Viver é descobrir a realidade no dia a dia.
Ilusão é cobrir a realidade com nosso dia a dia.
Ao primeiro se dá o nome de Dharma.
Ao segundo se lhe chama Maya.
O primeiro existe antes da mente.
O segundo existe por conta da mente.
Viver é, presente.
Iludir-se continuamente terá sido.
No primeiro vive-se, sabe-se, ama-se
No segundo vivo, tenho e morro.
A mente não existe no presente.
O presente não existe na mente.
A liberdade de ser não intersecta com o eu.
A arte é seguir.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
extra...ordinário
De volta do retiro com Ivan na Espanha. São apenas cinco dias, porém cinco não-ordinários dias. Pois estamos acostumados a viver ordinariamente, nossa rotina é por nós transformada em algo ordinário. Viver cinco dias não-ordinários implica reconhecer a redução a que nos propomos no restante 360 deles se considerarmos um ano. O que fazer, viver em retiro? Não, pois a vida nos chama para a ação (nós, aqui, com nossas responsabilidades). A resposta é transformar os outros 360 dias em não-ordinários.
Como?
Para responder vamos tratar do que é o ordinário: em nosso senso comum ordinário remete a algo que não traz novidade, algo conhecido, sem graça. E porquê nos parece este dia a dia sem graça? A graça parece estar sempre no novo, no diferente, ou na expectativa da realização futura de um super desejo. A graça parece fugir do aqui e agora, do presente.
Está aí a resposta para o extraordinário: encontrar a tênue e brilhante linha de vida em que o presente é vivido, sentido e experimentado. Quanto mais respiramos e vivemos o presente mais extraordinárias ficam as simples existências.
Sentar e praticar por cinco dias pode não parecer algo simpático e prazeiroso (e muitas vezes não é...) mas afina o senso do que é real, e dilui a percepção de concretude de um dia a dia repleto de desejos insaciáveis perdido em ilusões egóicas. Sentar e praticar pode parecer extremamente sem graça... mas aí é que está o paradoxo. A graça não pertence ao mundo da personalidade que tem opiniões, mas é característica pura daquilo que sempre existiu, daquilo que, se permitido, compreende como extraordinário o simples ato de ser, existir e saber.
Abraços,
Marcos
Como?
Para responder vamos tratar do que é o ordinário: em nosso senso comum ordinário remete a algo que não traz novidade, algo conhecido, sem graça. E porquê nos parece este dia a dia sem graça? A graça parece estar sempre no novo, no diferente, ou na expectativa da realização futura de um super desejo. A graça parece fugir do aqui e agora, do presente.
Está aí a resposta para o extraordinário: encontrar a tênue e brilhante linha de vida em que o presente é vivido, sentido e experimentado. Quanto mais respiramos e vivemos o presente mais extraordinárias ficam as simples existências.
Sentar e praticar por cinco dias pode não parecer algo simpático e prazeiroso (e muitas vezes não é...) mas afina o senso do que é real, e dilui a percepção de concretude de um dia a dia repleto de desejos insaciáveis perdido em ilusões egóicas. Sentar e praticar pode parecer extremamente sem graça... mas aí é que está o paradoxo. A graça não pertence ao mundo da personalidade que tem opiniões, mas é característica pura daquilo que sempre existiu, daquilo que, se permitido, compreende como extraordinário o simples ato de ser, existir e saber.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A grande verdade sobre meditação
Existe um universo de livros e textos sobre esta palavra “meditação”. A grande maioria não passa de uma coletânea de pensamentos adocicados, como se a prática da atenção plena interna (descrição do que normalmente se chama de meditação) fosse um passeio a uma Disneilândia em que algodões-doces do materialismo espiritual estivessem à venda.
Pois deveríamos todos ler muito menos, e praticar. Basta uma verdade para várias vidas de prática. Eis então esta simples verdade para as nossas próximas vidas de prática. No momento em que estiver percorrendo a prática de atenção interna (“meditando”), saiba simplesmente isso: quando você se der conta de que está pensando, está então no presente.
Ao iniciarmos a prática de atenção interna inevitavelmente pensamos - pois a inércia do hábito de pensar no dia a dia naturalmente nos conduz para permanecermos no mesmo estado em que vivemos, ou seja, pensando.
Enquanto pensamos, não há nada a fazer, pois estamos perdidos no pensamento. Assim como quando estamos dormindo não há nada a fazer até despertarmos. Trazer pensamentos de esforço e desejo, de vazio e silêncio, de nada adianta, posto que são apenas mais pensamentos. Entretanto, pela graça divina, há instantes em que algo se dá conta de que está pensando. Este é o momento chave. Neste momento estamos presentes. Permanecer aí, naquilo que observa e está presente, é a chave e a única oportunidade da prática.
As grandes divindidades, as visões do nirvana, os devas... são todos muito simpáticos, mas não fazem sentido para nós que permanecemos viajando em nossas maioneses ininterruptamente, e de repente desejamos que com alguns minutinhos de prática o mundo espiritual se abra como se fosse algo separado, e que ao mesmo tempo siga os mesmos cânones de nosso mundo material egóico.
Saber que quando nos damos conta de que estamos pensando estamos presentes. Isto, apenas, é suficiente para os próximos dez anos de prática. O resto, como diz Sesha, é perfumaria.
Abraços,
Marcos
domingo, 31 de julho de 2011
Travessia
Assim disse Nisargadatta sobre a meditação:
“Nós conhecemos o mundo externo das sensações e das ações. Mas do mundo interno de pensamentos e desejos nós conhecemos muito pouco.O propósito primário da meditação é se tornar consciente com nossa vida interior. O propósito último é alcançar a fonte da vida e consciência. Incidentalmente a prática da meditação afeta profundamente nosso caráter. Nós somos escravos do que não conhecemos. Quando descobrimos qualquer vício ou fraqueza e compreendemos suas dinâmicas e causas nós as superamos pelo próprio conhecimento. O inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. A mente se aquieta.”
O impacto que a prática de atenção constante ao presente tem na dinâmica da personalidade não é o objetivo da própria prática. A atenção ao aqui e agora tem como impulso a constatação de que esta é a única forma real de ser, a única maneira de compreender. As disciplinas (sadhanas) são necessárias para que os hábitos arraigados sejam aos poucos dissolvidos, trazendo quietude mental. Assim é crucial a prática interna de silêncio, uma disciplina necessária para cortar a indulgência na qual normalmente navegamos. Aos poucos a mente começa a encontrar um estado mais quieto, o que permitirá que a atenção se fixe mais continuadamente no presente.
Esta é uma longa travessia do irreal e oculto para o real e auto-luminoso.
Nesta segunda-feira retomamos o grupo de meditação semanal às 19h30 no Instituto Brahmavidya. Fica o convite para os que buscam a coragem de empreender a travessia.
Abraços,
Marcos
“Nós conhecemos o mundo externo das sensações e das ações. Mas do mundo interno de pensamentos e desejos nós conhecemos muito pouco.O propósito primário da meditação é se tornar consciente com nossa vida interior. O propósito último é alcançar a fonte da vida e consciência. Incidentalmente a prática da meditação afeta profundamente nosso caráter. Nós somos escravos do que não conhecemos. Quando descobrimos qualquer vício ou fraqueza e compreendemos suas dinâmicas e causas nós as superamos pelo próprio conhecimento. O inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. A mente se aquieta.”
O impacto que a prática de atenção constante ao presente tem na dinâmica da personalidade não é o objetivo da própria prática. A atenção ao aqui e agora tem como impulso a constatação de que esta é a única forma real de ser, a única maneira de compreender. As disciplinas (sadhanas) são necessárias para que os hábitos arraigados sejam aos poucos dissolvidos, trazendo quietude mental. Assim é crucial a prática interna de silêncio, uma disciplina necessária para cortar a indulgência na qual normalmente navegamos. Aos poucos a mente começa a encontrar um estado mais quieto, o que permitirá que a atenção se fixe mais continuadamente no presente.
Esta é uma longa travessia do irreal e oculto para o real e auto-luminoso.
