Dentre todos os paradoxos que a visão filosófica ocidental provoca ao pesquisarmos a realidade a indagação do eu parece ser a mais facilmente observável, e, assim, mais direto ponto de partida para aqueles que se aventuram no auto-conhecimento.
Quem, afinal, é o sujeito que vive, que age, que presencia a realidade?
Experimente perguntar-se esta questão. Naturalmente a resposta será “eu, oras”. Que eu? Ué, eu, fulano de tal, com tantos anos, formado nisto e naquilo, filho de fulano e pai de sicrano, etc. Porém, seguindo nas indagações, pergunte-se agora quem é este “eu” e tente responder sem qualquer atributo histórico. Experimente.
O que se passa? Uma estranha sensação de observar-se a si mesmo... tavez algo como um espelho paralelo a outro.
Continue a indagar, honestamente... o que é este eu? Percebe o silêncio que se abre? Esta sensação de algo consciente, que existe, mas sem denominação?
Isto, que sempre esteve aí, que a si mesmo não se indaga, que é consciente sem pensar, que compreende sem raciocínio, é o que realmente existe.
Isto não tem identidade com o “eu” histórico que só existe quando é pensado.
A falta de história nos traz ao instante presente!
Porém a inérica da falta de presença nos carrega para a história conduzida nos meandros do pensamento, memória agitada e repensada na forma de passado ou na forma de futuro. Quando imersos na memória milhares de dúvidas nos assaltam sobre nossa natureza, o que somos realmente, etc. Este é o playground do “eu”.
Quando vivos no instante presente não surgem dúvidas, o “eu” não faz parte desta dimensão de existência, muito mais próxima da realidade. Não se trata de uma “evolução do eu”, é simplesmente um estado de consciência mais presente; a idéia da evolução espiritual do “eu” é uma grande armadilha que simplesmente tem o efeito de fortalecer a própria identidade egóica. Não existe meio termo: quando se está presente não há um “eu” que se sinta feliz por estar presente e não estar mais perdido em pensamentos... se há algo desta natureza ocorrendo são simplesmente pensamentos mais bonitinhos.
Nós somos criações momentâneas que existem enquanto pensamos sobre elas; criaturas cujo cordão umbelical é construído a cada fluxo de pensamento que nos sustenta, nos ilude fazendo crer que somos contínuos no tempo histórico. Nos instantes em que estamos presentes este cordão é cortado instantaneamente, estas criações não existem. Para comprovar isto basta refazer o exercício proposto acima. É simples.
A indagação do eu pode abrir possibilidades de compreensão profundas se buscamos praticar de forma honesta e curiosa.
(Para os interessados na indagação do eu por favor vejam ao lado o link para o site que contém ensinamentos de Ramana Maharshi)
Abraços,
Marcos
Mostrando postagens com marcador presença. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador presença. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Limiar da intuição
Nós estamos acostumados a estabelecer uma lógica, um raciocínio associativo que determine a razão para decisões que por vezes haviam aparecido como um sentido de saber antes do entender. Neste caso decisão pode ser definida como ação, julgamento ou teórica certeza acerca de uma situação qualquer.
Todos nós já vivemos instantes intensos de “saber algo”, simplesmente saber, sem construção ou análise prévia. Este saber é a intuição, uma forma superior de inteligência que reside em um nível não linear, que não opera através dos canais da mente associativa (Manas) em sua agitação habitual.
Se prestarmos bastante atenção veremos que a sensação do saber puro e simples acontece, e aí, neste mesmo instante, já reside simultaneamente a total compreensão. Já se sabe. O que ocorre em seguida - de forma muito, muito veloz - é que iniciamos o processo de pensar sobre esta sensação de saber. É como se necessitássemos de um procedimento linear e aparentemente lógico que fosse construído por um “eu” que se tornaria então proprietário de uma justificativa “racional” para a decisão.
O saber ocorreu naquele instante claro de intuição - como quando as “fichas caem”, por exemplo. Neste instante não existe a figura de um “eu” que compreenda, existe apenas a compreensão em si mesma, um saber, e um saber que se sabe. Em termos de componentes do órgão interno chamado mente (Antahkarana) Manas está quieto, e brilha Buddhi. Em relação ao estado de atenção há forte presença.
Em seguida aparece um “eu” que inicia o processo de agitação mental e procura entender através de um procedimento lógico. Isto naturalmente restringe aquilo que era “saber” puro e livre em um conhecimento confinado às fronteiras psicológicas de uma identidade egóica com sua história, hábitos e tendências.
Aprender e experimentar a postura de atenção que nos possibilita estarmos mais porosos ao instante presente, de modo a esticar estes segundos de presença na substância de compreensão pura é uma prática vital em nosso caminhar.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Como praticar meditação
A meditação - para se afinar o vocabulário Vedanta - é um estado de consciência. O exercício da atenção é uma prática. Descobrir o que é a atenção, como ela opera, onde ela se pousa, e, mais importante de tudo, sua fonte. Meditar, ao final, é pousar a atenção sobre ela mesma, conforme ensina Sesha. É esta a prática que requer disciplina e repetição, a sadhana fundamental.
Mas como conseguir a disciplina para efetivamente praticar? A maneira mais direta é perceber como estamos imersos e confusos em nossos interminável labirinto de pensamentos em nossa novela pessoal.E como escapar do redemoinho de pensamentos grudentos que nos puxa a cada instante?
Para iniciar é preciso um dar-se conta de que este mundo do redemoinho existe. É preciso dar-se conta de que você é refém deste labirinto que chega sempre ao mesmo ponto. É preciso estar exausto de percorrer sempre o mesmo caminho de pensamento-emoções disparado por qualquer gatilho da realidade, aquele caminho que traz sempre o mesmo ganho emocional para uma identidade que tem como fundamento a carência (uma vez que se acredita separada do todo, daí estar sempre em estado de carência).
Para se perceber essa dinâmica-raiz é crítico desenvolvermos a capacidade de auto-observação. Observarmos a nós mesmos, observar nossos pensamentos mais usuais enquanto as situações se desenrolam. Ouvir com atenção nossos diálogos internos, o modo como falamos com nós mesmos. Anotar estes diálogos. Perceber como - em essência - se repetem dia após dia.
Ao tomarmos consciência desta gangorra moto-quase-perpétuo produz-se um efeito natural: a própria potência desta gangorra começa a diminuir. Começamos a perceber o funcionamento desta dinâmica enquanto ela ocorre. Aos poucos, e com o tempo, começa a surgir a possibilidade de não mais sermos reféns desta dinâmica. Percebemos quando ela começa a operar, e podemos retornar para a realidade que se passa. Lembrem-se de que toda esta gangorra não passa de um conjunto de pensamentos; um pacote de tendências muito fortes, mas nada mais que um conjunto de pensamentos. Enquanto esta dinâmica opera não estamos presentes, não vivemos a realidade que se passa pois estamos mergulhados em nosso conjunto de pensamentos favoritos. A grande maioria de nós vive e morre dentro desta novela auto-elaborada, sem dar-se conta desta ilusão.
Assim, ao percebermos como somos servos deste círculo exaustivo, surge a inquietação pela busca de um estado natural de viver que não seja domesticado e aprisionado. Este é o combustível da prática da atenção - a prática de estar aqui e agora. Quando pesquisamos curiosamente os rumos e os princípios da atenção em nossas experiências de viver começamos a compreender a profundidade da ignorância em que normalmente vivemos.
Nós temos a sorte, a chance e a responsabilidade de buscar uma forma consciente de viver.
Abraços,
Marcos
Mas como conseguir a disciplina para efetivamente praticar? A maneira mais direta é perceber como estamos imersos e confusos em nossos interminável labirinto de pensamentos em nossa novela pessoal.E como escapar do redemoinho de pensamentos grudentos que nos puxa a cada instante?
Para iniciar é preciso um dar-se conta de que este mundo do redemoinho existe. É preciso dar-se conta de que você é refém deste labirinto que chega sempre ao mesmo ponto. É preciso estar exausto de percorrer sempre o mesmo caminho de pensamento-emoções disparado por qualquer gatilho da realidade, aquele caminho que traz sempre o mesmo ganho emocional para uma identidade que tem como fundamento a carência (uma vez que se acredita separada do todo, daí estar sempre em estado de carência).
Para se perceber essa dinâmica-raiz é crítico desenvolvermos a capacidade de auto-observação. Observarmos a nós mesmos, observar nossos pensamentos mais usuais enquanto as situações se desenrolam. Ouvir com atenção nossos diálogos internos, o modo como falamos com nós mesmos. Anotar estes diálogos. Perceber como - em essência - se repetem dia após dia.
