quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Líderes

Tantas bobagens são pensadas, escritas, editadas e vendidas a uma velocidade impressionante nestes tempos. Maior que a capacidade de pensar e escrever só a capacidade de absorver e acreditar por parte dos leitores-consumidores. Um dos campos mais férteis é o da neo-administração, em que a saraivada de edições sobre a “liderança” se mostra a cada ano mais potente. Há que se ter imenso cuidado com as lideranças. Quem são líderes afinal de contas? O que são? Neste vasto mundo das organizações e da política posso garantir que na sua totalidade não são pessoas “diferentes” ou “especiais”. Infelizmente não são.
Já escrevi antes sobre o sutil mecanismo de hábitos mentais que criamos, individualmente, de um modo quase contínuo ao longo de nossas vidas. Dia após dia reforçamos aqueles caminhos preferidos, reforçamos as reações prediletas, reforçamos as cadeias de emoções de que somos mais sedentos e famintos, e passamos a crer que verdadeiramente somos assim... e de fato, desde este ponto de vista daquele sujeito cujas entranhas e esqueletos psíquicos foram assim moldados, somos assim mesmo. Ou seja, do ponto de vista da criatura de argila moldada pelo reforço destes hábitos, a criatura de argila existe, e é daquela forma. Porém, alguns poucos segundos seguidos de atenção à realidade – vejam bem, atenção à realidade e não à sua interpretação da mesma - mostram que a criatura é uma construção, é ilusória em essência. Algo consegue perceber a criatura de argila, e o mais interessante é que este algo não faz parte da própria criatura (ou não conseguiria observá-la). Daí nossa oportunidade de liberdade, nossa esperança de viver de modo pleno.
Voltando aos líderes: o que são estas pessoas? Ora, poderosíssimas criaturas de argila. São pessoas, ainda que bem intencionadas (qualquer que seja a régua dos pólos éticos de bem e mal utilizada), amplamente enredadas nas teias de seus hábitos e reforços mentais. São pessoas dirigidas por suas próprias e queridas máquinas de ganhar docinhos emocionais, e que fazem uso da alta potência de suas máquinas de modo amplo. Conforme nossas tarefas e lições karmicas estas máquinas tem potências diferentes, ainda assim são todas ilusórias. Não é libertador se dar conta da ilusoriedade de todos nós enquanto criaturas de argila, todos de potências, tamanhos e formas variados, que não tem de fato importância alguma.
Assim há que se ter cuidado com as lideranças. Seja seu próprio líder, busque aquilo em você mesmo que não é moldado pelos seus adorados vícios e mimos, busque aquilo que É e sempre foi em você mesmo, não há liderança mais verdadeira. Nada há que se busque fora que possa chegar perto de substituir Isso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Fim de semana com Ivan

Depois das férias (voltei semana retrasada) este foi o final de semana com o workshop do Ivan aqui em São Paulo. Ele seguiu para o Rio de Janeiro, onde fará outro workshop este final de semana.
Acompanho o Ivan há nove anos, e pelo menos uma vez por ano tenho esta oportunidade de mergulhar um pouco mais no universo da busca do auto-conhecimento. Não sei se vocês se dão conta da raridade desta oportunidade, e da grande sorte de poder ter esta experiência. Pois para mim, ano após ano, sempre vem uma gratidão imensa após cada encontro.
Estivemos no final de semana no Instituo Brahmavidya, comandado pelo Elói, com cerca de 30 pessoas, incluindo alguns colegas argentinos que vieram especialmente para o encontro. E todos pudemos relaxar a angústia da ignorância ao viver (mais que ouvir) as palavras e a presença do Ivan. Após poucos dois dias de compartilhar, ele se despediu com seu bom humor encharcado de compaixão.
Para alguns daqueles que lá estiveram, um marco de mudança na vida; para outros, uma névoa de mistério; para outros ainda a tranqüilidade da certeza. Não importa, todos certamente perceberam a sutileza da nossa existência por trás do sempre bruto ‘eu’.
Há um grande grupo de alunos do Ivan na Espanha, e parte deles construiu e um site na internet que contém uma série de textos e vídeos do Ivan, além do calendário de atividades na Espanha e no Brasil. Aí vai o endereço: http://www.vedantaadvaita.com/; há também o site brasileiro, coordenado pela Regina: http://www.vedantaadvaita.com.br/.
Caso algum de vocês se interesse em conhecer mais, podem entrar em contato comigo (e-mail: marcosthiele@yahoo.com), ou podem procurar o Instituto Brahmavidya, onde vários cursos são ministrados (Elói: 5506-5220).