Nesta segunda-feira retomamos o grupo de meditação semanal às 19h30 no Instituto Brahmavidya. Fica o convite para os que buscam a coragem de empreender a travessia.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Guga não-dual
Seguindo com as experiências reais de pessoas “comuns” que nos transmitem um pouco do que são estados de presença vou compartilhar um trecho da entrevista de Guga a Juca Kfouri. Guga explica o que ocorreu em um jogo de oitavas de final de Roland Garros:
“... foi uma sensação muito forte, a mais forte que senti em quadra... muito envolvimento, entrega total... atingi um nível de felicidade, de contemplação do todo... ao mesmo tempo observava a torcida, batia na bola, tudo... um grau de concentração tão alto, tão eficaz... experiência de estar acima, em algum lugar, mas não no padrão normal de sensações... muito forte.”
Este é um estado de consciência em que não há um “eu” que bata na bolinha, há um fluir com a realidade que ocorre, um fluir espontâneo e sem dúvida. Este jorrar de certeza advindo da reação natural ante o que se passa produz a ação correta, uma ação que não busca um fruto específico, nem é imaginada sendo controlada por um sujeito diferente da própria ação.
Como se origina um estado como esse? Bom, podemos começar por uma certeza: um estado de presença não se origina pelo desejo de alcançá-lo... tampouco pela dúvida de alcançá-lo. Tanto desejo quanto dúvida são perturbações criadas pela agitação mental, e denotam a existência de um “eu” psicológico que se crê capaz de alcançar algum outro “estado”. Há que se recordar de algo fundamental: este “eu“ não possui existência em si mesmo, não existe realmente quando estamos presentes. Este “eu” só possui existência real se prensado. Assim, qualquer estado de atenção no instante presente é um estado de inexistência - ainda que ultra momentânea - do “eu”. Por isso este sujeito nunca estará presente, nunca viverá um estado de presença. Haverá, claro, a memória, ou pelo menos uma sensação. Observem como é difícil explicar um estado como esse descrito acima. A memória não é um atributo da personalidade, a memória é um componente da mente que existe por termos a capacidade de sermos conscientes. Não deixa de haver consciência em um estado de presença, e é natural que haja um tipo de informação residente que é oriunda daquele estado. Nosso “eu” então busca se apropriar da sensação criando a ilusão de ter vivido aquele instante. Mas isto é apenas um golpe barato de quem nunca poderá viver tais instantes.
Um estado de presença se origina de maneira natural e espontânea, quando colocamos nossa atenção plena naquilo que se sucede no instante presente, seja o que seja. Vejam como Guga cita a palavra “entrega”.
Outra palavra para se lembrar: “eficaz”. Um estado sem interferência de um “eu” que busca fruto ou se apropria do que parece fazer é paradoxalmente muito mais eficaz.
Um último ponto divertido: a falta de referência espacial: ao mesmo tempo ver a torcida, bater na bolinha, estar acima... a atenção focada nos objetos da realidade (bolinha, adversário, torcida) leva a uma permanência da atenção nestes mesmos objetos, e não em si mesmo. Isto é exatamente o que se propõe como prática meditativa externa. Com a permanência da atenção nos objetos, deixa de haver um sujeito auto-referenciado que executa a ação, a atenção está em vários objetos simultaneamente. Se o “eu” sujeito que executa ações e tem história não está presente, porém a ação é executada com eficácia e existe consciência do que se passa, quem é consciente?
Isto quer dizer que o próprio sistema (bolinha, raquete, jogador, torcida) é consciente do que se passa.
Realmente do ponto de vista não-dual, em última instância, não existe consciência individual... Consciência existe previamente e como condição subjacente a qualquer ato ou objeto. Apenas percebemos um leve desvelar da ilusão da consciência individualizada em estados de intensa presença.
Abraços,
Marcos
“... foi uma sensação muito forte, a mais forte que senti em quadra... muito envolvimento, entrega total... atingi um nível de felicidade, de contemplação do todo... ao mesmo tempo observava a torcida, batia na bola, tudo... um grau de concentração tão alto, tão eficaz... experiência de estar acima, em algum lugar, mas não no padrão normal de sensações... muito forte.”
Este é um estado de consciência em que não há um “eu” que bata na bolinha, há um fluir com a realidade que ocorre, um fluir espontâneo e sem dúvida. Este jorrar de certeza advindo da reação natural ante o que se passa produz a ação correta, uma ação que não busca um fruto específico, nem é imaginada sendo controlada por um sujeito diferente da própria ação.
Como se origina um estado como esse? Bom, podemos começar por uma certeza: um estado de presença não se origina pelo desejo de alcançá-lo... tampouco pela dúvida de alcançá-lo. Tanto desejo quanto dúvida são perturbações criadas pela agitação mental, e denotam a existência de um “eu” psicológico que se crê capaz de alcançar algum outro “estado”. Há que se recordar de algo fundamental: este “eu“ não possui existência em si mesmo, não existe realmente quando estamos presentes. Este “eu” só possui existência real se prensado. Assim, qualquer estado de atenção no instante presente é um estado de inexistência - ainda que ultra momentânea - do “eu”. Por isso este sujeito nunca estará presente, nunca viverá um estado de presença. Haverá, claro, a memória, ou pelo menos uma sensação. Observem como é difícil explicar um estado como esse descrito acima. A memória não é um atributo da personalidade, a memória é um componente da mente que existe por termos a capacidade de sermos conscientes. Não deixa de haver consciência em um estado de presença, e é natural que haja um tipo de informação residente que é oriunda daquele estado. Nosso “eu” então busca se apropriar da sensação criando a ilusão de ter vivido aquele instante. Mas isto é apenas um golpe barato de quem nunca poderá viver tais instantes.
Um estado de presença se origina de maneira natural e espontânea, quando colocamos nossa atenção plena naquilo que se sucede no instante presente, seja o que seja. Vejam como Guga cita a palavra “entrega”.
Outra palavra para se lembrar: “eficaz”. Um estado sem interferência de um “eu” que busca fruto ou se apropria do que parece fazer é paradoxalmente muito mais eficaz.
Um último ponto divertido: a falta de referência espacial: ao mesmo tempo ver a torcida, bater na bolinha, estar acima... a atenção focada nos objetos da realidade (bolinha, adversário, torcida) leva a uma permanência da atenção nestes mesmos objetos, e não em si mesmo. Isto é exatamente o que se propõe como prática meditativa externa. Com a permanência da atenção nos objetos, deixa de haver um sujeito auto-referenciado que executa a ação, a atenção está em vários objetos simultaneamente. Se o “eu” sujeito que executa ações e tem história não está presente, porém a ação é executada com eficácia e existe consciência do que se passa, quem é consciente?
Isto quer dizer que o próprio sistema (bolinha, raquete, jogador, torcida) é consciente do que se passa.
Realmente do ponto de vista não-dual, em última instância, não existe consciência individual... Consciência existe previamente e como condição subjacente a qualquer ato ou objeto. Apenas percebemos um leve desvelar da ilusão da consciência individualizada em estados de intensa presença.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Se não puder fazer mais nada
Se diz que determinados ensinamentos ou caminhos de auto-conhecimento requerem um certa natureza de aprendiz ou de discípulo. Discernir sobre quem é você enquanto discípulo, e qual é o possível caminho é uma das questões mais difícieis para muitos de nós. O Baghavad Gita tem em seu início a apresentação de Arjuna como o disípulo perfeito, e assim “basta” ouvir atentamente os ensinamentos de Krishna para que a compreensão perfeita se faça. Nós, naturalmente, não somos este discípulo perfeito - no sentido de já termos nossas tendências kármicas convergindo para criar a probabilidade de alcançar esta compreensão. Nem por isso devemos sentar e esperar algum tipo de graça divina.
Muitas vezes nos deparamos com textos, ou falas, que já ouvimos e vimos muitas vezes, mas só naquele preciso instante fazem sentido. O Vedanta Advaita é um destes caminhos de auto-conhecimento que por vezes parece ser absolutamente incompreensível (de tão simples...) mas, com uma boa dose de perseverança, é possível que alguns dos ensinamentos façam sentido em algum momento de nossas trilhas. Em algum momento uma ficha cai, uma experiência real de presença é percebida conscientemente, e isto bastará como combustível para muitos e muitos momentos de prática, reflexão e estudo. Um só momento de presença inocula no sistema egóico o vírus da dúvida sobre a construção da realidade dual que mantemos com um pensar incessante, um destes momentos é suficiente para abalar os pilares desta imensa construção.