Ao tomarmos consciência desta gangorra moto-quase-perpétuo produz-se um efeito natural: a própria potência desta gangorra começa a diminuir. Começamos a perceber o funcionamento desta dinâmica enquanto ela ocorre. Aos poucos, e com o tempo, começa a surgir a possibilidade de não mais sermos reféns desta dinâmica. Percebemos quando ela começa a operar, e podemos retornar para a realidade que se passa. Lembrem-se de que toda esta gangorra não passa de um conjunto de pensamentos; um pacote de tendências muito fortes, mas nada mais que um conjunto de pensamentos. Enquanto esta dinâmica opera não estamos presentes, não vivemos a realidade que se passa pois estamos mergulhados em nosso conjunto de pensamentos favoritos. A grande maioria de nós vive e morre dentro desta novela auto-elaborada, sem dar-se conta desta ilusão.
Assim, ao percebermos como somos servos deste círculo exaustivo, surge a inquietação pela busca de um estado natural de viver que não seja domesticado e aprisionado. Este é o combustível da prática da atenção - a prática de estar aqui e agora. Quando pesquisamos curiosamente os rumos e os princípios da atenção em nossas experiências de viver começamos a compreender a profundidade da ignorância em que normalmente vivemos.
Nós temos a sorte, a chance e a responsabilidade de buscar uma forma consciente de viver.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Travel lightly
Arte de continuar caminhando não requer apenas disciplina e desapego. Assim como os peregrinos levam o menor peso possível na mochila, assim também nós precisamos deixar ao longo da trilha todos os pesos mortos.
Quanto mais longo e incerto o caminho menor o peso que devemos carregar. Imagine uma trilha em que não há destino conhecido previamente, muito menos duração esperada. Eis aí a nossa trilha do auto-conhecimento, da busca pela compreensão do que É. Mais vital ainda se torna a necessidade de se “viajar leve”.
O dilema é não percebermos quais são os pesos mortos, pois os-acreditamos vivos e necessários. Temos dificuldade em limpar o armário e jogar roupas usadas fora (“não uso mas gosto tanto delas”, dirá algo dentro de você), ou doar para um sebo livros que já não nos dizem nada (“mas um dia disseram”, dirá algo dentro de você), ou sair de uma casa na qual vivemos muito tempo (“minhas memórias estão aqui”, dirá algo dentro de você).
Temos pouca habilidade em discernir o que é realmente necessário e o que são apenas hábitos de concreto pré-moldados.
Imagine agora reconhecer os reais pesos-mortos: nossas tendências personalistas mais profundamente impregnadas, nossas até então muletas de sobrevivência em um circo incompreensível de eventos cuja ordem nos escapa.
Há momentos da trilha em que estes pesos mortos tomam sopro de vida e reaparecem sorridentes e fortes, nos oferecendo a mão amiga de um velho e confortável conhecido. A tentação de segurar esta mão e reencontrar um espaço de acolhimento é fortíssima. O problema é que este apoio é totalmente ilusório. Caindo novamente nas armadilhas de trocas emocionais infindáveis - combustível e comburente dos hábitos da personalidade - estamos de mãos dadas com o sofrimento de uma mudança sem fim, pois são apenas construções imensas e encadeadas de pensamentos habituais sobre o que somos, o que merecemos, o que deveríamos ser, o que deveríamos merecer, e assim por diante.
Quando a trilha fica difícil, quando percebemos que mais uma vez agarramos a mão “amiga” de nossos hábitos, é este o momento de escolher continuar a viajar leve: de nada adiantará se culpar ou justificar ou fingir ... o caminho para a leveza é simplesmente continuar a caminhar. Seguir, agir conforme a vida requer, não estacionar novamente em um palco de críticas ou expectativas. Seguir porque não há nada mais que se requeira de nós senão aceitar o passo de cada dia de modo pleno. Conforme seguimos, e insistimos em seguir, mais leve se tornará nossa caminhada.
Quanto mais longo e incerto o caminho menor o peso que devemos carregar. Imagine uma trilha em que não há destino conhecido previamente, muito menos duração esperada. Eis aí a nossa trilha do auto-conhecimento, da busca pela compreensão do que É. Mais vital ainda se torna a necessidade de se “viajar leve”.
O dilema é não percebermos quais são os pesos mortos, pois os-acreditamos vivos e necessários. Temos dificuldade em limpar o armário e jogar roupas usadas fora (“não uso mas gosto tanto delas”, dirá algo dentro de você), ou doar para um sebo livros que já não nos dizem nada (“mas um dia disseram”, dirá algo dentro de você), ou sair de uma casa na qual vivemos muito tempo (“minhas memórias estão aqui”, dirá algo dentro de você).
Temos pouca habilidade em discernir o que é realmente necessário e o que são apenas hábitos de concreto pré-moldados.
Imagine agora reconhecer os reais pesos-mortos: nossas tendências personalistas mais profundamente impregnadas, nossas até então muletas de sobrevivência em um circo incompreensível de eventos cuja ordem nos escapa.
Há momentos da trilha em que estes pesos mortos tomam sopro de vida e reaparecem sorridentes e fortes, nos oferecendo a mão amiga de um velho e confortável conhecido. A tentação de segurar esta mão e reencontrar um espaço de acolhimento é fortíssima. O problema é que este apoio é totalmente ilusório. Caindo novamente nas armadilhas de trocas emocionais infindáveis - combustível e comburente dos hábitos da personalidade - estamos de mãos dadas com o sofrimento de uma mudança sem fim, pois são apenas construções imensas e encadeadas de pensamentos habituais sobre o que somos, o que merecemos, o que deveríamos ser, o que deveríamos merecer, e assim por diante.
Quando a trilha fica difícil, quando percebemos que mais uma vez agarramos a mão “amiga” de nossos hábitos, é este o momento de escolher continuar a viajar leve: de nada adiantará se culpar ou justificar ou fingir ... o caminho para a leveza é simplesmente continuar a caminhar. Seguir, agir conforme a vida requer, não estacionar novamente em um palco de críticas ou expectativas. Seguir porque não há nada mais que se requeira de nós senão aceitar o passo de cada dia de modo pleno. Conforme seguimos, e insistimos em seguir, mais leve se tornará nossa caminhada.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Senna, alpinismo e presença
Então onde está este bendito estado de presença de que tanto falamos? Parece uma criação mental, uma construção teórica para explicar algo que jamais conheceremos. Entretanto basta um pouco de atenção para percebermos que está logo aqui, logo agora.
Em muitos dos grupos de meditação aparece a dúvida sobre a presença. E em todos eles cada indivíduo consegue localizar experiências de presença mais profunda. Em nosso dia a dia é muito comum encontrarmos exemplos de pessoas que buscam situações extremas pela sensação que delas advêm. Vejamos dois exemplos.
Segue um trecho de uma entrevista de Ayrton Senna:
“...Mas passei por uma situação de risco muito maior na tomada de tempo para a corrida de de Mônaco em 1988. Eu já tinha a pole, mas continuava na pista. A cada volta aumentava a diferença para os outros pilotos. Eu estava me superando a cada volta e entrei em outra dimensão. Não via a pista, ela tinha virado um túnel. A distinção ente o homem e a máquina deixou de existir, me fundi com o carro, viramos a mesma coisa. Depois de cinco voltas, acordei para a situação de extremo perigo em que estava e fui para os boxes.”
E aqui um trecho de uma outra declaração de um alpinista, na Revista Brasileira de Psicologia do Esporte e do Exercício: “ É uma coisa só... quando você chega a este nível é o êxtase. É quando você consegue se dissolver. Quando você esquece totalmente do seu ego. Então você entra neste turbilhão... até chegar naquele pico... que é o de se entregar totalmente... porque não adianta, chega num ponto tal que você dilui.”
O risco de situações extremas faz com que todo a nossa atenção, todo o nosso sistema esteja atento e pronto para responder ao que se passa. Com a continuidade deste estado (como nos casos acima) a atenção se coloca mais intensamente no presente que se sucede, e cada vez menos no “eu”, no sujeito. Até um ponto em que a própria realidade é consciente do que se passa, sem a necessidade de um sujeito que se aproprie da idéia de consciência. Assim um estado de consciência denominado observação, ou, mais profundamente, concentração, emerge. Nestes estados não há um “eu” personalístico que viva a situação, no entanto a ação que se produz é mais eficiente e mais inteligente, e a sensação é mais plena e mais viva. Quem produz a ação, quem vive a sensação? A própria realidade.
O que ocorre é que no instante seguinte reaparace a agitação mental, reaparece um “eu” que pensa e se percebe de novo diferenciado da realidade mesma (como Senna retornando aos boxes), um “eu” que guarda na memória estas experiências e tentará de tudo para vivê-las novamente... embora este “eu nunca as tenha vivido de fato.
