvida de toda a história que vivi, do local em que nasci, do caldo de milênios em que brotei. Uma e outra e outra vez me dou conta e percebo a ilusoriedade que há nesta idéia de que há um “caminho certo” a seguir nesta vida, seja qual seja a dimensão a que nos refiramos.
Mas este final de semana em um pequeno momento me dei conta da sutileza da persistência deste conceito. Como uma tênue sombra ele permanece, como aquele interruptor que você só percebe ao não focalizá-lo no escuro. Como uma voz confortável e acolhedora, tão familiar... e tão ilusória.
Ali mesmo, escondida por trás desta idéia, está a esperança mais sutil e fundamental do “pequeno eu”, a esperança de existência e do controle.
O caminho está dado desde sempre, avante com passos largos! Sem espelho retrovisor e sem mapa, nosso livre arbítrio real é caminhar.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

limites

Ontem conversava com uma amiga sobre a prática de meditação.
Ela me explicava que tentava praticar o silêncio, mas era difícil aguentar os 15 minutos que tínhamos combinado, então resolveu seguir tentando com 10 minutos, porquê “... assim eu conseguiria me concentrar mais nestes 10 minutos, e fazer uma boa prática, o que seria melhor que ficar 15 minutos menos concentrada...”. Quantas vezes eu já não pensei algo assim, e quantas outras ouvi de tantas outras pessoas.
Esta é só mais uma armadilha, uma das desculpas que encontramos para não seguir um pouco além do que parecem ser nossos limites. O que define seu limite? Por definição o limite não pode ser pensado... precisa ser experimentado.
Quem constrói as armadilhas? Quem conhece você melhor do que você mesmo, e assim monta a desculpa mais perfeita para convencer você mesmo de que já é hora de parar, ou de que hoje não é um bom dia para praticar, afinal estou cansado, afinal tenho que arrumar minhas coisas, afinal preciso ler este material para amanhã, afinal acho que não preciso disso hoje, afinal qualquer outra desculpa.
O dia tem 24 horas, e talvez em 17 destas você está em vigília (isto, é não está dormindo deitado, porque é bem capaz de estar dormindo acordado). Uma semana tem 7 dias, ou seja, 7x17 horas de vigília. Isto resulta em 119 horas na semana. São 7.140 minutos.
Digamos que você se proponha a praticar 3 vezes por semana, por 15 minutos. São 45 minutos na semana. 45 minutos de prática em 7.140 minutos de vigília: isto equivale a 0,6% ( ou 1/150) .
Quanto você dá de gorjeta ao garçon em um restaurante? 10%? Se você desse 2% de gorjeta para sua alma, para sua busca, você praticaria pelo menos 140 minutos na semana... ou 3 sessões de 45 minutos, ou 5 sessões de 25.
Parece muito pouco 15 minutos em um dia, mas na prática isto pode se tornar difícil. Sim, é preciso disciplina; mas é preciso muito mais interesse, curiosidade, inquietação e vontade. Não se pode esquecer que é a personalidade (o “eu”) quem desenha e projeta nossos ilusórios limites, nossas imensas desculpas. O “eu” tem um verdadeiro escritório de arquitetura e engenharia para projetar nossos edifícios de ilusão. O financiamento deste escritório é feito na moeda “hábitos de pensamentos”, que é produzida aos bilhões em nossa interminável agitação mental. Só quando se aquieta a agitação mental é que a Consciência – que acolhe o “eu” em sua ilusoriedade (Maya) – e que eterna e onipresentemente conhece a si mesma, se revela em todo o seu brilho.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