Assim se você não puder investir tempo algumas vezes por semana em uma prática de atenção interna, se você não puder ler alguns dos textos maravilhosos à disposição, se você não puder dedicar um tempo de reflexão consciente sobre sua realidade, então, se nada disso for possível neste momento de sua vida, faça apenas uma coisa: busque estar aqui e agora quando se lembrar disto. A intenção honesta de se lembrar disto será suficiente para que, em algum minuto das próximas semanas, esta situação ocorra. E quando ocorrer, apenas fique ali, fazendo o que quer que seja que o momento peça. Depois, o fluxo de pensamentos voltará, e se apropriará da sensação da presença através da memória, mas isto já não importa.
Se você não puder fazer mais nada, apenas busque sentir o perfume da presença em algum instante da sua vida.
Abraços,
Marcos
Muitas vezes nos deparamos com textos, ou falas, que já ouvimos e vimos muitas vezes, mas só naquele preciso instante fazem sentido. O Vedanta Advaita é um destes caminhos de auto-conhecimento que por vezes parece ser absolutamente incompreensível (de tão simples...) mas, com uma boa dose de perseverança, é possível que alguns dos ensinamentos façam sentido em algum momento de nossas trilhas. Em algum momento uma ficha cai, uma experiência real de presença é percebida conscientemente, e isto bastará como combustível para muitos e muitos momentos de prática, reflexão e estudo. Um só momento de presença inocula no sistema egóico o vírus da dúvida sobre a construção da realidade dual que mantemos com um pensar incessante, um destes momentos é suficiente para abalar os pilares desta imensa construção.
Assim se você não puder investir tempo algumas vezes por semana em uma prática de atenção interna, se você não puder ler alguns dos textos maravilhosos à disposição, se você não puder dedicar um tempo de reflexão consciente sobre sua realidade, então, se nada disso for possível neste momento de sua vida, faça apenas uma coisa: busque estar aqui e agora quando se lembrar disto. A intenção honesta de se lembrar disto será suficiente para que, em algum minuto das próximas semanas, esta situação ocorra. E quando ocorrer, apenas fique ali, fazendo o que quer que seja que o momento peça. Depois, o fluxo de pensamentos voltará, e se apropriará da sensação da presença através da memória, mas isto já não importa.
Se você não puder fazer mais nada, apenas busque sentir o perfume da presença em algum instante da sua vida.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Pegada kármica
Neste dias de aquecimento global e pegada ecológica não custa refletir um pocuo sobre os fundamentos da sociedade atual, que afinal gerou esta situação concreta.
Vivemos um tempo de ter. Ter, em si mesmo, é indiferente; não se trata de uma discussão moral sobre a posse. O problema está no apego, no processo que leva à posse, nas condições de um “eu” cria uma imensa “pegada karmica” em cada trilha destas.
Estas trilhas de construção da posse são encharcadas de um “eu” que deseja, que se crê merecedor das ações. Este “eu” acredita ser um agente independente que controla seu caminho, sofre com ele, e merece alcançar a posse do que quer que seja.
Quando existe desejo em uma ação, quando um sujeito se considera merecedor do fruto de uma ação que realiza, enfim, quando há um sentido implícito de “eu” na ação, se constróem e fortalecem tendências. Isto é o que também se chama karma. Assim, em uma trilha de vida podemos gerar uma imensa “pegada kármica”, que, infelizmente, não pode ser compensada com a plantação de árvores espirituais.
O que quer que seja que temporariamente possuímos (material ou idealmente) é apenas resultado de todas as tendências construídas anteriormente, e não tem valor em si.
A nossa relação com cada um destes objetos de posse e desejo (materiais ou ideais) é que determina a construção destas tendências.
Esta pegada kármica será acrescida ao imenso estoque que já temos guardado, e assim partiremos para mais e mais um giro da roda de samsara.
Podemos assim imaginar como nossas vidas, e as de nossas redes de contato e relações, são unidades de produção contínua de uma imensa pegada kármica.
Será possível viver com uma pegada kármica zero?
Sim. É necessário que cada indivíduo seja consciente de cada um de seus atos e pensamentos, de modo que suas ações sejam uma resposta espontânea à realidade.
É condição prévia para isto que estar aqui e agora, presentes.
É condição pévia para isto reconhecer as próprias armadilhas e gatilhos para não se ver servo de suas próprias criações psicológicas.
É condição prévia para isto a auto-observação contínua.
É condição prévia para isto a disciplina da prática.
É condição prévia para isto a inquietação acerca da vida em si.
Aos inquietos fica então o convite de experimentar a liberdade em vida.
Abraços,
Marcos
Vivemos um tempo de ter. Ter, em si mesmo, é indiferente; não se trata de uma discussão moral sobre a posse. O problema está no apego, no processo que leva à posse, nas condições de um “eu” cria uma imensa “pegada karmica” em cada trilha destas.
Estas trilhas de construção da posse são encharcadas de um “eu” que deseja, que se crê merecedor das ações. Este “eu” acredita ser um agente independente que controla seu caminho, sofre com ele, e merece alcançar a posse do que quer que seja.
Quando existe desejo em uma ação, quando um sujeito se considera merecedor do fruto de uma ação que realiza, enfim, quando há um sentido implícito de “eu” na ação, se constróem e fortalecem tendências. Isto é o que também se chama karma. Assim, em uma trilha de vida podemos gerar uma imensa “pegada kármica”, que, infelizmente, não pode ser compensada com a plantação de árvores espirituais.
O que quer que seja que temporariamente possuímos (material ou idealmente) é apenas resultado de todas as tendências construídas anteriormente, e não tem valor em si.
A nossa relação com cada um destes objetos de posse e desejo (materiais ou ideais) é que determina a construção destas tendências.
Esta pegada kármica será acrescida ao imenso estoque que já temos guardado, e assim partiremos para mais e mais um giro da roda de samsara.
Podemos assim imaginar como nossas vidas, e as de nossas redes de contato e relações, são unidades de produção contínua de uma imensa pegada kármica.
Será possível viver com uma pegada kármica zero?
Sim. É necessário que cada indivíduo seja consciente de cada um de seus atos e pensamentos, de modo que suas ações sejam uma resposta espontânea à realidade.
É condição prévia para isto que estar aqui e agora, presentes.
É condição pévia para isto reconhecer as próprias armadilhas e gatilhos para não se ver servo de suas próprias criações psicológicas.
É condição prévia para isto a auto-observação contínua.
É condição prévia para isto a disciplina da prática.
É condição prévia para isto a inquietação acerca da vida em si.
Aos inquietos fica então o convite de experimentar a liberdade em vida.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 4 de abril de 2011
É só mais um pensamento...
No último encontro do grupo de meditação das 2af’s falávamos sobre a prática de atenção e experimentávamos exercícios divertidos para que nos déssemos conta da frequência dos pensamentos. Experimente este:
Encontre um espaço mais ou menos amplo (5 a 10 metros de espaço livre), e se coloque em um dos cantos. Agora comece a caminhar. Quando perceber que um pensamento cruzou sua cabeça, volte ao ponto inicial. Mas há que se ter uma atenção fina, qualquer pensamento, mesmo sutil, deve levá-lo de volta à posição original. Se alguém conseguir chegar ao outro lado e ainda assim não pensar “consegui!!” por favor me escreva...
Esta pequena brincadeira mostra a frequência exaustiva da agitação mental. Mostra também que, de fato, não controlamos o (não) surgimento, a natureza, a origem, ou a direção dos pensamentos. Somos simplesmente servos de nossa própria habitualidade.
Ao pensarmos estabelecemos um quadro de referência sobre o que somos, nos entendemos como algo, definido e concreto. Esta primeira idéia, esta separação, é o início do ciclo do ser que se acredita independente, ator, merecedor. Se acredita evoluindo, se aperfeiçoando. Este ser pensado não vai a lugar algum, apenas gera mais e mais tendências.
O agente real que é consciente da realidade quando se está presente não é este eu-que-pensa, este eu-pensado. O eu-pensado, de verdade, morre a cada instante de silêncio e presença. Porém renasce a cada agitação mental, a cada pensamento. Com este inseparável zumbi vivo-morto compartilhamos a existência.