Todos temos dons, ou vocações, que são tendências e qualidade naturais que trazemos em nosso sistema de corpo(s) + mente, como era por exemplo o automobilismo para Senna. Se compreendemos isto e buscamos atuar em nossas vidas de modo a utilizar e viver estas tendências de maneira intensa, nos será mais fácil aprender a reagir sem dúvidas ante à realidade nestes campos específicos. Isto porém é só o princípio. Depois poderemos experimentar como transbordar estas experiências do viver sem dúvida para os outros campos de nossas vidas, para o nosso dia a dia.
Abraços,
Marcos
Em muitos dos grupos de meditação aparece a dúvida sobre a presença. E em todos eles cada indivíduo consegue localizar experiências de presença mais profunda. Em nosso dia a dia é muito comum encontrarmos exemplos de pessoas que buscam situações extremas pela sensação que delas advêm. Vejamos dois exemplos.
Segue um trecho de uma entrevista de Ayrton Senna:
“...Mas passei por uma situação de risco muito maior na tomada de tempo para a corrida de de Mônaco em 1988. Eu já tinha a pole, mas continuava na pista. A cada volta aumentava a diferença para os outros pilotos. Eu estava me superando a cada volta e entrei em outra dimensão. Não via a pista, ela tinha virado um túnel. A distinção ente o homem e a máquina deixou de existir, me fundi com o carro, viramos a mesma coisa. Depois de cinco voltas, acordei para a situação de extremo perigo em que estava e fui para os boxes.”
E aqui um trecho de uma outra declaração de um alpinista, na Revista Brasileira de Psicologia do Esporte e do Exercício: “ É uma coisa só... quando você chega a este nível é o êxtase. É quando você consegue se dissolver. Quando você esquece totalmente do seu ego. Então você entra neste turbilhão... até chegar naquele pico... que é o de se entregar totalmente... porque não adianta, chega num ponto tal que você dilui.”
O risco de situações extremas faz com que todo a nossa atenção, todo o nosso sistema esteja atento e pronto para responder ao que se passa. Com a continuidade deste estado (como nos casos acima) a atenção se coloca mais intensamente no presente que se sucede, e cada vez menos no “eu”, no sujeito. Até um ponto em que a própria realidade é consciente do que se passa, sem a necessidade de um sujeito que se aproprie da idéia de consciência. Assim um estado de consciência denominado observação, ou, mais profundamente, concentração, emerge. Nestes estados não há um “eu” personalístico que viva a situação, no entanto a ação que se produz é mais eficiente e mais inteligente, e a sensação é mais plena e mais viva. Quem produz a ação, quem vive a sensação? A própria realidade.
O que ocorre é que no instante seguinte reaparace a agitação mental, reaparece um “eu” que pensa e se percebe de novo diferenciado da realidade mesma (como Senna retornando aos boxes), um “eu” que guarda na memória estas experiências e tentará de tudo para vivê-las novamente... embora este “eu nunca as tenha vivido de fato.
Todos temos dons, ou vocações, que são tendências e qualidade naturais que trazemos em nosso sistema de corpo(s) + mente, como era por exemplo o automobilismo para Senna. Se compreendemos isto e buscamos atuar em nossas vidas de modo a utilizar e viver estas tendências de maneira intensa, nos será mais fácil aprender a reagir sem dúvidas ante à realidade nestes campos específicos. Isto porém é só o princípio. Depois poderemos experimentar como transbordar estas experiências do viver sem dúvida para os outros campos de nossas vidas, para o nosso dia a dia.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Morrer e viver
Ainda sob o impacto de ter perdido dois tios nos últimos três dias não me aparece outro assunto senão o morrer e viver.
Dizia Nisargadatta “the unreal never lived; the real never dies”, ou seja, “o que é irreal jamais viveu, o que é real nunca morre”.
Por que então sofremos tanto? Porque não conhecemos o que é o Real, porque vivemos imersos na ilusão daquilo que tem suas bases na ignorância. E o que é aquilo que nasce da ignorânica? O nosso universo auto-criado, nossa novela histórico-personalística que para tudo cria justificativas, que para tudo tem razões. O nosso permanente pensar sobre nós mesmos cria um mundo ilusório com o qual nos relacionamos a maior parte do tempo. São tendências que criamos e repisamos, vida após vida. Neste mundo ilusório habitamos, por vezes, em paraísos fugazes, por vezes em infernos repetidos. São habitações que nós mesmos contruímos, nossas próprias celas dentro das quais depois não encontramos a chave de saída. Esta cela é que, de certo modo, morre, e tem medo de morrer. Para o sujeito que vive nesta cela esta é a realidade; para aquilo que conhece a Realidade a cela é absoluta ilusão.
Nossa prática, nossa busca última nesta jornada, é discernir entre a ilusão e a realidade, descobrir o que é afinal Real.
Para o Vedanta o Real é aquilo que não sofre mudanças, aquilo que é permanente, que existe sem ter tido início e que não tem fim. Sem dúvida muito longe do nosso mundo no dia a dia não? Na verdade não, não está longe, está bem aqui.
O Real não existe em nenhum outro lugar senão exatamente aqui, em cada segundo do dia a dia, o Real tem seu portal de entrada no aqui e agora, na presença intensa no que se passa, na entrega à certeza de que nada se controla, na absoluta convicção de que não existe sentido em buscar fruto pessoal em qualquer ação que se faça, na alegria de agir simplesmente porque é o que a realidade trouxe.
Vejam só: quando se está presente não aparece a dúvida! A dúvida é um sinal de que a cela de pensamentos personalísticos está ativa.
A realidade pode trazer o momento de se estar alegre, ou de sofrer. Presença é não ter dúvida sobre a dor ou sobre a alegria, é vivê-las de modo coerente e digno. Presença não é deixar de viver, ao contrário, é viver de modo absoluto, reagindo sem dúvida àquilo que se nos apresenta.
A cada instante em que recriamos nossa cela personalística e nos metemos de volta dentro dela morremos para a Realidade. Por outro lado quando vivemos um momento de entrega e presença intensas morre a cela, morre o eu que depois terá medo de morrer, sem saber que nunca foi real.
Nestes momentos de presença nos resvalamos com o brilho do que sempre existe, com a leveza de não carregar justificativas, medos e angústias, com a alegria de uma compreensão sem palavras, com a eternidade de ser consciente. E é isto o princípio do Real.
Abraços,
Marcos
Dizia Nisargadatta “the unreal never lived; the real never dies”, ou seja, “o que é irreal jamais viveu, o que é real nunca morre”.
Por que então sofremos tanto? Porque não conhecemos o que é o Real, porque vivemos imersos na ilusão daquilo que tem suas bases na ignorância. E o que é aquilo que nasce da ignorânica? O nosso universo auto-criado, nossa novela histórico-personalística que para tudo cria justificativas, que para tudo tem razões. O nosso permanente pensar sobre nós mesmos cria um mundo ilusório com o qual nos relacionamos a maior parte do tempo. São tendências que criamos e repisamos, vida após vida. Neste mundo ilusório habitamos, por vezes, em paraísos fugazes, por vezes em infernos repetidos. São habitações que nós mesmos contruímos, nossas próprias celas dentro das quais depois não encontramos a chave de saída. Esta cela é que, de certo modo, morre, e tem medo de morrer. Para o sujeito que vive nesta cela esta é a realidade; para aquilo que conhece a Realidade a cela é absoluta ilusão.
Nossa prática, nossa busca última nesta jornada, é discernir entre a ilusão e a realidade, descobrir o que é afinal Real.
Para o Vedanta o Real é aquilo que não sofre mudanças, aquilo que é permanente, que existe sem ter tido início e que não tem fim. Sem dúvida muito longe do nosso mundo no dia a dia não? Na verdade não, não está longe, está bem aqui.
O Real não existe em nenhum outro lugar senão exatamente aqui, em cada segundo do dia a dia, o Real tem seu portal de entrada no aqui e agora, na presença intensa no que se passa, na entrega à certeza de que nada se controla, na absoluta convicção de que não existe sentido em buscar fruto pessoal em qualquer ação que se faça, na alegria de agir simplesmente porque é o que a realidade trouxe.
Vejam só: quando se está presente não aparece a dúvida! A dúvida é um sinal de que a cela de pensamentos personalísticos está ativa.
A realidade pode trazer o momento de se estar alegre, ou de sofrer. Presença é não ter dúvida sobre a dor ou sobre a alegria, é vivê-las de modo coerente e digno. Presença não é deixar de viver, ao contrário, é viver de modo absoluto, reagindo sem dúvida àquilo que se nos apresenta.
A cada instante em que recriamos nossa cela personalística e nos metemos de volta dentro dela morremos para a Realidade. Por outro lado quando vivemos um momento de entrega e presença intensas morre a cela, morre o eu que depois terá medo de morrer, sem saber que nunca foi real.