aquilo que conhece

Algumas perguntas on e off line surgiram sobre o último texto – um instante sem “eu” – e achei que seria legal continuar com o assunto, talvez trazendo um vocabulário mais adequado.
A cultura ocidental é muito pobre na compreensão daquilo a que damos o nome de mente. Nossos ferramental, incluindo nosso próprio vocabulário, não é particularmente bem desenvolvido para expressar as tão variadas facetas da busca do auto-conhecimento ou da espiritualidade. Somos – nós ocidentais – mestres no entendimento da matéria, na análise (estudo em partes), e mesmo quando estas partes nos levam inexoravelmente ao todo, como a física quântica demonstra, ainda preferimos nos apegar aos aparentemente concretos e conhecidos pedaços.
No oriente, como na Índia, por muitos séculos se desenvolveram o estudo e a busca do conhecimento de si mesmo. Foi através da experiência pessoal de grandes sábios que o conhecimento se formou e foi, de certo modo, tornado acessível para nós, que não temos esta mesma experiência pessoal (ainda). Assim a língua e a filosofia se tornaram reflexos desta prática diária, deste modo de viver que era embebido da busca.
Isto nos traz de volta ao “eu”, tão querido e complicado. Segundo a linha Vedanta há que se compreender profundamente as relações entre três pontos básicos da experiência de viver: aquilo que conhece, o conhecer, e aquilo que é conhecido. Quando começamos a brincar com o “eu” estamos tateando o primeiro conceito, “aquilo que conhece”. Às diversas possibilidades de relação entre o conhecedor e o conhecido se dá o nome de estados de consciência, sendo que o estado em que habitualmente vivemos se chama “estado de pensamento” (quando estamos em vigília) ou sono (quando estamos dormindo). Existem, entretanto, outros estados de consciência, em que a relação entre o que percebe e o que é percebido muda conforme nos aproximamos da não-diferença entre ambos. Ao nosso amigo “eu” só é dada permissão de existência no estado de pensamento... mas isso fica para outro dia.
De fato há que existir um “ponto no universo que percebe uma extensão um pouco maior dele, permitindo ao universo que ele se auto-deslumbre”, como disse o Tatit no último comentário – aliás a descrição me parece perfeita. A questão a esclarecer é que este ponto não é o “eu” psicológico, o “eu” que registra sua história, tem passado, sonha com o futuro, tem RG, e vai morrer um dia. Existe algo prévio ao “eu”: a Consciência; o “eu” é um objeto perante a Consciência – isto é, a Consciência percebe o “eu” - mas a Consciência não pode ser percebida pelo “eu”. Vamos tentar avançar mais um pouco.
Segundo o Vedanta Advaita (outras linhas de estudo adotam diferentes terminologias e visões) o que existe é Existência (Sat) Consciência (Chit) e Bem-aventurança, Amor (Ananda) absolutas. A partir daí, como reflexos menos sutis, surgem as existências mais ‘concretas’. Em nosso assim chamado órgão interno mental (antakarana) temos um assento do reflexo desta Consciência maíúscula (chamado Chidhabaasa, algo como consciência individual); a partir daí se distingue o que chamaríamos (sem precisão) a capacidade de inteligência (buddhi), a massa mental, ou memória (chitta), e a movimentação desta massa (manas). Ao sentido de propriedade que surge da ilusão de que este reflexo da Consciência é diferente da mesma, se dá o nome de ahamkara, ou ego, finalmente a raiz do nosso pequeno e adorado “eu”... ufa!! Ao longo da vida a agitação constante da massa mental (atividade também conhecida como pensamento) reforça quase ininterruptamente a ilusão de existência individual – “eu”. Por isso se ouve tanto que “meditar é aquietar as agitações da mente”. A prática da meditação (interna) se sustenta na busca da compreensão daquilo que conhece. Conforme se aquieta a agitação da massa mental começa a ficar mais evidente a existência deste reflexo da Consciência. Sempre esteve lá, mas a agitação não permitia que aparecesse. É como água com areia: enquanto a água está em movimento e a areia em suspensão o líquido fica opaco; quando o movimento cessa e a areia sedimenta a água volta a ficar cristalina. Quando há esta paz, toda a atenção se volta naturalmente para sua própria fonte (o reflexo da Consciência) e é como se uma porta se abrisse para dentro (e fora) de tudo o que existe, “permitindo ao universo que ele se auto-deslumbre”, pois aí já não há dualidade, não há diferença entre o universo e nós.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

um instante sem "eu"