Assim, uma dos maiores antídotos à não-presença é uma simples frase: “É só mais um pensamento...”. Quando você estiver mergulhado na mais profunda certeza de que merece sofrer, ou quando estiver no mais alto degrau do pódio do orgulho, e estiver pensando e falando algo para si mesmo, lembre-se disso: é só mais um pensamento. Quando você estiver furioso com o chefe no trabalho, e voltando para casa estiver pensando em como ele não presta, ou quando alguma mágoa de muitos anos atrás teima em voltar à tona, lembre-se: é só mais um pensamento. E quando, no meio de uma prática de silêncio interior, após algumas dezenas de minutos, você se percebe sutilmente desejando algo, ou quando, após algumas dezenas de anos de prática, você se percebe sutilmente esperando algo, lembre-se: ”É só mais um pensamento...”.
A realidade está aqui, agora, já. Qualquer narrativa do eu-pensado apenas nos afasta dela. Sem mais ou menos.
Abraços,
Marcos
Encontre um espaço mais ou menos amplo (5 a 10 metros de espaço livre), e se coloque em um dos cantos. Agora comece a caminhar. Quando perceber que um pensamento cruzou sua cabeça, volte ao ponto inicial. Mas há que se ter uma atenção fina, qualquer pensamento, mesmo sutil, deve levá-lo de volta à posição original. Se alguém conseguir chegar ao outro lado e ainda assim não pensar “consegui!!” por favor me escreva...
Esta pequena brincadeira mostra a frequência exaustiva da agitação mental. Mostra também que, de fato, não controlamos o (não) surgimento, a natureza, a origem, ou a direção dos pensamentos. Somos simplesmente servos de nossa própria habitualidade.
Ao pensarmos estabelecemos um quadro de referência sobre o que somos, nos entendemos como algo, definido e concreto. Esta primeira idéia, esta separação, é o início do ciclo do ser que se acredita independente, ator, merecedor. Se acredita evoluindo, se aperfeiçoando. Este ser pensado não vai a lugar algum, apenas gera mais e mais tendências.
O agente real que é consciente da realidade quando se está presente não é este eu-que-pensa, este eu-pensado. O eu-pensado, de verdade, morre a cada instante de silêncio e presença. Porém renasce a cada agitação mental, a cada pensamento. Com este inseparável zumbi vivo-morto compartilhamos a existência.
Assim, uma dos maiores antídotos à não-presença é uma simples frase: “É só mais um pensamento...”. Quando você estiver mergulhado na mais profunda certeza de que merece sofrer, ou quando estiver no mais alto degrau do pódio do orgulho, e estiver pensando e falando algo para si mesmo, lembre-se disso: é só mais um pensamento. Quando você estiver furioso com o chefe no trabalho, e voltando para casa estiver pensando em como ele não presta, ou quando alguma mágoa de muitos anos atrás teima em voltar à tona, lembre-se: é só mais um pensamento. E quando, no meio de uma prática de silêncio interior, após algumas dezenas de minutos, você se percebe sutilmente desejando algo, ou quando, após algumas dezenas de anos de prática, você se percebe sutilmente esperando algo, lembre-se: ”É só mais um pensamento...”.
A realidade está aqui, agora, já. Qualquer narrativa do eu-pensado apenas nos afasta dela. Sem mais ou menos.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 21 de março de 2011
O que me impede?
Existem perguntas que podem transportar, surpreender e uma delas é: onde você está agora? Esta é uma boa pergunta, como toda pergunta óbvia mas que não é. Para alguns esta pergunta é muito simples, não merece ser compreendida. Então vamos com outra: porque você não pode estar aqui agora? O que existe, dentro de você, que impede sua total presença, sua interação plena com o que se passa?
A realidade da ação, de nossa existência prática no mundo, no dia a dia, nos chama a todo e cada segundo. Entretanto todos sabemos que existem momentos de realidade em que não estamos de fato presentes, estamos em algum lugar do passado (ou a partir daí projetando o futuro). O mundo passa e nós ficamos, atados a um roteiro de dramas pessoais que a cada fase da vida fica mais e mais enrolado. Se prestarmos atenção verificaremos que estes momentos são a imensamente maior parte de nossa vida. Esta outra pergunta pode fazer sentido quando se está preso nas engrenangens das razões e das infindáveis justificativas novelescas de nossa memória personalística. É sempre um fio trançado de pensamentos emoções e desejos que nos prende às cavernas da memória enquanto a realidade passa.
Este roteiro tende a se tornar mais intenso e a requerer cada vez mais a nossa atenção no dia a dia, de modo que cada vez menos interagimos com o mundo real. De fato interagimos com nossas próprias memórias do mundo na maior parte das vezes.
Prestem atenção: o chamariz ardiloso da identidade egóica sempre aparece para nos tragar da realidade e nos mergulhar de volta às nossas confortáveis caverninhas de pensamentos. Cada vez mais aparecem menos instantes de realidade que mereçam nossa presença: ao final estamos sempre julgando que a realidade não merece nossa própria presença.
A questão é que não existe realidade melhor ou pior, realidade apropriada ou não para estarmos presentes. A realidade sempre existe, e cada realidade que nos é apresentada merece e requer nossa presença. Se a cada instante de realidade nos entregamos ao que se sucede exercitaremos o músculo do discernimento, e com o tempo, percorreremos nosso Dharma, nosso caminho verdadeiro.
Assim, quando se der conta de que para você a situação atual que está acontecendo não merece sua presença total, sua entrega ao que acontece, pergunte a você mesmo: o que existe, dentro mim, que impede minha total presença neste momento? Você ficará surpreso com as respostas.
Abraços,
Marcos
A realidade da ação, de nossa existência prática no mundo, no dia a dia, nos chama a todo e cada segundo. Entretanto todos sabemos que existem momentos de realidade em que não estamos de fato presentes, estamos em algum lugar do passado (ou a partir daí projetando o futuro). O mundo passa e nós ficamos, atados a um roteiro de dramas pessoais que a cada fase da vida fica mais e mais enrolado. Se prestarmos atenção verificaremos que estes momentos são a imensamente maior parte de nossa vida. Esta outra pergunta pode fazer sentido quando se está preso nas engrenangens das razões e das infindáveis justificativas novelescas de nossa memória personalística. É sempre um fio trançado de pensamentos emoções e desejos que nos prende às cavernas da memória enquanto a realidade passa.
Este roteiro tende a se tornar mais intenso e a requerer cada vez mais a nossa atenção no dia a dia, de modo que cada vez menos interagimos com o mundo real. De fato interagimos com nossas próprias memórias do mundo na maior parte das vezes.
Prestem atenção: o chamariz ardiloso da identidade egóica sempre aparece para nos tragar da realidade e nos mergulhar de volta às nossas confortáveis caverninhas de pensamentos. Cada vez mais aparecem menos instantes de realidade que mereçam nossa presença: ao final estamos sempre julgando que a realidade não merece nossa própria presença.
A questão é que não existe realidade melhor ou pior, realidade apropriada ou não para estarmos presentes. A realidade sempre existe, e cada realidade que nos é apresentada merece e requer nossa presença. Se a cada instante de realidade nos entregamos ao que se sucede exercitaremos o músculo do discernimento, e com o tempo, percorreremos nosso Dharma, nosso caminho verdadeiro.
Assim, quando se der conta de que para você a situação atual que está acontecendo não merece sua presença total, sua entrega ao que acontece, pergunte a você mesmo: o que existe, dentro mim, que impede minha total presença neste momento? Você ficará surpreso com as respostas.
Abraços,
Marcos
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A única escolha
Sempre falamos da pedra fundamental do auro-conhecimento que é o presente. Volta e meia aparece a pergunta: mas como vou saber se de fato estou presente ou não? A resposta é bem simples: se você está pensando sobre seu grau de presença, se você está julgando de alguma maneira, se você se pergunta se está presente, então você não está presente!
Quando há presença não há um “eu” psico-histórico que viva o instante de presença. É simples e paradoxal. Se há um instante de presença ele normalmente só é detectado pela figura da identidade egóica (eu) depois; é quando a presença morre que o eu pode utilizar a propriedade da memória para buscar o “cheiro” da sensação e se dizer ter estado presente.