Nestes momentos de presença nos resvalamos com o brilho do que sempre existe, com a leveza de não carregar justificativas, medos e angústias, com a alegria de uma compreensão sem palavras, com a eternidade de ser consciente. E é isto o princípio do Real.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 2 de maio de 2011
a não-dualidade ocidental (parte 1)
Trago hoje dois extratos de diferentes autores para dar uma mostra de como a não-dualidade e a presença são algo natural em nossa existência, sendo apenas veladas pela ignorância da separatividade do “eu”.
Primeiro vejamos este parágrafo atribuído a Plotino, conhecido filósofo neo-platônico, um dos ocidentais mais próximos da filosofia oriental não-dual.
“...de onde estamos, é possível ver o uno e a nós mesmos, resplandecidos, pela luz da percepção, mais ainda, tornamo-nos a própria luz, pura, sem peso, leve, nos tornando luz divina, ou sendo uma divindade, inflamados. Mas, ao voltar a cair o peso sobre nós, o fogo se extingue... Será possível permanecer lá? Nem ao menos saímos inteiramente daqui. Mas haverá um momento em que a contemplação será contínua, para alguém que não for estorvado por nenhum obstáculo corporal. Além do mais, não é a parte com a qual se vê que está estorvada, mas a outra, aquela que, quando a parte com a qual se vê deixa de contemplar, permanece ativa na ciência que se exerce nas demonstrações, nas provas e nos raciocínios da alma. Mas o ato de ver e a parte com a qual se vê não são mais a razão, são superiores à razão, anteriores à razão e acima da razão, como o é aquilo que é visto. No momento que realmente enxergar, é a si mesmo o que verá...Talvez não seja necessário dizer “verá”, mas “foi visto”, nem seja preciso falar de duas coisas, o que vê e o que é visto, pois essas duas coisas são apenas uma, uma proposta audaciosa. Pois, no momento que vê, aquele que vê deixa de ver, não distingue, nem imagina duas coisas, como se houvera tornado um outro e não estivesse mais encerrado em si mesmo.”
Esta é uma narrativa clara de uma experiência de estado de concentração externa na linguagem Vedanta (dharana em sânscrito). A concentração é o primeiro estado não-dual que experimentamos. A concentração externa ocorre quando estamos com a atenção continuamente pousada sobre a realidade (objetos) que nos cerca, e não imersos em pensamentos e memórias acerca da realidade mesma. A ausência de interpretação aos poucos desfaz o véu de separatividade.
Quando Plotino explica “ao voltar a cair o peso sobre nós...”, isto se refere claramente ao fluxo de atenção que sai do objeto observado e se volta novamente para o “eu” à distância. Neste instante voltamos a nos diferenciar da realidade (voltamos a pensar, julgar e interpretar).
Quando diz “o ato de ver e a parte... são superiores à razão...” mostra que a presença em si mesma, a ação espontânea perante à realidade são superiores ao pensar sobre o mundo. Em concentração prevalece budhi (inteligência intuitiva, assento da consciência individual) e não manas (agitação mental).
E quando pondera que “Talvez não seja necessário dizer “verá”, mas “foi visto”, nem seja preciso falar de duas coisas, o que vê e o que é visto...” está claramente traduzindo a sensação de não-dualidade, de simultaneidade e ubiquidade que existe neste estado. Quando se está presente profundamente não há um observador diferente do objeto, não há um ator diferente da realidade, o próprio sistema se oberva a si mesmo e é auto-consciente do que se passa.
Em segundo este parágrafo oriundo de um pequeno conto de David Brooks que saiu na New Yorker (valeu Daniel pela indicação!) em que se conta de modo natural a sensação de um estado de observação no vocabulário Vedanta (pratyahara em sânscrito).
“...I believe we inherit a great river of knowledge, a flow of patterns coming from many sources. ..The brain is adapted to the river of knowledge and exists only as a creature in that river. Our thoughts are profoundly molded by this long historic flow, and none of us exists, self-made, in isolation from it... we still have deep impulses to erase the skull lines in our head and become immersed directly in the river. ..I’ve come to think that flourishing consists of putting yourself in situations in which you lose self-consciousness and become fused with other people, experiences, or tasks. It happens sometimes when you are lost in a hard challenge, or when an artist or a craftsman becomes one with the brush or the tool. It happens sometimes while you’re playing sports, or listening to music or lost in a story, or to some people when they feel enveloped by God’s love... Happiness is a measure of how thickly the unconscious parts of our minds are intertwined with other people and with activities.”
Interessante a nomenclatura: “when you lose self-consciousness” representa exatamente o aquietamento da agitação mental que dá raiz para o “eu”, e de fato se perde a referência de um “eu” que age, entretanto a ação é mais plena e profunda. E as “unconscious parts of our minds” são de fato o componente mental sutil que aflora quando a atenção está pousada na realidade, e que não está vinculado à ideia egóica (ahamkara). Todos nós já vivemos instantes destas situações que traduzimos como plenitude, paz, amor, etc. Este é o vislumbre da não-dualidade, única realidade Real, aquela que o “eu” jamais poderá viver.
Abraços,
Marcos
Primeiro vejamos este parágrafo atribuído a Plotino, conhecido filósofo neo-platônico, um dos ocidentais mais próximos da filosofia oriental não-dual.
“...de onde estamos, é possível ver o uno e a nós mesmos, resplandecidos, pela luz da percepção, mais ainda, tornamo-nos a própria luz, pura, sem peso, leve, nos tornando luz divina, ou sendo uma divindade, inflamados. Mas, ao voltar a cair o peso sobre nós, o fogo se extingue... Será possível permanecer lá? Nem ao menos saímos inteiramente daqui. Mas haverá um momento em que a contemplação será contínua, para alguém que não for estorvado por nenhum obstáculo corporal. Além do mais, não é a parte com a qual se vê que está estorvada, mas a outra, aquela que, quando a parte com a qual se vê deixa de contemplar, permanece ativa na ciência que se exerce nas demonstrações, nas provas e nos raciocínios da alma. Mas o ato de ver e a parte com a qual se vê não são mais a razão, são superiores à razão, anteriores à razão e acima da razão, como o é aquilo que é visto. No momento que realmente enxergar, é a si mesmo o que verá...Talvez não seja necessário dizer “verá”, mas “foi visto”, nem seja preciso falar de duas coisas, o que vê e o que é visto, pois essas duas coisas são apenas uma, uma proposta audaciosa. Pois, no momento que vê, aquele que vê deixa de ver, não distingue, nem imagina duas coisas, como se houvera tornado um outro e não estivesse mais encerrado em si mesmo.”
Esta é uma narrativa clara de uma experiência de estado de concentração externa na linguagem Vedanta (dharana em sânscrito). A concentração é o primeiro estado não-dual que experimentamos. A concentração externa ocorre quando estamos com a atenção continuamente pousada sobre a realidade (objetos) que nos cerca, e não imersos em pensamentos e memórias acerca da realidade mesma. A ausência de interpretação aos poucos desfaz o véu de separatividade.
Quando Plotino explica “ao voltar a cair o peso sobre nós...”, isto se refere claramente ao fluxo de atenção que sai do objeto observado e se volta novamente para o “eu” à distância. Neste instante voltamos a nos diferenciar da realidade (voltamos a pensar, julgar e interpretar).
Quando diz “o ato de ver e a parte... são superiores à razão...” mostra que a presença em si mesma, a ação espontânea perante à realidade são superiores ao pensar sobre o mundo. Em concentração prevalece budhi (inteligência intuitiva, assento da consciência individual) e não manas (agitação mental).
E quando pondera que “Talvez não seja necessário dizer “verá”, mas “foi visto”, nem seja preciso falar de duas coisas, o que vê e o que é visto...” está claramente traduzindo a sensação de não-dualidade, de simultaneidade e ubiquidade que existe neste estado. Quando se está presente profundamente não há um observador diferente do objeto, não há um ator diferente da realidade, o próprio sistema se oberva a si mesmo e é auto-consciente do que se passa.
Em segundo este parágrafo oriundo de um pequeno conto de David Brooks que saiu na New Yorker (valeu Daniel pela indicação!) em que se conta de modo natural a sensação de um estado de observação no vocabulário Vedanta (pratyahara em sânscrito).
“...I believe we inherit a great river of knowledge, a flow of patterns coming from many sources. ..The brain is adapted to the river of knowledge and exists only as a creature in that river. Our thoughts are profoundly molded by this long historic flow, and none of us exists, self-made, in isolation from it... we still have deep impulses to erase the skull lines in our head and become immersed directly in the river. ..I’ve come to think that flourishing consists of putting yourself in situations in which you lose self-consciousness and become fused with other people, experiences, or tasks. It happens sometimes when you are lost in a hard challenge, or when an artist or a craftsman becomes one with the brush or the tool. It happens sometimes while you’re playing sports, or listening to music or lost in a story, or to some people when they feel enveloped by God’s love... Happiness is a measure of how thickly the unconscious parts of our minds are intertwined with other people and with activities.”