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Guru

Muito se fala e escreve sobre o que é um Guru, um mestre, seu papel, se é realmente necessário, etc. Afinal o que é um Guru?
A explicação mais pura (no meu entendimento, como sempre) é que o Guru, ou mestre, apenas reflete de forma “real” aquilo que o discípulo, ou aprendiz, ou buscador, precisa. A forma externa do mestre é um modo concreto de a grande roda do karma colocar à nossa frente aquilo que é precisamente necessário para os passos que devem ser dados neste ciclo.
Em uma trilha de tom mais devocional a entrega ao Guru é a porta para a entrega ao Absoluto e a Si-mesmo, pois o primeiro o segundo e o último são a mesma coisa.
Todos os livros contendo conversas entre Mestres como Ramana e Nisargadatta e seus disípulos em um momento ou outro relatam sua visão sobre o tema. Invaravelmente a reposta última é que o Guru verdadeiro e real está dentro de você.
Assim nas várias tradições a descrição e função precisas do mestre podem variar, mas a essência é a mesma.
Alguns poucos nascidos-maduros como Ramana Maharshi não tiveram um guru na defnição mais formal do termo; mas foram muito poucos. Praticamente toda a linha de rinpoches budista é formada na esteira de um rico caudal de Gurus.
No mundo ocidental esta visão (do Guru) é muito difícil de ser concebida, quanto mais compreendida... oxalá alguns de nós possam finalmente aceitá-la de coração.
Assim, para nós seria uma imensa sorte cruzar o caminho com um mestre que nos toque o coração e a alma. Menos raro é cruzar o caminho com falsos instrutores que manipulam emocionalmente seus ‘alunos’, e – por vezes com boas intenções, mas perdidos em suas egotrips – criam desvios imensos da trilha da busca.
A cada um de nós, com sua qualidade específica, sua combinação de talentos e dificuldades, sua aptidão e seu conjunto de lições a aprender, nos é possível encontrar um caminho de busca que nos mostre não haver nada mais importante nesta vida. Em cada caminho destes é possível encontrar um Mestre, um guia do caminho.
Foi assim para mim ao trombar com o caminho do Vedanta Advaita e vislumbrar, lá embaixo em um penhasco, depois de capotar e cair, a figura do guia do caminho, meu Mestre Ivan Oliveros, o Sesha.
Não vou escrever sobre ele, pois Ivan estará no Brasil novamente este ano, e para alguns de nós esta é uma oportunidade verdadeiramente única de entrar em contato com um Mestre que toca almas e corações, e, sem falsa compaixão, nos ajuda a compreender, por nós mesmos, como seguir neste caminho.
Este ano Ivan fará os seguintes trabalhos:

Progamação 2008 de Cursos e Palestras:
São Paulo

Palestras Gratuitas

05 de setembro (sexta-feira)
Horário: 19:30h
Local: ICDEP
R. Jureia, 349 - Chacara Inglesa
Tel.: (11)5549.0642

10 de Setembro (quarta-feira)
Horario: 19:30h
Local: Instituto Brahmavidya do Brasil
R. Indiana, 1403

12 de setembro (sexta-feira)
Horario: 17:30h
Local: Auditorio Brasil Tufik
R. Napoleão de Barros, 935

Cursos : Meditação

06 e 07 de setembro (sábado e domingo)
Horário: 09:00 às 16:00h
Local: ICDEP
R. Jureia, 349 - Chácara Inglesa
Tel.: (11)5549-0642
Valor: R$ 300,00
Inclui refeição leve no almoço e coffee break

13 e 14 de Setembro (sabado e domingo)
Horario: das 09:00h ás 16:00h
Local: Instituto Brahmavidya Do Brasil
R. Indiana, 1403
Tel.:(11)5506-5220
Valor : R$ 300,00
Inclui refeição leve no almoço e coffee break

Rio de Janeiro

Palestras Gratuitas:

16 de Setembro (terça-feira)
Horario: 19:30h
Local: Livraria Argumento- Copa
End. R. Barata Ribeiro, 502
Tel.:(21) 2255.3783

19 de setembro (sexta-feira)
Horario: 19:30h
Local: Espaço Nirvana Gavea
Pça. Santos Dumont, 31
Jockey Club- Tribuna A
Tel.: (21) 2187.010 - Recepção

Curso Meditação

Dias 20 e 21 de setembro
Sábado das 09:00h às 16:00h
Domingo das 10:00h às 14:00h
Valor: R$ 290,00 (parcelamento em até 2 vezes)
O almoço não esta incluso, mas o restaurante do espaço estará à disposição dos participantes com preços promocionais.