Entretanto, para nós, ainda ignorantes, a compreensão de que houve um instante de presença é bastante importante, pois nos dá pistas e sinais do que não é um estado de presença, e assim permite que, a cada momento de não-presença este possa ser, cada vez mais rapidamente, reconhecido.
Uma vez que você reconhece que está em um estado de ausência (pensando, divagando), isto é, que não está vivendo aquilo que a realidade oferece naquele mesmo instante, você tem apenas uma alternativa: optar por permanecer ausente, ou voltar ao presente. Esta é a escolha que vai permear todos os momentos da vida de quem perdeu a inocência sobre a realidade de se estar presente. Uma vez que se tenha dado conta do que é o estar presente, ainda que em um grau bastante simples, a ausência (não-presença) cobra um preço cada vez maior.
Não há nenhuma outra escolha de tamanha magnitude na vida como essa uma vez que ela se faça aparente. Este é o “ser ou não ser”.
Quem estiver com frio na barriga ante à possibilidade de perder a inocência pode aparecer no grupo de meditação das 4af’s para experimentar um pouco mais.
abraços
marcos
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Ramana, e quem sou eu afinal?
Ramana Maharshi propunha aos que o procuravam um método aparantemente muito simples de prática na busca do auto-conhecimento, chamado de método da auto-inquirição. Este método, basicamente, se resumia na prática de atenção interna através de uma pergunta raiz: quem sou eu?
No mundo interno existem várias formas de seguir o perfume do presente, e cabe a cada um encontrar aquela mais apropriada ao seu próprio sistema mental e nervoso. Uma das formas é esta proposta por Ramana, que, no entanto, é muitas vezes mal interpretada por nós.
Existem basicamente duas maneiras de se fazer esta pergunta a si mesmo. Na primeira a pergunta é feita de forma, digamos, leviana, corriqueira, como quem pergunta sobre o tempo. Feita desta maneira isto será simplesmente o início de um processo interminável de pensamentos enadeados. Quem sou eu? eu mesmo, ora... e quem sou este eu mesmo? eu... e assim vai ladeira abaixo, uma diversão para a personalidade, uma distração total do que pode ser o presente neste momento. Nesta altura estamos totalmente imersos em pensamentos sobre o tema, o que, como sabemos, não tem validade por ser um estado não associado ao presente.
A segunda forma, é aquela em que toda a atenção, com um grau de curiosidade absoluta, está servindo como mola propulsora da pergunta ‘quem sou eu?’; ao formulá-la há uma genuína intenção de esperar uma resposta. É o mesmo tipo de foco de atenção que existe quando você aposta na mega sena, e ouve as dezenas sorteadas; imagine que você já acertou cinco, e a sexta vai ser anunciada... onde está sua atenção? divagando dobre o fim de semana, ou sobre a mágoa com a irmã, ou sobre ... claro que não, a atenção está 100% voltada ao instante presente, aguardando a sexta dezena! É este grau de atenção que é necessário para se esperar a resposta de uma pergunta do quilate de ‘quem sou eu’. Surge então, no momento em que a questão se propõe, um estado de surpresa com a própria questão colocada. A mente linear, sem encontrar resposta dialética (por comparação com conteúdos prévios armazenados na memória) se vê por um instante paralisada. Manas (a atividade mental) estaciona subitamente, como um máquina engripada por uma corrente quebrada. Permanecendo aí, com atenção firmemente postada no observador que percebe o vazio de respostas, pode nos ser oferecida a probabildiade de dilatação do vazio e do silêncio. Com a mente quieta, por pouquíssimos instantes, é possível que budhi se faça aparente. Este é o princípio do processo de silêncio, quiçá da meditação.
abraços
marcos
No mundo interno existem várias formas de seguir o perfume do presente, e cabe a cada um encontrar aquela mais apropriada ao seu próprio sistema mental e nervoso. Uma das formas é esta proposta por Ramana, que, no entanto, é muitas vezes mal interpretada por nós.
Existem basicamente duas maneiras de se fazer esta pergunta a si mesmo. Na primeira a pergunta é feita de forma, digamos, leviana, corriqueira, como quem pergunta sobre o tempo. Feita desta maneira isto será simplesmente o início de um processo interminável de pensamentos enadeados. Quem sou eu? eu mesmo, ora... e quem sou este eu mesmo? eu... e assim vai ladeira abaixo, uma diversão para a personalidade, uma distração total do que pode ser o presente neste momento. Nesta altura estamos totalmente imersos em pensamentos sobre o tema, o que, como sabemos, não tem validade por ser um estado não associado ao presente.
A segunda forma, é aquela em que toda a atenção, com um grau de curiosidade absoluta, está servindo como mola propulsora da pergunta ‘quem sou eu?’; ao formulá-la há uma genuína intenção de esperar uma resposta. É o mesmo tipo de foco de atenção que existe quando você aposta na mega sena, e ouve as dezenas sorteadas; imagine que você já acertou cinco, e a sexta vai ser anunciada... onde está sua atenção? divagando dobre o fim de semana, ou sobre a mágoa com a irmã, ou sobre ... claro que não, a atenção está 100% voltada ao instante presente, aguardando a sexta dezena! É este grau de atenção que é necessário para se esperar a resposta de uma pergunta do quilate de ‘quem sou eu’. Surge então, no momento em que a questão se propõe, um estado de surpresa com a própria questão colocada. A mente linear, sem encontrar resposta dialética (por comparação com conteúdos prévios armazenados na memória) se vê por um instante paralisada. Manas (a atividade mental) estaciona subitamente, como um máquina engripada por uma corrente quebrada. Permanecendo aí, com atenção firmemente postada no observador que percebe o vazio de respostas, pode nos ser oferecida a probabildiade de dilatação do vazio e do silêncio. Com a mente quieta, por pouquíssimos instantes, é possível que budhi se faça aparente. Este é o princípio do processo de silêncio, quiçá da meditação.
abraços
marcos
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
467.200 horas
Precisamos aprender a ouvir o som da atenção. Precisamos aprender a sentir a consistência firme de um estado de presença. A atenção é uma propriedade da Consciência, a propriedade que permite que tenhamos capacidade de cognição como indivíduos.
Sem atenção não perceberíamos coisa alguma, o fato de percebermos algo denota a existência da atenção. De verdade nunca estamos desatentos, pois a atenção sempre está; pode estar direcionada para algo que não seja o que ocorre no instante presente, e estaríamos desatentos ao que ocorre naquele instante, mas ainda assim atentos a alguma outra corrente de informações, como nossos devaneios, por exemplo.
A atenção está presente continuamente, segundo após segundo, um jorro incessante; desde o nascimento até a morte, a questão é: o que fazemos com ela? para onde direcionamos este jorro ao longo de nossas 467.200 horas de vida (para uma vida de 80 anos, em vigília de 16 horas por dia)? Supondo que nos primeiros seis anos de vida estávamos mais presentes, e que talvez, por misericórdia ou sorte, em 5 minutos a cada hora estejamos realmente presentes (sendo bem bondoso na estimativa), chegamos à conclusão que desperdiçamos 68 anos de vida em vigília em nossos devaneios... aleluia!
Imaginem a potência de 68 anos de hábitos de pensamento continuamente pisados e repisados! Assim se criam as tendências de nexo entre os ciclos de vida, assim se criam as condições kármicas, assim se perpetua a roda da ignorância.
Considerando que todos nós que lemos este texto ainda temos disponibilidade de atenção, há que se ter o senso de urgência de se perguntar o que realmente desejamos fazer com este fluxo incessante de vida e presença representado pela atenção.