Interessante a nomenclatura: “when you lose self-consciousness” representa exatamente o aquietamento da agitação mental que dá raiz para o “eu”, e de fato se perde a referência de um “eu” que age, entretanto a ação é mais plena e profunda. E as “unconscious parts of our minds” são de fato o componente mental sutil que aflora quando a atenção está pousada na realidade, e que não está vinculado à ideia egóica (ahamkara). Todos nós já vivemos instantes destas situações que traduzimos como plenitude, paz, amor, etc. Este é o vislumbre da não-dualidade, única realidade Real, aquela que o “eu” jamais poderá viver.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Auto-observação
Existem muitos mitos e lendas sobre os caminhos de auto-conhecimento, a maioria recehados de saltos imensos de compreensão súbita, portais que se abrem, universos que se desvelam.
Tudo certo, e provavelmente possível, mas possivelmente pouco provável para nós.
Dentro de nossos rumos de vida, nós - que permanecemos imersos sob camadas e mais camadas de pensamentos e teias de desejos segundo após segundo - temos muito provavelmente questões mais singelas a tratar antes de termos nossos sistemas mais amadurecidos a ponto de compreender algo maior.
Temos que ser humildes e fazer a lição de casa.
Esta lição de casa, invariavelmente, se chama auto-observação.
O velho ditado cristão - orai e vigiai - propõe o mesmo; este vigiar não é outra coisa que a observação de si mesmo.
Entretanto é necessário que se tenha uma dose não trivial de disciplina para que esta observação se dê, e que produza os efeitos ao longo do tempo. É preciso ter coragem de tomar nota de nossos mais íntimos passos. Nós somos tomados por uma idéia de personalidade que é constituída por uma miríade de pensamentos e desejos que se entremesclam ao longo de nossos dias; porém há apenas um par ou dois de pensamentos que são a raiz de toda esta selva. A auto-observação é o meio pelo qual se consegue reconhecer estes pensamentos-raiz. Aquilo que mais comumente pensamos sobre nós mesmos é aquilo que (aparentemente) somos e acreditamos ser.
Como todas as formas pensamento (pensamentos insuflados pelo desejo, pisados e repisados constantemente até que se tornem tendências) estes pensamentos raiz são criações ilusórias que se mostram realíssimas enquanto são insuflados; porém, como tigres de papel, perdem gradualmente o poder ilusório conforme tomamos consciência de sua existência.
O modo mais frutífero de se trabalhar com a auto-observação e tomar consciência destes pensamentos-razi é através dos diálogos internos. Observe atentamente, em situações intensas, quais são os diálogos internos que passam pela sua mente. Perceba qual o rádio que transmite incessantemente sua própria narrativa; anote com detalhes e honestamente as frases que você fala para você mesmo, inclusive as mais violentas e duras. Depois procure organizar estes diálogos em conjunto com o modo como você se sente, age e fala. Procure perceber os polos nos quais você orbita - geralmente um polo mais “positivo”, e outro mais “negativo”. Perceba como, através dos diálogos, você transita de um para o outro.
Finalmente, dê-se conta de que esta é sua novela sem fim, a matéria prima para uma gangorra incessante que faz de você um servo dia após dia. O simples fato de você conseguir tomar consciência desta dinâmica fará com que esta gangorra perca gradualmente o poder ilusório de realidade. Se é possível para você perceber sues próprios pensamentos então você não é os pensamentos! Você é aquilo que está por trás, que observa. Aos poucos a opção por não se deixar levar pela confortável e conhecida corrente de diálogos internos ficará mais palpável, e permanecer presente ficará mais provável.
Ao deixarmos de ser servos de nossas próprias construções personalísticas começamos a criar uma chance maior de encontrar momentos de compreensão real do que somos.
Abraços,
Marcos
Tudo certo, e provavelmente possível, mas possivelmente pouco provável para nós.
Dentro de nossos rumos de vida, nós - que permanecemos imersos sob camadas e mais camadas de pensamentos e teias de desejos segundo após segundo - temos muito provavelmente questões mais singelas a tratar antes de termos nossos sistemas mais amadurecidos a ponto de compreender algo maior.
Temos que ser humildes e fazer a lição de casa.
Esta lição de casa, invariavelmente, se chama auto-observação.
O velho ditado cristão - orai e vigiai - propõe o mesmo; este vigiar não é outra coisa que a observação de si mesmo.
Entretanto é necessário que se tenha uma dose não trivial de disciplina para que esta observação se dê, e que produza os efeitos ao longo do tempo. É preciso ter coragem de tomar nota de nossos mais íntimos passos. Nós somos tomados por uma idéia de personalidade que é constituída por uma miríade de pensamentos e desejos que se entremesclam ao longo de nossos dias; porém há apenas um par ou dois de pensamentos que são a raiz de toda esta selva. A auto-observação é o meio pelo qual se consegue reconhecer estes pensamentos-raiz. Aquilo que mais comumente pensamos sobre nós mesmos é aquilo que (aparentemente) somos e acreditamos ser.
Como todas as formas pensamento (pensamentos insuflados pelo desejo, pisados e repisados constantemente até que se tornem tendências) estes pensamentos raiz são criações ilusórias que se mostram realíssimas enquanto são insuflados; porém, como tigres de papel, perdem gradualmente o poder ilusório conforme tomamos consciência de sua existência.
O modo mais frutífero de se trabalhar com a auto-observação e tomar consciência destes pensamentos-razi é através dos diálogos internos. Observe atentamente, em situações intensas, quais são os diálogos internos que passam pela sua mente. Perceba qual o rádio que transmite incessantemente sua própria narrativa; anote com detalhes e honestamente as frases que você fala para você mesmo, inclusive as mais violentas e duras. Depois procure organizar estes diálogos em conjunto com o modo como você se sente, age e fala. Procure perceber os polos nos quais você orbita - geralmente um polo mais “positivo”, e outro mais “negativo”. Perceba como, através dos diálogos, você transita de um para o outro.
Finalmente, dê-se conta de que esta é sua novela sem fim, a matéria prima para uma gangorra incessante que faz de você um servo dia após dia. O simples fato de você conseguir tomar consciência desta dinâmica fará com que esta gangorra perca gradualmente o poder ilusório de realidade. Se é possível para você perceber sues próprios pensamentos então você não é os pensamentos! Você é aquilo que está por trás, que observa. Aos poucos a opção por não se deixar levar pela confortável e conhecida corrente de diálogos internos ficará mais palpável, e permanecer presente ficará mais provável.
Ao deixarmos de ser servos de nossas próprias construções personalísticas começamos a criar uma chance maior de encontrar momentos de compreensão real do que somos.
Abraços,
Marcos
segunda-feira, 28 de março de 2011
Tudo bem
Todos nós reclamamos por paz, por sossego. Todos pedimos um momento de tranquilidade, em que tudo esteja bem. E o mais divertido é que todos nós já vivemos momentos assim. E o que fazemos quando este momento chega? Em vez de vivê-lo plenamente começamos a construir o que virá depois, começamos a inventar e criar o futuro, os próximos dias, horas, o que acontecerá para... para que? Para alcançar o próximo momento de paz e sossego que não aproveitaremos, como este?
Não é incrível? E esta não é uma disposição teórica, é a experiência pura disponível para cada um de nós. Experimente perceber o que se passa em sua mente quando tudo está “bem”. Imediatamente, como uma coceira, há um princípio de atividade mental que busca algo mais, algo no futuro. E como uma coceira, quanto mais se coça, mais coça,
Experimente notar que neste momento há a semente de um pensamento longo e muito conhecido seu, um pensamento que iniciará uma cadeia de pensamentos, que resultará, finalmente, em uma situação futura imaginária que traz como fruto algum tipo de emoção específica que sua personalidade desesperadamente necessita. Pode ser, carinho, reconhecimento, vitimização, poder, etc., cada um tem a sua raiz específica e especial. Se você percebe a semente desta cadeia, compreenderá imediatamente o resultado final, e verá quão sem graça, quão repetitivo este hábito de pensar-se realmente é. Pois, ao final, a estrutura da identidade egóica é apenas aquilo que mais pensamos sobre nós mesmos, nossas tendências tornadas concretas por fantasias sem fim.
O dar-se conta da moeda de troca emocional que jaz por trás de cada cadeia de pensamentos faz com que esta fique em suspensão, como que aguardando sua própria decisão consciente de seguir em frente - escorregando no toboágua dos devaneios - ou de permanecer aqui e agora. Este momento é precioso, é de fato a opção última de ser livre ou permanecer servo, é a expressão concreta e prática do livre arbítrio verdadeiro. A liberdade está radicada em não seguir a cadeia de frutos emocionais da personalidade, mas em perseguir a plenitude do instante.