Informações e inscrições: info@vedantaadvaita.com.br
em São Paulo:
Regina
(11) 9189-8990 ou (11) 3085-7101 Ruth
(11) 3361-4954 ou (11) 3666-8502

ICDEP: (11) 5549-0642 Instituto Brahmavidya: (11) 5506-5220 - Eloi ou (11) 9101-9086

no Rio de Janeiro:
Nirvana Gávea : (21) 2187-0010
Alvaro Piano : (21) 2255-3783

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O pasmo essencial

Hoje não tenho melhor alternativa que compartilhar com vocês a aula de Presença que é este poema de Fernando Pessoa.
Bom proveito.

O Meu Olhar
(F. Pessoa /A. Caeiro)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Epifania

Definições usuais de epifania:

“A Epifania representa a assunção humana de Jesus Cristo, quando o filho do Criador dá-se a conhecer ao Mundo. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια, : "a aparição; um fenômeno miraculoso") é uma festa religiosa cristã que... passou a ser comemorada 2 domingos após o Natal.”
“Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante acontece, que parece ser divino em natureza (este é o uso em língua inglesa, principalmente, como na expressão I just had an epiphany, o que indica que ocorreu um pensamento, naquele instante, que foi considerado único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural).”
Adoro estas definições... “quase sobrenatural”, como se soubéssemos definir o que é natural, como se a vida que levamos imersos nos labirintos dos desejos, apegos e moto-contínuo de pensamentos - gatos enredados em um novelo de lã sem fim - fosse natural.
Não é interessante esta palavra, epifania? Todos já vivemos vários momentos como esse em nossas vidas. É um instante de compreensão verdadeira; um instante em que nos sentimos não diferentes de tudo o que nos cerca; um instante de amor por tudo e todos; um instante de paz profunda. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Nos grupos de prática sempre pergunto por estes instantes, e invariavelmente a resposta é que sim, este momento já existiu em minha vida. Alguns se lembram do instante em que ouviam uma música e por um momento a música e o ouvinte eram uma só coisa, um arrepio corre o corpo, todas as sensações se ampliam, cada instrumento e voz é ouvido separadamente e integrados ao mesmo tempo. Outros se lembram de surfar aquela onda perfeita e o silêncio profundo daqueles segundos de harmonia perfeita entre onda, prancha e surfista. Outros ainda se recordam de uma compreensão profunda – uma grande ficha que cai e parece que o mundo todo espera, num tempo mais lento, enquanto o todo faz algum sentido – e qualquer um que já presenciou isso sabe da potência do brilho dos olhos deste momento.
O que todos estes instantes – epifanicos – tem em comum? O “eu” da personalidade não está lá. É verdade, não está. Se ele estivesse não seria uma epifania. Não é o pequeno eu que passa por estas experiências; mas quando ele está ausente, então elas podem ocorrer. O motivo é simples: estas experiências passam muito longe do pensamento comum; enquanto nossos “canais” estão entupidos com pensamentos não é possível que qualquer outra coisa seja perceptível. Quando deixamos nossos canais vazios de pensamentos, outras percepções podem ocorrer. O “eu” apenas se apropria destas experiências (memória) depois que elas passam.
Segundo o Vedanta, em parte similar às proposições de Patanjali, temos diversos estados de existência ou consciência: sono, pensamento, observação, concentração, meditação e samadhi. Nós vivemos 99,9% de nosso tempo nos dois primeiros. Estes instantes de epifania pertencem aos outros estados, na maioria das vezes ao estado de observação ou concentração.
O “eu” enquanto sujeito só está presente enquanto pensamos. Ele não tem continuidade (nem enquanto dormimos). Entretanto nossa civilização ocidental tem como um dos principais cânones o “eu” como sujeito permanente e separado do mundo real – basta ver o nó filosófico que as implicações da física quântica causam ao demonstrar que o observador (o sujeito) altera a realidade.
O Vedanta explica que para cada um dos estados de consciência há um sujeito correspondente – até chegar ao estado de meditação em que o sujeito é Atman, “...o sujeito que conhece o universo enquanto simultânea e ubiquamente conhece a si mesmo.(*)” A permanência no estado de meditação leva ao Samadhi, estado em que se é Sat-Chit-Ananda: Existência, Consciência e Bem-aventurança infinitas e absolutas.
Entre a meditação e o pensamento temos a possibilidade de experimentar os estados de observação e concentração, em que a outros sujeitos é permitido atuar – e ao que ás vezes damos o nome de epifania.
Como podemos ver há muito o que se explorar além do nosso novelo-novela de pensamentos e fantasias, e o caminho é a prática.