Há que se aprender a escutar o som da atenção nas práticas de meditação interna, notar suas nuances, sua potência, sua volatilidade; há que se investigar a atenção trazendo-a para si mesma. Esta prática exercita e fortalece a capacidade de se perceber perdido em devaneios no dia a dia. Há que se estar pronto para, ao primeiro sinal de distração, trazer a atenção de volta para a realidade que se apresenta, uma e outra vez. A realidade, em seus múltiplos objetos que se sucedem no instante presente, puxa e demanda nossa atenção, temos apenas que deixar que o fluxo natural siga seu rumo, isto é, quando em ação no dia a dia a realidade é prioritária, não nossos devaneios. A atenção é demandada pelo presente que acontece, pelo mundo. A mente linear é que, ao gerar a ilusão da diferença, da individualidade criadora, puxa a atenção de volta para si mesma, para os devaneios eternos que dão a sensação de permanência a um “eu” impermanente. Há que se liberar o navegar no fluxo de atenção natural para buscar a cor real e não sua interpretação; o som que se ouve e não sua memória; o sabor do instante e não sua implicação futura.
abraços
marcos
Sem atenção não perceberíamos coisa alguma, o fato de percebermos algo denota a existência da atenção. De verdade nunca estamos desatentos, pois a atenção sempre está; pode estar direcionada para algo que não seja o que ocorre no instante presente, e estaríamos desatentos ao que ocorre naquele instante, mas ainda assim atentos a alguma outra corrente de informações, como nossos devaneios, por exemplo.
A atenção está presente continuamente, segundo após segundo, um jorro incessante; desde o nascimento até a morte, a questão é: o que fazemos com ela? para onde direcionamos este jorro ao longo de nossas 467.200 horas de vida (para uma vida de 80 anos, em vigília de 16 horas por dia)? Supondo que nos primeiros seis anos de vida estávamos mais presentes, e que talvez, por misericórdia ou sorte, em 5 minutos a cada hora estejamos realmente presentes (sendo bem bondoso na estimativa), chegamos à conclusão que desperdiçamos 68 anos de vida em vigília em nossos devaneios... aleluia!
Imaginem a potência de 68 anos de hábitos de pensamento continuamente pisados e repisados! Assim se criam as tendências de nexo entre os ciclos de vida, assim se criam as condições kármicas, assim se perpetua a roda da ignorância.
Considerando que todos nós que lemos este texto ainda temos disponibilidade de atenção, há que se ter o senso de urgência de se perguntar o que realmente desejamos fazer com este fluxo incessante de vida e presença representado pela atenção.
Há que se aprender a escutar o som da atenção nas práticas de meditação interna, notar suas nuances, sua potência, sua volatilidade; há que se investigar a atenção trazendo-a para si mesma. Esta prática exercita e fortalece a capacidade de se perceber perdido em devaneios no dia a dia. Há que se estar pronto para, ao primeiro sinal de distração, trazer a atenção de volta para a realidade que se apresenta, uma e outra vez. A realidade, em seus múltiplos objetos que se sucedem no instante presente, puxa e demanda nossa atenção, temos apenas que deixar que o fluxo natural siga seu rumo, isto é, quando em ação no dia a dia a realidade é prioritária, não nossos devaneios. A atenção é demandada pelo presente que acontece, pelo mundo. A mente linear é que, ao gerar a ilusão da diferença, da individualidade criadora, puxa a atenção de volta para si mesma, para os devaneios eternos que dão a sensação de permanência a um “eu” impermanente. Há que se liberar o navegar no fluxo de atenção natural para buscar a cor real e não sua interpretação; o som que se ouve e não sua memória; o sabor do instante e não sua implicação futura.
abraços
marcos
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Particular e total
No último encontro do grupo de meditação fizemos uma prática bem divertida (pelo menos eu achei...) de atenção externa. Algo como escolher um objeto e mergulhar nele por 20 minutos. Até, quem sabe, poder realmente descansar no objeto.
Como sabemos “as coisas são o que realmente são quando quem observa não é diferente do que é observado”. Hoje lia um livreto de quadrinhos zen antes de uma reunião em um belo escritório, e uma das tirinhas dizia algo como: a flor é uma flor quando quem a observa é uma flor. É o mesmo. Quando a atenção pousa sem esforço na realidade os pensamentos e interpretações cessam, e a permanência da atenção no presente leva a um estado em que a relevância do observador gradualmente diminui, e prepondera o objeto (a realidade). Até que já não há alguém que observa algo, apenas o algo - apenas o presente e a realidade que se apresenta naquele instante. Há presença e consciência na realidade viva, sem a presença de alguém que se diga consciente de uma realidade viva.
Segundo o Vedanta Advaita a realidade não-dual é o que realmente existe; por conta de limitantes da mente nos habituamos a velar (a realidade não-dual) e projetar (uma realidade não real), a isto se chama maya. Um dos fatores limitantes, conforme explicado por Ivan, é o limitante espacial.
A ver: podemos observar um objeto (externo ou interno) de duas formas, totalizando-o - nos perdendo no objeto - ou particularizando-o - ou seja, nos distanciando do objeto. Normalmente, quando estamos no dia a dia, nós, por hábito, nos distanciamos da realidade apresentada (através de pensamentos, interpretações, etc.). Por outro lado, quando estamos buscando a quietude interna nós, por hábito, mergulhamos em nossos pensamentos e fantasias. Pois o que devemos fazer é justamente o oposto! Quando ativos no mundo devemos nos totalizar com o mundo, de modo que os objetos ganhem relevância, e não o sujeito que observa. Quando quietos internamente devemos nos distanciar do que se apresenta, ou seja, particularizar os pensamentos e emoções de modo que o observador ganhe relevância, e não os objetos.
Até parece algo técnico, frio... mas a prática mostra que é bem longe disso a experiência real.
Experimentar, dia sim dia também, esta postura atenta pode mostrar novas trilhas, até, quem sabe, conseguirmos aprender a descansar na realidade que se apresenta para nós a cada instante.
abraços
marcos
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Sobre flechas e karma
Nossa compreensão usual sobre o karma carrega a idéia de culpa e ‘coisa ruim’. Tão longe desta sombra está a definição original deste conceito hindu. Talvez uma das imagens mais didáticas utilizadas para explicar o karma seja aquela das flechas: passamos a vida a atirar flechas para o alto, e, como sabemos, um dia elas cairão. Estas flechas que atiramos são impulsionadas pelo desejo fundamentado na sensação de individualidade do “eu” (ahamkara). A incessante busca pelo fruto, pelo benefício das ações que fazemos, associada à sensação de sermos os agentes da ação, produz uma modalidade de ação no mundo que gera tendências. No tempo linear estas ações cheias de desejo são as flechas lançadas, por exemplo, hoje, neste ano, neste ciclo de vida. Estas flechas cairão, certamente, e isto ocorrerá no futuro. Estas tendências serão concretizadas ao longo de outros ciclos de vida.
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa.
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar.
PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.
abraços
marcos
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa.
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar.
PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.
abraços
marcos
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Ensinamento e aprendizagem
Diz Sesha que o ensinamento (do ponto de vista da busca da compreensão maior das grandes tradições) não é mais que o processo de mudança de hábitos mentais. Com o tempo os hábitos mentais são reduzidos em quantidade, e com isso o sistema todo fica mais próximo (isto é, aumenta a probabilidade) de estar atento àquilo que se sucede no presente.
Somos mestres em construir e nutrir inúmeros hábitos mentais, colcha de retalhos que é o genótipo de nossa personalidade. Uma vida normal nos leva a dar a ignição nestes hábitos permanentemente, a cada hora do dia, em nosso trabalho, com a família, amigos, e especialmente sozinhos. Existe a crença de que há de fato um “eu” que age, controla, e é por princípio carente (de amor, de atenção, etc.) pois a pedra fundamental de sua construção é a separatividade do todo (!!) já que se não houvesse o filtro da separatividade não haveria porque conceber uma identidade egoísta diferenciada. É por isso que todos nós temos, como tijolo fundamental da construção da personalidade, a carência de algo, e a partir disso se desdobram, conforme as condições de prarabda karma, os diferentes modelos de máscaras e relacionamentos. A compreensão desta carência básica é passo crítico para a aquietação. A não-compreensão acelera o girar eternos das rodas dos hábitos mentais.
Conforme amadurece a percepção do que somos realmente e se disciplina o velho macaco louco (a mente na metáfora budista) os hábitos mentais murcham, começam a exercer menos poder, e aos poucos são esvaziados. Com o tempo ficam menos e menos hábitos mentais, os desejos se sutilizam, e é mais provável que o sistema esteja mais atento ao que se passa a cada instante - ao Presente - e não perdido no labirinto interno. Aos poucos estar imerso na brilhante corrente do presente se torna mais provável, e custa mais voltar ao labirinto dos hábitos mentais. E assim se segue o processo de compreensão.