Permanecer presente priva a personalidade deste fruto emocional específico, no qual somos absolutamente viciados, e daí surge a sensação de abstinência, o que normalmente nos leva de volta ao toboágua. É preciso vencer esta crise de abstinência para continuar presente.
Assim segue nossa comédia privada, tanto trágica quanto cômica. Talvez mais cômica enquanto não nos conscientizamos do tamanho do buraco que cavamos, talvez mais trágica quando nos encontramos lá no fundo, sem suspeitar que existe uma saída.
A saída? O precioso momento do livre arbítrio.
Abraços,
Marcos
Não é incrível? E esta não é uma disposição teórica, é a experiência pura disponível para cada um de nós. Experimente perceber o que se passa em sua mente quando tudo está “bem”. Imediatamente, como uma coceira, há um princípio de atividade mental que busca algo mais, algo no futuro. E como uma coceira, quanto mais se coça, mais coça,
Experimente notar que neste momento há a semente de um pensamento longo e muito conhecido seu, um pensamento que iniciará uma cadeia de pensamentos, que resultará, finalmente, em uma situação futura imaginária que traz como fruto algum tipo de emoção específica que sua personalidade desesperadamente necessita. Pode ser, carinho, reconhecimento, vitimização, poder, etc., cada um tem a sua raiz específica e especial. Se você percebe a semente desta cadeia, compreenderá imediatamente o resultado final, e verá quão sem graça, quão repetitivo este hábito de pensar-se realmente é. Pois, ao final, a estrutura da identidade egóica é apenas aquilo que mais pensamos sobre nós mesmos, nossas tendências tornadas concretas por fantasias sem fim.
O dar-se conta da moeda de troca emocional que jaz por trás de cada cadeia de pensamentos faz com que esta fique em suspensão, como que aguardando sua própria decisão consciente de seguir em frente - escorregando no toboágua dos devaneios - ou de permanecer aqui e agora. Este momento é precioso, é de fato a opção última de ser livre ou permanecer servo, é a expressão concreta e prática do livre arbítrio verdadeiro. A liberdade está radicada em não seguir a cadeia de frutos emocionais da personalidade, mas em perseguir a plenitude do instante.
Permanecer presente priva a personalidade deste fruto emocional específico, no qual somos absolutamente viciados, e daí surge a sensação de abstinência, o que normalmente nos leva de volta ao toboágua. É preciso vencer esta crise de abstinência para continuar presente.
Assim segue nossa comédia privada, tanto trágica quanto cômica. Talvez mais cômica enquanto não nos conscientizamos do tamanho do buraco que cavamos, talvez mais trágica quando nos encontramos lá no fundo, sem suspeitar que existe uma saída.
A saída? O precioso momento do livre arbítrio.
Abraços,
Marcos
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Trabalho e Espiritualidade
Ontem em alguma das redes sociais passei por uma discussão mais ou menos assim: “não seria ótimo se as empresas tivessem salas especiais de meditação onde as pessoas pudessem entrar em contato com sua espiritualidade durante o dia...”, e todos concordando que sim.
Muito simpático, mas errado.
O raciocínio parte de uma premissa fundamentalmente falsa: a espiritualidade como um campo diferente do restante da realidade diária. Se existe algo que podemos chamar de espiritualidade este algo “é” - simplesmente - antes de qualquer construção mental acerca de seu ilusório desenvolvimento ou evolução.
Não devemos perseguir, no meio de um dia intenso, alguns momentos de tranquilidade em um silencioso quarto com incenso e almofadas. Isto nos levará à criação de um hábito de separação: a “espiritualidade” só pode acontecer em alguns momentos do dia, sob condições especiais, e no restante do dia a dia voltamos para a “selva” personalística.
É um hábito perverso, pois guarda uma armadilha um pouco mais sutil: se durante 99% do seu dia você está submerso em pensamentos labirínticos da identidade egóica, a inércia certamente fará com que naqueles 15 minutos de espiitualidade silenciosa em um quarto especial simplesmente continue jorrando todo o mar de devaneios do “eu”. Silêncio real não haverá.
De fato, não seria ótimo se as pessoas pudessem estar presentes e ativas, em ação no mundo integralmente, naturalmente imersas no silêncio da presença em todos os momentos de seu dia a dia? Quem precisa de um quartinho especial de 20 metros quadrados quando toda a extensão da realidade está à nossa disposição para experimentar e viver cada instante?
Este é o modo de trabalho pleno, a vida em tempo zero, um contínuo insight sobre as ações e decisões que devemos tomar. Não há peso ou importância, pois quando se está imerso no aqui e agora não se busca um benefício pela decisão tomada ou um fruto decorrente da ação executada. Esta leveza é o respirar da liberdade. Isto não deve ser buscado em ‘outro lugar’, naquele emprego ideal, na pousada na praia... Isto está disponível agora, neste emprego exato, nesta circunstância atual. A presença não é condicionada a um “eu” que gosta (ou não) de uma situação. Não existe uma realidade “melhor” que outra para se estar atento e presente. E não existe outra realidade senão aquela que você está vivendo exatamente agora.
Devemos perseguir a atencão integral - constante em intensidade e contínua no tempo - ao que acontece a cada momento, àquilo que nos é demandado pela nossa trilha de caminho na vida, nossa realidade, isto é o Dharma. Discernir o que o momento presente demanda de cada um de nós é um grande tesouro da prática meditativa, o graal do auto-conhecimento.
Abraços,
Marcos
Muito simpático, mas errado.
O raciocínio parte de uma premissa fundamentalmente falsa: a espiritualidade como um campo diferente do restante da realidade diária. Se existe algo que podemos chamar de espiritualidade este algo “é” - simplesmente - antes de qualquer construção mental acerca de seu ilusório desenvolvimento ou evolução.
Não devemos perseguir, no meio de um dia intenso, alguns momentos de tranquilidade em um silencioso quarto com incenso e almofadas. Isto nos levará à criação de um hábito de separação: a “espiritualidade” só pode acontecer em alguns momentos do dia, sob condições especiais, e no restante do dia a dia voltamos para a “selva” personalística.
É um hábito perverso, pois guarda uma armadilha um pouco mais sutil: se durante 99% do seu dia você está submerso em pensamentos labirínticos da identidade egóica, a inércia certamente fará com que naqueles 15 minutos de espiitualidade silenciosa em um quarto especial simplesmente continue jorrando todo o mar de devaneios do “eu”. Silêncio real não haverá.
De fato, não seria ótimo se as pessoas pudessem estar presentes e ativas, em ação no mundo integralmente, naturalmente imersas no silêncio da presença em todos os momentos de seu dia a dia? Quem precisa de um quartinho especial de 20 metros quadrados quando toda a extensão da realidade está à nossa disposição para experimentar e viver cada instante?
Este é o modo de trabalho pleno, a vida em tempo zero, um contínuo insight sobre as ações e decisões que devemos tomar. Não há peso ou importância, pois quando se está imerso no aqui e agora não se busca um benefício pela decisão tomada ou um fruto decorrente da ação executada. Esta leveza é o respirar da liberdade. Isto não deve ser buscado em ‘outro lugar’, naquele emprego ideal, na pousada na praia... Isto está disponível agora, neste emprego exato, nesta circunstância atual. A presença não é condicionada a um “eu” que gosta (ou não) de uma situação. Não existe uma realidade “melhor” que outra para se estar atento e presente. E não existe outra realidade senão aquela que você está vivendo exatamente agora.
Devemos perseguir a atencão integral - constante em intensidade e contínua no tempo - ao que acontece a cada momento, àquilo que nos é demandado pela nossa trilha de caminho na vida, nossa realidade, isto é o Dharma. Discernir o que o momento presente demanda de cada um de nós é um grande tesouro da prática meditativa, o graal do auto-conhecimento.
Abraços,
Marcos
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Tendências
A vida que vivemos é como um colar de inúmeras pérolas em que cada pérola é o instante que se apresenta como realidade. Há algo fundamental para se peceber e reconhecer: cada um dos momentos e acontecimentos é perfeito na medida em que existe justamente para que possamos vivê-lo. Eis aí uma diferença fundamental entre a percepção de realidade habitual ocidental e o Vedanta: não é o caso de estarmos imersos em uma imensa roda da história, um mundo dito real no qual somos inseridos, como se fosse possível observá-lo enquanto coisa real. É, sim, o caso de considerarmos que todas as experiências vividas por um indivíduo foram forjadas especificamente para que este as vivesse. O universo inteiro que o indivívuo percebe foi forjado de tal modo que ele pudesse viver as experiências que vive. E estas experiências, que incluem os atributos de personalidade, a família, o ambiente, o país, o contexto, são condicionadas pelas tendências (samskaras) trazidas no conjunto de seus ciclos anteriores pelo indivíduo. Ao final a personalidade não é mais que um subconjunto de todas as tendências sutis geradas anteriormente; estas tendências são corporificadas e tornadas aparentes no mundo dito real.
