Estive em viagem, e aproveitei para participar do curso do Ivan em Barcelona - Educação para uma vida plena. Dos cerca de cem participantes 1/3 eram terapeutas e 1/3 professores, a maioria sem conhecimento prévio do Vedanta. Conversando com alguns era tão divertido ver os olhos brilhando e a mente a 1000 por hora, tentado se dar conta de toda aquela novidade, uma visão de cabeça para baixo sobre o que é a percepção da realidade ... real.
Aprendizagem e compreensão na primeira infância, crianças, adolescência e adultos, como os diversos componentes da mente se comportam e amadurecem, como a dinâmica entre eles possibilita (ou dificulta) o processo natural de aprendizagem. Como atuar em cada etapa (como pais, professores, terapeutas, líderes, coaches, gestores...) para que a janela da aprendizagem se abra, quais são os elementos de contexto que precisam ser criados - e sustentados.
Claro que não podia faltar um pouco de tempero: quem, afinal de contas, aprende? Onde está nosso eu quando a compreensão se dá - e quais as dinâmicas dos componentes da mente enquanto isto acontece?
E, ao final, um golpe sem dó: se aquele que busca construir as condições para um processo de aprendizagem não tem ele mesmo a experiência da presença, o caminho será muito difícil. Aqui, neste campo, não se trata de decorar uma técnica e repassar, não se trata de compreensão teórica, digestão a seco de um conteúdo e repetição. Se trata de ter conhecido e compreendido a partir da sua própria experiência pessoal, experiência real da vida como um só instante eterno, ainda que por vezes fugaz. Se buscamos atuar junto às pessoas (filhos, colegas, empregados, clientes) para que possam trilhar um caminho de aprendizagem e compreensão, precisamos nós mesmos estar em contínua trilha.
As ramificações são imensas: educação de filhos, estruturas pedagógicas, trabalhos de desenvolvimento com adolescentes, andragogia, processos de grupos e equipes, terapia, desenvolvimento de liderança, coaching, gestão... as bases são elegantes e sólidas, agora cabe buscar através da própria experiência as pesquisas para o desenvolvimento em todos estes campos... isto tudo com certeza ainda vai dar um bom livro.
Por falar em livro, no site da associação Vedanta Advaita (www.vedantaadavaita.com) existem dois livros do Ivan que podem ser baixados em formato pdf de graça: ‘El eterno presente’ e ‘La paradoja divina’ - dêem uma olhada, não preciso nem dizer que vale muito a pena.
abraços
marcos
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Ensinamento e aprendizagem
Diz Sesha que o ensinamento (do ponto de vista da busca da compreensão maior das grandes tradições) não é mais que o processo de mudança de hábitos mentais. Com o tempo os hábitos mentais são reduzidos em quantidade, e com isso o sistema todo fica mais próximo (isto é, aumenta a probabilidade) de estar atento àquilo que se sucede no presente.
Somos mestres em construir e nutrir inúmeros hábitos mentais, colcha de retalhos que é o genótipo de nossa personalidade. Uma vida normal nos leva a dar a ignição nestes hábitos permanentemente, a cada hora do dia, em nosso trabalho, com a família, amigos, e especialmente sozinhos. Existe a crença de que há de fato um “eu” que age, controla, e é por princípio carente (de amor, de atenção, etc.) pois a pedra fundamental de sua construção é a separatividade do todo (!!) já que se não houvesse o filtro da separatividade não haveria porque conceber uma identidade egoísta diferenciada. É por isso que todos nós temos, como tijolo fundamental da construção da personalidade, a carência de algo, e a partir disso se desdobram, conforme as condições de prarabda karma, os diferentes modelos de máscaras e relacionamentos. A compreensão desta carência básica é passo crítico para a aquietação. A não-compreensão acelera o girar eternos das rodas dos hábitos mentais.
Conforme amadurece a percepção do que somos realmente e se disciplina o velho macaco louco (a mente na metáfora budista) os hábitos mentais murcham, começam a exercer menos poder, e aos poucos são esvaziados. Com o tempo ficam menos e menos hábitos mentais, os desejos se sutilizam, e é mais provável que o sistema esteja mais atento ao que se passa a cada instante - ao Presente - e não perdido no labirinto interno. Aos poucos estar imerso na brilhante corrente do presente se torna mais provável, e custa mais voltar ao labirinto dos hábitos mentais. E assim se segue o processo de compreensão.
Outro ponto fundamental da aprendizagem e amadurecimento é que durante os ensinamentos e práticas há instantes - ainda que fugazes - de presença, de compreensão em um nível mais profundo, fora do campo da mente linear. São instantes em que parece que o universo todo está ali. Estes momentos muitas vezes não carregam imediatamente um entendimento racional, por vezes se assemelham a nuvens de quase-compreensão, como se algo certamente tivesse se passado, mas não sabemos determinar o que. Estes momentos são como sementes que ficam latentes, sementes nutridas da presença real que existia naquele momento. No tempo adequado da vida estas sementes começarão a crescer e a compreensão se fará clara. Mas atenção: o momento adequado normalmente não é aquele que o “eu” espera.
Assim se dá o processo real de aprendizagem e desenvolvimento da compreensão. Não é um processo linear, são saltos - para cima, para baixo e para os lados - como um processo dinâmico, turbulento, caótico: a ordem que existe não é reconhecida pela mente que raciocina e que suporta as justificativas e expectativas do “eu”.
abraços
marcos
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