Outro ponto fundamental da aprendizagem e amadurecimento é que durante os ensinamentos e práticas há instantes - ainda que fugazes - de presença, de compreensão em um nível mais profundo, fora do campo da mente linear. São instantes em que parece que o universo todo está ali. Estes momentos muitas vezes não carregam imediatamente um entendimento racional, por vezes se assemelham a nuvens de quase-compreensão, como se algo certamente tivesse se passado, mas não sabemos determinar o que. Estes momentos são como sementes que ficam latentes, sementes nutridas da presença real que existia naquele momento. No tempo adequado da vida estas sementes começarão a crescer e a compreensão se fará clara. Mas atenção: o momento adequado normalmente não é aquele que o “eu” espera.
Assim se dá o processo real de aprendizagem e desenvolvimento da compreensão. Não é um processo linear, são saltos - para cima, para baixo e para os lados - como um processo dinâmico, turbulento, caótico: a ordem que existe não é reconhecida pela mente que raciocina e que suporta as justificativas e expectativas do “eu”.
abraços
marcos
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Pobre "eu" ignorante
Diz o Bhagavad Gita em sua décimo oitava estância:
Pura é a renúncia daquele que dizendo “devo fazer isto” cumpre sua ação devida sem interesse próprio ou desejo de recompensa. O renunciante, preenchido de pureza, não repugna as ações ingratas nem se aficciona às gratas.
De fato não é possível aos seres encarnados renunciarem inteiramente à ação. Assim, em verdade deve ser chamado renunciante aquele que renuncia ao fruto da ação.
Para nós, nascidos criados e firmemente enraizados nesta cultura ocidental estas slokas (versos) do Bhagavad Gita soam como um paradoxo, um verdadeiro mistério. Isto para as mentes agraciadas com um karma que traga a chama da curiosidade espiritual. Para outras mentes de pior sorte é simplesmente um texto indiano antigo que carece de sentido no mundo atual.
Me fascina especialmente a proposta de ser renunciante em plena ação - é este o princípio fundamental do caminho da harmonia pregado por Morihei Ueshiba ao sintetizar o Aikido.
A renúncia ao fruto da ação não implica inação, como bem explicam estas slokas; implica agir conforme se apresenta a realidade no momento presente, implica reagir utilizando todo o seu sistema (corpo, mente, sentidos) àquilo que se faz acontecer. Um pouco mais além, esta renúncia ao fruto implica estar totalmente Presente.
O Vedanta Advaita explica de modo contundente os diferentes estados de consciência existentes e potencialmente disponíveis para os seres humanos. Em vigília (quando não estamos dormindo) normalmente estamos mergulhados no estado de pensamento. Conforme desenvolvemos o músculo da presença e se aquieta a agitação mental estados de maior intensidade de presença são experimentados: observação, concentração e meditação. Em nenhum destes outros estados há pensamentos, entretanto há Consciência e se atua de modo mais efetivo, natural e harmonioso com a realidade. Em nenhum destes estados (exceto no de pensamento) há um “eu” com história, memória e RG.
Voltando ao nosso tema, não haverá renúncia enquanto houver um “eu” que se pense renunciando. Isto ocorre porque este “eu”, ao se considerar mais “evoluído” e “desenvolvido” por estar renunciando ao fruto de fato está obviamente criando o desejo por um outro tipo de fruto, talvez não imediatamente derivado daquela ação específica, talvez mais sutil, mas ainda assim um resultado futuro esperado (por exemplo: “evoluir espiritualmente”). Assim, o caminho para se conhecer o que é a renúncia à ação passa pela presença (de novo!!).
O mistério da renúnica ao fruto tem que ser pesquisado, tem que ser objeto de investigação diária nas atividades que fazemos. Neste quebra-cabeças muitas vezes algumas fichas relevantes caem quando nos damos conta do tipo de resultado que sutilmente (ou não) esperamos das ações que executamos no dia a dia. E nestes momentos se coloca em cheque o quanto realmente alguém está disposto a buscar a compreensão e o conhecimento de si mesmo e da natureza da realidade.
É muito comum e fácil se alocar a responsabilidade pela existência de tantos desejos de resultados e frutos egoístas (voltados para cada “eu”) na sociedade atual, em suas regras explícitas e implícitas, em seus hábitos e costumes. As organizações são exemplos disto, com seus sistemas de remuneração e incentivos. Daí muitas vezes surge a pergunta: “como posso tentar renunciar ao fruto da ação (estar presente!) quando minha empresa me mede pelos meus resultados?”. Embutida nesta ignorante questão estão duas crenças: a primeira é a crença de controle, acreditar que de fato através de nosso esforço e desejo é possível controlar o rumo dos acontecimentos; a segunda é a crença de que a entrega (presença, atuar em reação natural à realidade) vai produzir resultados piores, ou diferentes do que gostaríamos que ocorressem (!!!). Ora, é o mesmo que dizer que este pobre “eu” é maior que o Absoluto!
Há que se pesquisar internamente no dia a dia, e há que se disciplinar na prática interior de silêncio para que cada um a seu tempo possa se dar conta de seus mais profundos hábitos mentais, se dar conta das raízes mais sutis de resistência deste “eu” pensado e pensante, de modo que a possibilidade de viver em estado Consciente se torne mais provável.
abraços
marcos
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O jardim e a mata
Alguns poucos livros eu nunca deixo que se afastem de mim. Um deles é o “I am That”, do Nisargadatta Maharaj. Me deparei com um pequeno trecho especial agora há pouco:
“Não peça para a mente confirmar o que está além da mente”.
Não é de chacoalhar as certezas? Esta é uma típica ‘pulga atrás da orelha’ que o caminho de auto-conhecimento - em especial linhas de jnana yoga, caminho do conhecimento - fermenta e faz brotar.
É como se tivéssemos a sensação de ter um belo jardim, onde aparentemente tudo está em seu perfeito lugar, uma ordem criada pela nossa idéia do que é um jardim: flores roxas neste canto, um pequeno arbusto ali, um longo gramado bem aparado. Porém aos poucos começamos a duvidar da realidade deste jardim, como em um sonho ele parece ter realidade só quando pensamos sobre ele de um modo específico. Quando deixamos de pensar deste modo o jardim parece perder o suporte de realidade, e algo diferente transparece. As flores por vezes somem, por vezes parecem imensas trepadeiras selvagens. Aquela sensação de ordem e conforto por vezes dá lugar a uma sensação de se estar virado do avesso, com um pequeno frio na barriga. Será que o meu maravilhoso jardim não é de verdade?
Aos poucos a dúvida sobre a realidade do jardim cresce, e começa a ser maior do que a certeza. Cada vez mais elementos perdem a consistência que pareciam ter. O intocável gramadao por vezes parece um caótico solo de uma mata atlântica, cheio de folhas, raízes e animais pequenos. Percebemos que este jardim só traz sentido de realidade quando inserido em um conjunto de condições que criamos ao formular nossos pensamentos sobre o que é a própria realidade. Finalmente começamos a perceber que o jardim é apenas um cenário em 3D que nos dava a impressão digital do jardim. A tela em 3D dá a sensação de controle e conforto... para o “eu”. Uma realidade existente apenas quando pensada. Uma realidade inexistente. A mata do jardim real traz a surpresa, a compreensão o caos e a ordem, a sensação de plenitude e entrega.
Nesta metáfora o jardim real (a mata) só se percebe a partir das próprias naturezas das plantas e objetos que compõem, não se percebe “de fora”. O presente e a realidade nunca são “de fora”, não são vistos, sentidos ou percebidos de fora. Cada coisa só é realmente o que é quando é percebida a partir dela mesma. Para perceber as coisas deste modo há que se silenciar a mente. Assim a mata (realidade) nunca é percebida por esta mente. É por isso que não se pode pedir para a mente (que criou o jardim em 3D através de incessantes pensamentos condicionantes) atestar a existência da mata.
De modo análogo, não se pode pedir para a mente linear nos dar a certeza da compreensão dos estados de consciência associados ao presente e não duais. A mente linear é a causa concreta da dualidade, da diferenciação (do jardim). O que existe de verdade está disponível para ser vivido e compreendido pois há consciência em todos os estados; mas não está disponível para ser vivido pelo “eu”.
abraços
marcos
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Neti Neti
Minhas roupas eu não sou, afinal posso descartá-las e continuo existindo.