Amigos,
fiquei tão feliz de ver os comentários... acho que eles tem um papel de fermento - não adianta querer entender, responder, discutir de uma vez – aos poucos vão criando um caldo de paradoxos, pontos de vista, dúvidas e certezas, e são a própria razão de ser de um grande bolo-blog como este.
Dêem uma olhada na seção “olhos de gato” na parte final da página, vou autalizá-la de quando em vez. Acabei de atualizar, e coloquei uma citação de Ramana Maharshi, inspirado pelos comentários quew apareceream esta semana.
Ele explica algo muito simples, mas espetacularmente assombroso: a única coisa comum a todos os penamentos que você já teve na vida é a idéia de “eu”. Este “eu” é a raiz de cada pensamento, não há pensamento sem a noção de “eu”... e muito mais chocante: não há a idéia de “eu” sem pensamentos. Pois é, toda aquela imensa importância que damos a cada um de nossos pequenos desejos, problemas, futuros e passados só existem no exato momento em que pensamos! A questão é que pensamos quase o tempo todo, e daí advém a ilusória noção de continuidade deste “eu”.
OK, vamos a um exercício, já que seus “eus” estão esperneando com este último parágrafo: procurem se lembrar de um instante em que você estava totalmente tomado pelo que ocorria; pode ter sido uma incrível paisagem vista pela primeira vez, uma poesia que te deixou arrepiado, um momento de paixão sem ar, um filme fantástico, esperar para receber o saque numa partida de tênis, fugir de um cachorro aterrorizante, o instante em que você começa a pegar uma onda, brincar de corpo e alma com uma criança, ou qualquer outra situação em que tudo fluía, e você parecia fluir com tudo.
Este instante – ainda que tenha sido dois segundos – é um instante puro de presença. Toda a sua atenção se concentra em disponibilidade total para o momento que ocorre, para o instante, para o agora. Nada mais existe, exceto aquilo que acontece. Quando isto se passa, você não percebe a realidade como diferente de você mesmo; você percebe tudo como uma coisa só. Não existe, neste momento, um “eu” que perceba esta realidade – você e o mundo são uma coisa só.
Vamos tomar o exemplo de uma paisagem: você vê uma paisagem deslumbrante (por exemplo a baia de tubarões que vi em Fernando de Noronha), e ela parece que te hipnotiza e puxa, absorvendo você de você mesmo – por um instante a sensação é de que tudo existe, você é este tudo, não se percebe diferente daquilo que vive e observa. No momento seguinte você diz: “nossa, que paisagem linda que eu vi!” Pronto: aparece o “eu”, que se apropria de um momento do qual ele não fez parte, e procura costurar a sensação ilusória de continuidade de sua existência através dos fios da ilusão mental.
Assim construímos, dia após dia, uma fortaleza da idéia do “eu”.
Basta um instante de observação pura, de entrega real, de amor, de compreensão... todos estes são instantes em que nosso adorado bicho de estimação, nossa máquina de ganhar docinhos, nosso “eu”, nosso ego, não está presente. Basta um instante como este para percebermos a ilusoriedade sobre a qual sustentamos nossas falsas verdades. Basta perceber que não sabemos quem virou as páginas do livro tão interessante que líamos... basta se dar conta de que o instante de compreensão é puro e chocante, sem alguém que possa ter observado a própria compreensão ocorrer... basta amar sem esforço, sem deixar rastros da vontade do um quando só há a entrega para o outro.
E todos nós já vivemos centenas destes instantes em nossas vidas.

PS: “housekeeping”:
É possível, através do site, pedir para ser avisado quando há material novo, basta se cadastrar e escolher esta opção.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

museu de conhecimento

Nisargadatta uma vez disse: um homem acorda, e ao se olhar no espelho percebe que precisa se barbear; porque então procurar mais nove espelhos para encontrar a mesma resposta? Faz mais sentido ir se barbear de uma vez. Ele respondia a uma pergunta de um visitante sobre o livros e conhecimento no caminho do auto-conhecimento, da busca final. Ler alguns, e depois mais outro, e outro, sempre com a boa desculpa indulgente da procura pelo conhecimento. Porém este não é mais um campo da ciência ocidental, em que o acúmulo de conhecimento tem alto valor em dinheiros acadêmicos, irmão do acúmulo de riquezas na economia pessoal. A busca de auto-conhecimento necessita sim, na grande maioria dos casos, de conhecimento, e leituras são bem vindas. Porém a partir de um tênue ponto começamos a trocar a pesquisa e experiência real por uma interminável coleção de conceitos. Quantas vezes não mobiliamos um precioso museu interno de conhecimentos, que com o tempo nos traz mais orgulho e apego, nos distanciando mais ainda da procura por nós mesmos...
O que vale, sempre, em todos os casos, é a experiência individual. De nada vale o recitar de uma chuva de conceitos complexos sobre o silêncio interior se comparado a um único instante de experiência real de silêncio. Todos os livros, conhecimentos e conceitos, não passam de construções da mente e tem valor apenas quando podemos validá-­los e significá-los – ou não – através de uma experiência real.
Ao longo do caminho de busca é muitas vezes mais fácil e confortável ler um capítulo de um mais um novo livro de um autor famoso sobre como ser feliz do que buscar a disciplina de sentar, fechar os olhos e buscar a compreensão de si mesmo. É apenas mais uma armadilha do caldo de egoísmo da personalidade.
De modo análogo tratamos nós, em muitos casos, do caminho que imaginamos que devemos escolher para a busca. Desperdiçamos tempo precioso na ponderação sem fim em nosso conselho interno de vozes sobre qual a prática que devemos seguir, qual a linha a que nos adaptaremos melhor etc. É justo que tenhamos dúvidas, mas é preciso ter coragem de praticar e partir para a busca. Só com os primeiros passos será possível avaliar a trilha e o norte que devemos seguir.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Docinhos