Como nascem estas tendências? Uma determinada forma de pensar, quando repetidamente acionada, começa a gerar reflexos em comportamentos e ações. O reforço constante desta forma de pensamento gera (ou reforça), ao longo da vida, hábitos de pensamento e reconhecimento. Nos habituamos a julgar, interpretar, interagir com o mundo segundo determinados padrões. A não-consciência destes hábitos os reforça de modo brutal - pois é através destes hábitos que nos sentimos agentes principais de nossas ações, através destes hábitos buscamos sempre o fruto das ações - gerando as tendências.
A morte leva o corpo físico e a forma pensamento chamada de personalidade, mas não as tendências geradas. Estas tendências são então reagrupadas ao conjunto total de tendências que já haviam sido geradas por esta mesma substância essencial de vida, de modo que no próximo ciclo um novo sub-conjunto de tendências será determinado para formatar o molde do novo colar de pérolas, as novas experiências que serão vividas, forjadas especificamente para aquela essência.
Há uma única forma de não se gerar novas tendências: a presença, a atenção ao que está se sucedendo, a ação natural. Esta é também a única real liberdade.
abraços
marcos
Como nascem estas tendências? Uma determinada forma de pensar, quando repetidamente acionada, começa a gerar reflexos em comportamentos e ações. O reforço constante desta forma de pensamento gera (ou reforça), ao longo da vida, hábitos de pensamento e reconhecimento. Nos habituamos a julgar, interpretar, interagir com o mundo segundo determinados padrões. A não-consciência destes hábitos os reforça de modo brutal - pois é através destes hábitos que nos sentimos agentes principais de nossas ações, através destes hábitos buscamos sempre o fruto das ações - gerando as tendências.
A morte leva o corpo físico e a forma pensamento chamada de personalidade, mas não as tendências geradas. Estas tendências são então reagrupadas ao conjunto total de tendências que já haviam sido geradas por esta mesma substância essencial de vida, de modo que no próximo ciclo um novo sub-conjunto de tendências será determinado para formatar o molde do novo colar de pérolas, as novas experiências que serão vividas, forjadas especificamente para aquela essência.
Há uma única forma de não se gerar novas tendências: a presença, a atenção ao que está se sucedendo, a ação natural. Esta é também a única real liberdade.
abraços
marcos
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Wandering minds are unhappy minds
Pessoal, duas novidades.
Coloquei um novo vídeo (aqui em cima) muito bom do Ivan sobre a falsa identificação. Sobre isso, alguns tesouros (Astavakra Samhita): “Know that which has form to be unreal and the formless to be permanent... the world appears from the ignorance of the self and disappears with the knowledge of the self”.
Hoje recebi um e-mail (obrigado Capocchi!) com o link para um artigo muito divertido e instrutivo até para o mais cabeça-dura (segue link: http://tiny.cc/f8hds ). Trata-se de artigo da Scientific American relatando experiemento recém realizado por dois psicólogos para estudar a natureza da felicidade. Criaram um aplicativo para o Iphone que tocava aleatoriamente durante o dia e perguntava se a pessoa estava feliz, e se estava concentrada no que fazia ou pensando em outra coisa. O resultado (surpresa!) é que as pessoas ficam mais felizes quando concentradas no que fazem, e não quando fazem uma coisa e pensam em outra (ainda que a outra seja um ‘pensamento feliz’).
No artigo ainda há uma estimativa de que em mais de 50% das vezes as pessoas não estão naquilo que fazem; dadas as condições do experimento e minha própria experiência eu diria que este número é mais próximo de 95%.
O único “erro” do artigo é concluir que devemos “pensar no que estamos fazendo”; não! Devemos estar presentes no que fazemos, o que exclui o pensar sobre o que fazemos. Simplesmente fazer, estar, ser, e não pensar sobre fazer, pensar sobre estar, pensar sobre ser. A nossa mente ocidental não se cansa de pregar o pensamento...
Agora já tenho um artigo científico para convencer os céticos, ou pelo menos criar uma dúvida pertinente. Como se dois psicólogos fossem mais relevantes que cinco mil anos de filosofia e prática (rsrsrs). De todo modo é mais uma porta de entrada do mortal vírus advaita.
abraços
marcos
Coloquei um novo vídeo (aqui em cima) muito bom do Ivan sobre a falsa identificação. Sobre isso, alguns tesouros (Astavakra Samhita): “Know that which has form to be unreal and the formless to be permanent... the world appears from the ignorance of the self and disappears with the knowledge of the self”.
Hoje recebi um e-mail (obrigado Capocchi!) com o link para um artigo muito divertido e instrutivo até para o mais cabeça-dura (segue link: http://tiny.cc/f8hds ). Trata-se de artigo da Scientific American relatando experiemento recém realizado por dois psicólogos para estudar a natureza da felicidade. Criaram um aplicativo para o Iphone que tocava aleatoriamente durante o dia e perguntava se a pessoa estava feliz, e se estava concentrada no que fazia ou pensando em outra coisa. O resultado (surpresa!) é que as pessoas ficam mais felizes quando concentradas no que fazem, e não quando fazem uma coisa e pensam em outra (ainda que a outra seja um ‘pensamento feliz’).
No artigo ainda há uma estimativa de que em mais de 50% das vezes as pessoas não estão naquilo que fazem; dadas as condições do experimento e minha própria experiência eu diria que este número é mais próximo de 95%.
O único “erro” do artigo é concluir que devemos “pensar no que estamos fazendo”; não! Devemos estar presentes no que fazemos, o que exclui o pensar sobre o que fazemos. Simplesmente fazer, estar, ser, e não pensar sobre fazer, pensar sobre estar, pensar sobre ser. A nossa mente ocidental não se cansa de pregar o pensamento...
Agora já tenho um artigo científico para convencer os céticos, ou pelo menos criar uma dúvida pertinente. Como se dois psicólogos fossem mais relevantes que cinco mil anos de filosofia e prática (rsrsrs). De todo modo é mais uma porta de entrada do mortal vírus advaita.
abraços
marcos
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Abstinência
No encontro da semana passada do grupo de meditação conversamos sobre o cultivo de um primeiro nível de discernimento em nosso dia a dia.
A colcha de retalhos (também conhecidos por elementais, hábitos, ec.) que é nossa personalidade tem alguns poucos mecanismos básicos de negociação para garantir sua sobrevivência segundo as tendências (samskaras) trazidas no pacote deste ciclo de vida. Os primeiros passos no auto-conhecimento são direcionados a conhecer, ou reconhecer, estes mecanismos. Esta etapa não é muito complexa, e sempre vem acompanhada de assombro, surpresa, dor, emoção, etc. Porém a descoberta é apenas o começo. Muitas vezes nos apaixonamos ainda mais por estes mecanismos, nos dedicamos a estudá-los em detalhes , em toda a sua profundidade, e assim garantimos que nunca nos preocuparemos a encontrar a saída do labirinto, apenas nos deixamos passear mais e mais dentro dele. A questão não é descobrir causas ou detalhes destes mecanismos-raiz, mas sim reconhecer sua existência, e a partir daí aprender a desinflá-los, dia após dia.
Estes mecanismos só existem, naturalmente, como forma de expressão da identidade “eu” no mundo; enquanto forma, só existem como pensamentos. Assim, uma presença intensa no cotidiano naturalmente murcha a bexiga destes mecanismos. A reação natural e espontânea ante aos acontecimentos trazidos pelo presente deixará um espaço potencial cada vez menor para se enfiem as unhas compridas da personalidade no corpo do presente.
Mas como fazer no nosso dia a dia? Uma boa pista é buscar estar consciente de cada decisão que tomamos, em vez de nos deixarmos levar por um maremoto de possibilidades construídas mentalmente, que pouco tem a ver com a realidade. É uma primeira aproximação ao que o Ivan chama de estado de não-dúvida. Por exemplo: você precisa ir à academia fazer ginástica; perceba o que é mais inteligente neste momento e resolva. Não é uma questão de dever ou moral... ir ou não ir à academia não é o ponto. O ponto é o processo: se você está metido em uma dezena de razões para não ir, ou para ir, já estamos mal...
Uma outra pista é aprender a reconhecer cada vez mais prontamente as negociatas internas que fazemos para “ganhar” algo a que nos apegamos muito, geralmente de fundo emocional. Por exemplo: já que tive um dia muito difícil eu mereço comer esta barra de chocolate! Tudo bem, não precisa ser comida, podem ser duas horas de internet, ou um copo de uísque, ou..., bom cada um sabe bem de suas próprias negociações... especialmente nas relações. Se há negociação há um “eu” buscando justificar. Um modo rápido, mas não tranquilo, de perceber estes nossos apegos e justificativas é a prática da abstinência (por algum período de tempo, pelo menos) daquilo que apreciamos tanto. Observando as reações que surgem, a intensidade emocional, o arrazoado inteligente para burlar a própria proposta de abstinência, podemos ter uma pista do tamanho do poder que esta colcha de retalhos exerce, a potência com que estes mecanismos-raiz da personalidade nos subjugam, ainda que através de sutis e inteligentes justificativas.