(*) Ivan Oliveiros

terça-feira, 17 de junho de 2008

A esfera

Quão distante é o centro de uma esfera quando todos os caminhos que conhecemos e todos os mapas que construímos estão na superfície? Imagine que a sua perspectiva, o seu ponto de vista, é sempre o da superfície desta esfera; todo o seu caminhar, todos os planos futuros de vida, todos os desejos, se deitam ao chão desta esfera. Toda a sua história, todas as suas razões e motivos, cada hábito, apego e aversão também transitam apenas nesta superfície.
Como uma lei geométrica, não é possível acessar uma outra possibilidade dimensional enquanto seguimos construindo mais e mais estradas nesta mesma superfície. Não chegaremos ao centro da esfera construindo estradas mais largas e mais bem feitas na superfície. Entretanto é exatamente isso o que fazemos a cada dia, a cada minuto.
Enquanto seguimos alimentando os mesmos padrões de consumo da personalidade, alimentando-a com todo o tipo de chocolates, bolsas, carros e jóias emocionais/energéticas, não estamos fazendo mais do que construir super-estradas, que permitem velocidades mais altas de modo que cheguemos mais rapidamente a lugar algum. E o mais engraçado é que são exatamente os mesmos por toda a vida, cada um de nós não tem mais do que um ou dois padrões básicos de funcionamento deste pequeno eu.
Quando começamos a buscar o centro da esfera, quando iniciamos uma busca por quem realmente somos, aparece um gancho ainda mais sutil deste pequeno eu. Inversamente proporcional à sutileza é a potência e efetividade deste gancho, chamado de materialismo espiritual e bem explicado por Tarthang Tulku (Além do materialismo espiritual, ed. cultrix). Este gancho nada mais é do que os mesmos padrões habituais, só que revestidos de um delicioso psico-chantili espiritual – mas isto é motivo para outra conversa.
Preste atenção ao momento em que você desperta. Não o momento em que você levanta da cama, nem o momento em que abre os olhos, mas o instante anterior. É claro que tem que ser em um dia em que você não acorda com o barulho do despertador... Tente prestar atenção ao momento em que você está consciente de que não está mais dormindo, antes de abrir os olhos. É bastante sutil, mas possível. Permanecendo neste estado por um par de segundos você poderá confirmar que o que existe é apenas a consciência de existir – o princípio do centro da esfera. O que ocorre normalmente é que este instante é muito rápido, e logo começamos a acionar nossa memória, isto é, começamos a agitar a massa mental que então repousava. Acionamos nossa memória para registrar quem somos, onde estamos, o que aconteceu na noite passada, se eu deveria estar triste ou alegre por causa disso, ou daquela pessoa, etc., etc. E assim, peça por peça de um vestuário sempre semelhante, nos vestimos de nossa personalidade. Religamos todos os fios e cabos que acreditamos serem perenes e reais de nosso pequeno eu, sem perceber que eles de fato precisam ser religados para existirem. E assim “despertamos” diretamente para mais um dia de sono real, de volta à superfície tão familiar, esquecendo de novo do centro, que ali permanece - sempre.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

