Diz Sesha: o que vale não é a ação que se realiza, mas a compreensão que se tem daquilo que se faz no momento em que se executa a ação. Nós temos a capacidade de realizar, compreender e não nos identificarmos com a ação.
No mundo ocidental, por outro lado, prezamos e medimos a ação pelo valor econômico, pelo gosto, pela utilidade, enfim, pelo resultado alcançado. Nascida do desejo, assim que este se realiza esta ação logo será seguida por outras e mais outras na interminável voraciadade de identidades egóicas perdidas em teias de desejos e inseguranças.
Vejamos com mais detalhes a visão Vedanta sobre a ação. Existem quatro naturezas de ação:
1. Omissão: havendo responsabilidade não se executa a ação
2. Ação indentificada: ação executada com apetência de fruto
3. Ação reta: não há identificação com a ação realizada
4. Não ação: se é livre de toda ação
Nas duas primeiras formas de agir estão as raízes da geração de karma: tanto a omissão quanto a ação identificada tem em sua gênese a figura de um sujeito chamado “eu” que deseja um resultado ou se sente agente controlador da ação (ou da falta dela). Esta figura que deseja cria um nexo com a ação (ou falta dela) realizada e todas as consequências deste ato esparramadas nos longínquos futuros.
Entretanto, entre as duas primeiras formas, é preferível o agir à inação, pois quando se age sempre há o benefício do aprendizado com a experiência. Nossas vidas exigem ação, exigem movimento a todo instante. Fugir desta responsabilidade é a forma mais infantil de encarar os caminhos do auto-conhecimento.
Com o tempo é possível aprender: com a dor, com a experiência, com a reflexão sobre o que se passou, se desenvolve uma crescente compreensão. Aprendemos sobre os meandros do egoísmo e começa a emergir maior clareza sobre a natureza do agir e as fontes sutis do desejo.
Desta forma começa a ser possível experimentar a terceira forma de ação, chamada ação reta, aquela que é realizada sem desejo de resultado pela ação efetuada, e sem identificação com a realização da ação (isto é, não há um sujeito que se ache fazedor da ação). Esta forma de ação pode ser vista como o verdadeiro sacrifício: todo trabalho e toda a ação são convertidos em sagrados pelo simples fato de estarem ocorrendo em nossas vidas; é o instante presente que nos chama a atuar, e este atuar deve ser levado a cabo integralmente. Esta forma de ação gera uma espontânea exaltação.
A busca constante e a prática da ação reta leva ao desenvolvimento do discernimento.
Quando há discernimento há compreensão no instante mesmo em que se dá a ação; de modo instantâneo há compreensão pois “a ação não é diferente da inteligência que a provê”.
Conforme seu próprio caminho determinar, ao indivíduo que amadurece pode ser inclusive aberta a possibilidade de viver com absoluto discernimento. Com este grau de compreensão, para este iluminado, há inclusive a liberdade da não ação.
Abraços,
Marcos
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Outra vez
Uma e outra vez caímos novamente na certeza de sermos concretos, definidos, atuantes, importantes.
Concretos em nada somos, basta estudar os vazios das ondas probabilísticas da física quântica. Definidos ainda menos, qual fronteira da sua identidade quando se ama? Atuantes por pura ignorância nos acreditamos, a movimentação de todo o universo se dá através das gunas - qualidades primárias da roda da existência (Sattva, Rajas, Tamas), como os zeros e uns dos computadores constróem mundos cibernéticos as gunas em movimento é que determinam o curso de toda a ação. Nossa auto-proclamada importância cede a uma muito sutil pressão: a importância nasce a partir de uma referência deste “eu”, referência histórica, memória; sem o sistema de referências não sobra um “eu” que julgue que o munda gira à sua volta. São certezas básicas em nossa vida cotidiana, e ainda assim inapelavelmente falsas.
Por alguma benção existem momentos de lucidez, de respiro, em que estas certezas tão pobres são simplesmente percebidas como ilusão. Percebidas como realmente o-são, como bolhas de sabão. Muitas vezes tenho tido a oportunidade e a sorte de assistir estes momentos de compreensão, e não há nada mais belo. Estes instantes em que “uma grande ficha cai”, em que há um desvelar do que a realidade pode ser, são mágicos, e disponíveis para todos nós. Nestes instantes há compreensão, e não há um “eu”que compreenda. Se há “eu” não há compreensão, se há compreensão não hé “eu”, porque a compreensão só existe no instante presente. Porém entre um instante desta qualidade e outro podem se passar dias, meses, anos. Como uma primavera que dura dias e um inverno que se mede em anos. Neste longo ínterim escorregamos intensamente para as certezas. Como isto se dá se no instante mágico da compreensão havia tamanha intensidade de saber?
Isto se dá porque as rodas da mente foram postas a girar há muito tempo, e com muita inércia. Como um caminhão carregado que desce a serra em velocidade tem dificuldade em brecar, do mesmo modo nossa mente tem uma propriedade de alta velocidade (e normalmente em aceleração) de pensamentos, ou seja, alta inércia, daí a dificuldade em se alcançar um estado de silêncio real. Dentro do imenso campo de infinitos pensamentos que geramos quase continuamente um pensamento é a pedra fundamental para todos os outros, a raiz que os sustenta. Este é o pensamento do “eu”. Este perfume do indivíduo que se sente atuante, importante e diferente permeia e dá vida a todos os outros pensamentos/emoções.
Deste modo um instante de compreensão mais real é imediatamente seguido por um novo-velho pensamento, que sutilmente se apropria da história daquele instante. Aquele “eu” que não estava vivo no instante da compreensão se apropria da memória daquele instante, e o declara de sua propriedade através da ilusão de ter sido agente de compreensão, de ter vivido aquele momento, a frase chave que mostra esta armadilha é “eu compreendi”. De fato o sujeito desta frase não pode ser o eu, realmente.
Estes instantes de compreensão são lindos e vitais, e funcionam como faróis para tempestades; a consciência de todo o processo de apropriação executado pela personalidade pode nos ajudar a tornar estes instantes mais frequentes, e como em um infinito quebra-cabeças, as peças, aos poucos podem começar a se encaixar.
abraços
marcos
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