Recebi uma mensagem de um grande amigo sobre o último texto e resolvi – no melhor estilo blog – compartilhar parte dela.
Eu tinha escrito que a meditação ...é uma senhora misteriosa e esquiva, que aguarda sentada à mesa de um restaurante de endereço desconhecido a chegada de seu convidado – aquele disposto a buscar a fonte da inquietação mais primordial de seu ser.
Ao que meu amigo replica: “ a senhora sentada no restaurante talvez esteja sentada também no ponto de ônibus e na fila de trás da sala de cinema, quem sabe? Não acho que seja confortável olhar para ela ou esperar que ela me apresente, dá medo. Mas para quem despenca na trilha, as vezes a coragem é necessidade e não virtude! “ E logo em seguida: “para mim a aproximação das pessoas - de forma compreensiva, afetiva, amorosa, parece a parte maior desta busca. “
Sempre que conduzo trabalhos de auto-conhecimento – como a série de workshops chamada “Semeando” - fico impressionado com a importância do compartilhar. Quando uma pessoa se dispõe a compartilhar suas visões, pontos de vista, sensações, percepções, é muitíssimo comum que estas iluminem uma outra pessoa do grupo. Não raramente é nestas ocasiões que as “fichas caem”. Assim imagino que o nosso compartilhar, ainda que de maneira eletrônica, pode induzir a mesma natureza de efeito entre os que lêem e participam do blog. Por isso que fico feliz quando recebo estas mensagens, comentários, etc. Para aqueles receosos de participar, não se esqueçam do benefício que você pode estar gerando para os outros...
Então... como é que nos aproximamos das pessoas? Como podemos estabelecer relacionamentos verdadeiros enquanto não compreendemos nossos padrões mais básicos de comportamento? Basta um olhar um pouco mais cuidadoso sobre nós mesmos para nos darmos conta da incrível simplicidade desta máquina de ganhar docinhos chamada personalidade. Com um pouco de cuidado, atenção e (muita) honestidade com você mesmo, observe como você reage aos acontecimentos no seu dia-a-dia. Ao final do dia faça uma pequena introspecção rodando o filme do que ocorreu. Aos poucos você certamente se dará conta de que certos padrões se repetem como relógios. Você poderá ser dar conta de que não deseja mais continuar repetindo estas mesmas rotinas labirínticas pessoais, os onipresentes diálogos internos. E aí pode ser que você perceba algo um pouco mais assustador: é esta máquina de ganhar docinhos que controla você, e não o oposto.
Normalmente os relacionamentos são estabelecidos através de trocas – eu ganho o docinho que mais gosto da outra pessoa, para quem eu forneço o doce que ela prefere – isto acontece o tempo todo. Estes docinhos tem muitos sabores e embalagens: sentir-se vítima, dominar, ser reconhecido, ter culpa, ser visto como líder, ser diferente, ser o mais legal da turma, ser visto como aquele que ajuda a todos, ser o bonzinho, ser o perfeito, receber colo... e assim segue. As relações são muitas vezes mercantis, nesta troca energética brutal. Como podemos buscar relações em que estas trocas não sejam o que nos move?
O docinho dá a pista da raiz da formação da personalidade. É preciso encontrar esta raiz, pois apenas a luz da sabedoria pode desmanchar a ignorância. Porém há que ter cautela nesta pesquisa interior, pois esta máquina foi criada e cuidada com muito carinho, dedicação e amor... por nós mesmos. O processo de formação deste “eu” é necessário, mas após a maturidade é também necessário buscar a distinção entre este “eu” na busca eterna de satisfação de seus desejos e aquilo que é anterior a isto. O erro é confundir esta máquina de ganhar docinhos (“eu”) com quem você realmente É. Faz parte essencial da busca o exercício contínuo deste discernimento.
A prática de meditação nos ajuda também a perceber estes padrões, fortalece a busca do que podemos ser realmente, e escancara o desperdício e a ilusão de se viver em busca dos docinhos.