Minha família e meus amigos eu não sou, sigo existindo e consciente de mim sem a presença deles.
Minha mão, meu braço eu não sou, mesmo em um exercício teórico sigo consciente de mim mesmo sem estas “peças”.
O corpo denso é apenas um animalzinho vivo, parte de um sistema energético que parece ser próprio. Em silêncio um pouco mais profundo se reconhece esta massa que respira e se mantém vital. E se reconhece com estranheza que “eu” não sou esse corpo. Tenho consciência que ele existe, mas compreendo que não sou idêntico ou limitado a ele.
Minha história eu não sou, posso ficar sem RG, sem nome, sem álbum de fotografias, e ainda sigo existindo.
As memórias são como folhas secas caídas no inverno, sua própria realidade se torna tão tênue quanto um só fio de seda conforme a presença se intensifica. Se pode mesmo observá-las como potencialidade e parece até bizarro que estas folhinhas se creiam reais no dia a dia.
O que sou então? O que sobra?
Neti neti significa “não isso, não isso”. Uma das formas de realizar o que somos é descartar o que sabemos não ser. O que sobra?
A prática interna de atenção (usualmente chamada de meditação) é um processo vivo de descarte. A prática de auti-inquirição proposta por Ramana (“Quem sou eu?”) quando aplicada apropriadamente oferece o mesmo norte.
A intensificação do estar presente leva ao descarte de tudo o que não é real, neste caso os pensamentos/emoções, trazendo consigo sua carga de memória e história e futuro e expectativas. A busca instigante por aquilo que é real a cada 15, 30, 60 minutos de prática é chave.
Nesta intensificação do estar e se saber Presente a atenção se volta cada vez mais para si mesma, há um polo atrator, que é a própria fonte de atenção. Aquilo que é capaz de compreender, Aquilo que é Consciente, passa a observar a si mesmo. E aí principia a Realidade.
abraços
marcos
quarta-feira, 9 de junho de 2010
A renúncia à ação
Qual a natureza da renúncia à ação? É muito comum que em algum momento da vida ou da trilha de auto-conhecimento as pessoas se sintam com uma vontade de “deixar tudo”, buscar uma vida completamente diferente. Para algumas pessoas isto se reflete em um desejo de viver no campo, para outras de se instalar em um mosteiro.
Em uma escala menor o mesmo se dá quando uma pessoa decide que não vai agir, mas permanecer passiva ante o que se passa, supostamente porque isto seria mais sábio do que “se misturar com este mundo”.
É essa a base da ilusão da que uma pessoa “espiritualizada” apenas reage sorrindo com ares de incenso a tudo que ocorre. Muito provavelmente esta pessoa está de fato fugindo de sua natureza de ação no mundo, de seu próprio prarabdha karma, ou o karma desta existência individual neste ciclo específico.
Na Índia a renúncia à ação corresponde também a uma categoria ou natureza de pessoas chamados sannyasin; são aqueles que se vestem na cor de açafrão, monges renunciantes. Em tese na India antiga estas pessoas teriam deixado para trás as passagens anteriores desta vida, tendo cumprido suas obrigações e responsabilidades naturais que lhes tinham sido apresentadas (família, trabalho, etc.) e a partir de um certo momento renunciavam às posses materiais, e à ação.
Hoje esta visão está um tanto confusa.
Na raiz da renúncia de um sannyasin está algo muito mais profundo e de difícil compreensão para os ocidentais, que é o desapego mental aos objetos de sensação. Antes da renúncia à ação já está consolidado o desapego à própria idéia da ação, desapego do indivíduo pelo resultado desta ação, e, ao final, desapego da ação mesma.
Desta forma a renúncia verdadeira já ocorreu internamente antes mesmo que uma renúncia externa se faça evidente, e nesta situação não há qualquer tipo de dúvida ou angústia quanto à própria persepctiva da renúncia. Assim, se você em algum momento pondera a respeito de renunciar ou não a alguma coisa, saiba que ainda não está perto de estar pronto para a renúncia verdadeira. Neste momento o desejo da renúncia é apenas mais uma construção da personalidade.
A inação forçada originada de uma renúncia imatura gera tantas tendências futuras (karma) quanto a ação forçada (não natural, nascida da perspectiva do benefício do “eu”). Vivemos em um mundo de ação e temos responsabilidades conforme o ambiente e o nosso sistema desde que nascemos: nosso corpo, nosso entorno, nossas relações. A fuga da ação requerida pelo presente que nos é trazido a cada momento não é um caminho válido. Antes devemos aprender a reagir naturalmente a cada instante, e a partir daí o desenvolvimento do discernimento (viveka) pode nos levar a compreender a natureza da realidade, quando então o desapego mental pode ser forjado. Procurar inverter esta ordem natural do universo a partir de um desejo da personalidade traz apenas mais confusão.
abraços
marcos
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Outra vez
Uma e outra vez caímos novamente na certeza de sermos concretos, definidos, atuantes, importantes.
Concretos em nada somos, basta estudar os vazios das ondas probabilísticas da física quântica. Definidos ainda menos, qual fronteira da sua identidade quando se ama? Atuantes por pura ignorância nos acreditamos, a movimentação de todo o universo se dá através das gunas - qualidades primárias da roda da existência (Sattva, Rajas, Tamas), como os zeros e uns dos computadores constróem mundos cibernéticos as gunas em movimento é que determinam o curso de toda a ação. Nossa auto-proclamada importância cede a uma muito sutil pressão: a importância nasce a partir de uma referência deste “eu”, referência histórica, memória; sem o sistema de referências não sobra um “eu” que julgue que o munda gira à sua volta. São certezas básicas em nossa vida cotidiana, e ainda assim inapelavelmente falsas.
Por alguma benção existem momentos de lucidez, de respiro, em que estas certezas tão pobres são simplesmente percebidas como ilusão. Percebidas como realmente o-são, como bolhas de sabão. Muitas vezes tenho tido a oportunidade e a sorte de assistir estes momentos de compreensão, e não há nada mais belo. Estes instantes em que “uma grande ficha cai”, em que há um desvelar do que a realidade pode ser, são mágicos, e disponíveis para todos nós. Nestes instantes há compreensão, e não há um “eu”que compreenda. Se há “eu” não há compreensão, se há compreensão não hé “eu”, porque a compreensão só existe no instante presente. Porém entre um instante desta qualidade e outro podem se passar dias, meses, anos. Como uma primavera que dura dias e um inverno que se mede em anos. Neste longo ínterim escorregamos intensamente para as certezas. Como isto se dá se no instante mágico da compreensão havia tamanha intensidade de saber?
Isto se dá porque as rodas da mente foram postas a girar há muito tempo, e com muita inércia. Como um caminhão carregado que desce a serra em velocidade tem dificuldade em brecar, do mesmo modo nossa mente tem uma propriedade de alta velocidade (e normalmente em aceleração) de pensamentos, ou seja, alta inércia, daí a dificuldade em se alcançar um estado de silêncio real. Dentro do imenso campo de infinitos pensamentos que geramos quase continuamente um pensamento é a pedra fundamental para todos os outros, a raiz que os sustenta. Este é o pensamento do “eu”. Este perfume do indivíduo que se sente atuante, importante e diferente permeia e dá vida a todos os outros pensamentos/emoções.
Deste modo um instante de compreensão mais real é imediatamente seguido por um novo-velho pensamento, que sutilmente se apropria da história daquele instante. Aquele “eu” que não estava vivo no instante da compreensão se apropria da memória daquele instante, e o declara de sua propriedade através da ilusão de ter sido agente de compreensão, de ter vivido aquele momento, a frase chave que mostra esta armadilha é “eu compreendi”. De fato o sujeito desta frase não pode ser o eu, realmente.
Estes instantes de compreensão são lindos e vitais, e funcionam como faróis para tempestades; a consciência de todo o processo de apropriação executado pela personalidade pode nos ajudar a tornar estes instantes mais frequentes, e como em um infinito quebra-cabeças, as peças, aos poucos podem começar a se encaixar.
abraços
marcos
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