luzes, câmera... ação

Volta e meia me encontro conversando com estagiários, trainees, e colegas de trabalho sobre o futuro das carreiras, se o caminho está certo, e coisas do tipo. A conversa sempre toma um quase-fim quando lembro que o que importa é como você faz, e não o quê você faz. Este quase-fim em geral vem da falta de compreensão geral que nós temos sobre a ação e suas consequências. Em termos absolutos não faz diferença se trabalho em uma ONG que busca a paz no oriente médio ou se sou caixa de um banco. Simplesmente não faz diferença. Esta régua ética tem medidas enraizadas na personalidade e suas razões.
A diferença realmente está no modo como a ação é executada.
Existem dois modos de se executar incorretamente uma ação: 1) buscando que a ação me traga um benefício, um fruto (“vou ganhar algo com isso”); 2) me percebendo fazedor, sujeito, da ação (“sou eu que faço isso”). Tire estas duas condições e você terá agido de forma natural, pura, sem gerar karma.
Entretanto considere rapidamente as suas últimas 10 ações; você verá que em todas elas uma das duas condições estava presente. Ou você buscava um benefício para você mesmo com aquela ação, ou você se considera agente (fazedor) daquela ação; muito provavelmente as duas condições estiveram presentes em todas as 10 ações. Ou seja: todas elas geraram consequências, tendências, densidades de probabilidades futuras para “você”, em outras palavras, karma.
Imagine que seja possível atuar de modo natural, conforme o próprio sistema no qual você está inserido requeira a ação, nem um grama a mais, nem um milímetro a menos. Agir conforme é necessário, porque – ainda que não saiba a razão – você foi colocado naquele ambiente naquele exato momento para agir. Enquanto você age deste modo não há a sensação de estar agindo, apenas a ação acontece por si mesma. Depois que a ação ocorre, não há orgulho pelo ato. Não há com o que se apegar. É este o significado de deixar cada momento da vida nascer, mas também deixá-lo morrer. São os infinitos ciclos.Amplie um pouco este cenário: considere a possibilidade de que todos – repetindo: todos! – os instantes de sua vida foram cuidadosamente montados para que você vivesse exatamente aquela experiência. Como um presente que você recebe, uma pequena jóia na forma de uma lição aprendida, uma inspiração, uma compreensão. Muda um pouco a perspectiva de todos os nossos problemas, caminhos, “escolhas”, enfim, de todos os nossos “very limited affairs” não?

terça-feira, 20 de maio de 2008

very limited affairs

Outro dia assistia a um vídeo do Krishnamurti... que nem me atrai muito, mas de qualquer modo é fantástico. Sobe ao pequeno palanque embaixo de um toldo branco em um parque num dia chuvoso na Inglaterra um velho senhor, já um pouco curvado. Sem perder tempo começa a falar, direto ao ponto. Sem falsas delicadezas, sem manipulação emocional sobre a platéia - o que é tão sordidamente comum nos pseudo-gurus da nova era que vendem toneladas de livros – ele mergulha de imediato no convite a uma busca conjunta, e não no convite à simples audição de uma palestra. Deixa claro que não há resposta que possa vir de fora, de alguém, de um professor. Ninguém tem essa autoridade. Urge a platéia para que inquiram junto com ele, busquem as respostas, e não esperem para ouví-las. E ainda assim percebia claramente, naquele mesmo instante, como a maior parte das pessoas apenas aguardava ouvir “a verdade” em vez de se questionar.
O auto-questionamento é o fundamento proposto na busca. Ramana Maharshi escreveu uns poucos pequenos livretos - self inquiry, who am I, instrução espiritual – que tratam deste simples método (
http://www.arunachala-ramana.org/).
Em um nível infinitamente mais simples o mesmo princípio se aplica às questões psicológicas nas terapias comuns, ou nos processos de mentoring, coaching, etc. E mesmo neste nível nós já sentimos bastante dificuldade em colocar o pé na lagoa de nossos hábitos e vícios mental-físico-emocionais. É de se imaginar quão maior será a dificuldade em se mergulhar nas cavernas mais profundas da raiz do próprio eu.
Porém uma vez perdida a inocência das certezas infantis da permanência das coisas, da realidade, do eu, não há como não sentir a atração pelo mergulho, pela busca.
Krshnamurti, olhos semi-cerrados em total presença, dizia: todos os nossos grandes problemas pessoais são ao final ‘very limited affairs’. Quão mais verdadeiro do que isso se pode ser? Porém a percepção de como nos prendemos a questões ínfimas do eu-goísmo costuma aparecer raramente se não desgrudamos pelo menos por alguns segundos nossos ouvidos de alma do ipod-mântrico dos hábitos e vícios da personalidade.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

where to?

Por vezes me canso de navegar
ainda que sem direito, bem sei...

por vezes me canso de falar
me canso de ouvir
e de me ouvir
de tentar compreender o que pode ser
tentar ser o que não compreendo

por vezes me canso deste cansaço mesmo
do peso de vestir uma carne
do moto quase contínuo de respirar
de mais de um bilhão de batimentos

por vezes me assusto
instantes em que a dúvida congela o discernimento
o apego me ancora na ignorância
e as sombras iluminam cercas maiores que os caminhos

sem o mapa do conforto do corpo
sem as coordenadas do buscar um sentido com final feliz
sem a bússola das crenças construídas de argila mental
busco o norte nas estrelas

para onde ir?

por vezes vislumbro no meu céu
sem névoa ou dúvida
sem perguntas
sem quem pergunte
as sussuradas sílabas iniciais de uma resposta

Ir sem retorno
a volta nunca será para onde se partiu
Ir
para onde se espera,
se espera,
e se espera
um pouco mais
e enquanto nada mais se passa
o esperar deixa de ser temporal
se desnuda como uma existência em si mesma

Ir
onde a existência brilha poderosa e brutal
cega os sentidos imaturos e decepa membros ineptos
onde Ser sem interrupção tempera a estrutura mental
onde a suave e crescente compreensão do que É
acaricia uma super-nova
a semente do amor

Ir logo ali
ali onde o onde já não traz significado
posto que é sem resposta
local sem endereço
do diverso para o um
da área para o ponto
da certeza para a potencialidade

Às vezes isto tudo não é mais que um segundo
um sussurrado vaga-lume
farol entre penhascos na noite de tempestade
continuo navegando

sexta-feira, 18 de abril de 2008

amsterdam

Acabo de voltar de dez dias em Amsteradm, a trabalho.
Uma viagem nunca é apenas uma viagem no sentido externo ou físico; entrar em um avião que voa a 11 km de altura, respirar um ar de outra língua, conhecer pessoas diferentes, a distância do conhecido, o desconforto e as surpresas... sempre aparecem desafios às nossas habituais certezas. Sempre acontece uma viagem interior, paralela e transversal ao concreto imaginado.
Passei um final de semana por lá, e andei muito.

Adoro andar, é a velocidade mais perfeita para a percepção do mundo. Experimente caminhar por uma rota que você normalmente faz de carro, e ficará muito evidente tudo o que perdemos ao acelerar sobre caminhos aparentemente conhecidos. Um universo de detalhes e novidades se abre aos sentidos.
Caminhei pelo Vondelpark (um central park de Amsterdam), observando e sentindo. O novo sempre traz esta curiosidade de conhecer... e daí à certeza de que o simples ato de perceber o mundo é impressionantemente vivo é um pequeno passo. Peceber que se está vivo, e que existe a chance de conhecer, que existe uma propriedade chamada atenção que me permite conhecer, e que ela é intrínseca à própria consciência... perceber que a atenção flui, e que às vezes algo parece tão próximo de você que você já não sabe diferenciar o que percebe de você mesmo... é algo incrível. E está sempre aí, em qualquer e toda parte do mundo, sempre à nossa disposição.

Fui ao Rijksmuseum, e ali passeei pela história da Holanda. Não consegui apreciar a beleza das pinturas, pois acabei afogado no fogueira das vaidades. Impressionante como o ser humano, era após era, cai nas mesmas armadilhas dos desejos do olimpo sonhado do egoísmo. As sempre iguais medalhas de ouro do ilusório pódio das conquistas individuais. Um grande almirante e seu busto em mármore, a petrificação do orgulho. Um trio de ricos comerciantes semi-eternizados em uma tela, tintas lindas perfeitamente retratam os olhares empapados de ilusão e arrogância. Uma época após outra, uma guerra após outra, uma fortuna após outra, uma miséia após outra, tudo o que buscamos é petrificar a ilusão de que somos nós que atuamos e decidimos, erigir um busto do granito nascido da ambição do fruto de nossas ações, pintar um quadro magnífico da nossa absoluta ignorância sobre quem somos. Isto é a raiz do Samsara, a eterna roda do Karma.