Ao final, a prática da meditação é a abstinência última, a abstinência do próprio eu.
abraços
marcos
A colcha de retalhos (também conhecidos por elementais, hábitos, ec.) que é nossa personalidade tem alguns poucos mecanismos básicos de negociação para garantir sua sobrevivência segundo as tendências (samskaras) trazidas no pacote deste ciclo de vida. Os primeiros passos no auto-conhecimento são direcionados a conhecer, ou reconhecer, estes mecanismos. Esta etapa não é muito complexa, e sempre vem acompanhada de assombro, surpresa, dor, emoção, etc. Porém a descoberta é apenas o começo. Muitas vezes nos apaixonamos ainda mais por estes mecanismos, nos dedicamos a estudá-los em detalhes , em toda a sua profundidade, e assim garantimos que nunca nos preocuparemos a encontrar a saída do labirinto, apenas nos deixamos passear mais e mais dentro dele. A questão não é descobrir causas ou detalhes destes mecanismos-raiz, mas sim reconhecer sua existência, e a partir daí aprender a desinflá-los, dia após dia.
Estes mecanismos só existem, naturalmente, como forma de expressão da identidade “eu” no mundo; enquanto forma, só existem como pensamentos. Assim, uma presença intensa no cotidiano naturalmente murcha a bexiga destes mecanismos. A reação natural e espontânea ante aos acontecimentos trazidos pelo presente deixará um espaço potencial cada vez menor para se enfiem as unhas compridas da personalidade no corpo do presente.
Mas como fazer no nosso dia a dia? Uma boa pista é buscar estar consciente de cada decisão que tomamos, em vez de nos deixarmos levar por um maremoto de possibilidades construídas mentalmente, que pouco tem a ver com a realidade. É uma primeira aproximação ao que o Ivan chama de estado de não-dúvida. Por exemplo: você precisa ir à academia fazer ginástica; perceba o que é mais inteligente neste momento e resolva. Não é uma questão de dever ou moral... ir ou não ir à academia não é o ponto. O ponto é o processo: se você está metido em uma dezena de razões para não ir, ou para ir, já estamos mal...
Uma outra pista é aprender a reconhecer cada vez mais prontamente as negociatas internas que fazemos para “ganhar” algo a que nos apegamos muito, geralmente de fundo emocional. Por exemplo: já que tive um dia muito difícil eu mereço comer esta barra de chocolate! Tudo bem, não precisa ser comida, podem ser duas horas de internet, ou um copo de uísque, ou..., bom cada um sabe bem de suas próprias negociações... especialmente nas relações. Se há negociação há um “eu” buscando justificar. Um modo rápido, mas não tranquilo, de perceber estes nossos apegos e justificativas é a prática da abstinência (por algum período de tempo, pelo menos) daquilo que apreciamos tanto. Observando as reações que surgem, a intensidade emocional, o arrazoado inteligente para burlar a própria proposta de abstinência, podemos ter uma pista do tamanho do poder que esta colcha de retalhos exerce, a potência com que estes mecanismos-raiz da personalidade nos subjugam, ainda que através de sutis e inteligentes justificativas.
Ao final, a prática da meditação é a abstinência última, a abstinência do próprio eu.
abraços
marcos
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Nosso leque de dons
No encontro do grupo de meditação de 4af na semana passada falávamos sobre atividades que nos inclinam mais naturalmente à presença, como identificá-las e fazer delas um trampolim para a presença mais frequente em nosso dia a dia.
Todos temos dons naturais - poucos, normalmente, mas temos. Durante a infância estes dons transparecem, se fazem evidentes com bastante facilidade. Entretanto nossa educação não prioriza a capacidade de detectar e estimular estes dons na juventude. Ao contrário, estabelece moldes únicos que padronizam aquilo que se imagina que possivelmente a sociedade mais reconhecerá como modelo de sucesso. Assim nós - em nosso próprio processo de amadurecimento desde crianças - nos adaptamos, nos tornamos geralmente máquinas de esforço na busca da adaptação. No meio do caminho ‘esquecemos’ nossos dons em alguma esquina temporal. Daí é um pequeno pulo para nos tornarmos adultos que se esforçam brutalmente para chegar lá (onde mesmo?). Este esforço muitas vezes é cruel, pois com a ignorância habitual que temos sobre nós mesmos é bem possível que focalizemos o esforço em campos e naturezas de atividades que estão distantes de nossos dons.
Quando estamos realizando uma atividade na qual somos destros esta se realiza com menor esforço. Quando desenvolvemos nossos dons naturais é muito mais simples estar em um estado de presença enquanto a ação se realiza. Assim, se podemos identificar estes dons, se podemos estimular por mais vezes ações nas quais somos destros, é mais natural que estejamos mais presentes - e mais do que isso, será mais provável nos darmos conta que estamos presentes. Daqui surge um trampolim essencial para nosso dia a dia de auto-conhecimento: a partir da compreensão limpa do que é um estado de presença, fica absolutamente claro o que não é um estado de presença! O estado de presença não é diferente conforme a atividade; a presença é sempre a presença. Aquilo que é consciente não varia, não muda. Deste modo uma vez que se tenha experimentado a consistência, o gosto, o perfume do estado de presença, não há mais dúvida: sabe-se com total clareza o que não é um estado presente no dia a dia. Como o presente sempre está existindo a cada instante, desde o nascimento até a morte, não há um momento que não requeira a presença para que seja pleno; o eixo que se ganha ao haver presença em uma ação natural (neste caso aquela que requer o uso de um de nossos dons) não se perde desde que haja simultaneamente a compreensão de se estar presente. (!!!) E isto basta para muitos e muitos anos de prática e auto-conhecimento.
abraços
marcos
Todos temos dons naturais - poucos, normalmente, mas temos. Durante a infância estes dons transparecem, se fazem evidentes com bastante facilidade. Entretanto nossa educação não prioriza a capacidade de detectar e estimular estes dons na juventude. Ao contrário, estabelece moldes únicos que padronizam aquilo que se imagina que possivelmente a sociedade mais reconhecerá como modelo de sucesso. Assim nós - em nosso próprio processo de amadurecimento desde crianças - nos adaptamos, nos tornamos geralmente máquinas de esforço na busca da adaptação. No meio do caminho ‘esquecemos’ nossos dons em alguma esquina temporal. Daí é um pequeno pulo para nos tornarmos adultos que se esforçam brutalmente para chegar lá (onde mesmo?). Este esforço muitas vezes é cruel, pois com a ignorância habitual que temos sobre nós mesmos é bem possível que focalizemos o esforço em campos e naturezas de atividades que estão distantes de nossos dons.
Quando estamos realizando uma atividade na qual somos destros esta se realiza com menor esforço. Quando desenvolvemos nossos dons naturais é muito mais simples estar em um estado de presença enquanto a ação se realiza. Assim, se podemos identificar estes dons, se podemos estimular por mais vezes ações nas quais somos destros, é mais natural que estejamos mais presentes - e mais do que isso, será mais provável nos darmos conta que estamos presentes. Daqui surge um trampolim essencial para nosso dia a dia de auto-conhecimento: a partir da compreensão limpa do que é um estado de presença, fica absolutamente claro o que não é um estado de presença! O estado de presença não é diferente conforme a atividade; a presença é sempre a presença. Aquilo que é consciente não varia, não muda. Deste modo uma vez que se tenha experimentado a consistência, o gosto, o perfume do estado de presença, não há mais dúvida: sabe-se com total clareza o que não é um estado presente no dia a dia. Como o presente sempre está existindo a cada instante, desde o nascimento até a morte, não há um momento que não requeira a presença para que seja pleno; o eixo que se ganha ao haver presença em uma ação natural (neste caso aquela que requer o uso de um de nossos dons) não se perde desde que haja simultaneamente a compreensão de se estar presente. (!!!) E isto basta para muitos e muitos anos de prática e auto-conhecimento.
abraços
marcos
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O Centro do Universo
Normalmente achamos que as coisas acontecem para a gente, expressamos isto ao dizer rotineiramente que não entendemos porque tal e tal coisa aconteceu para a gente. Agora vejam que divertido seria encarar sob um outro ponto de vista: as coisas não acontecem para mim, elas acontecem simplesmente, eu faço parte desta galáxia de situações, campos e realidades que simultaneamente acontecem. Quanta auto-importância em considerar, mesmo que sutilmente, que as coisas acontecem para mim. Embutida nesta afirmação está uma nova teoria astronômica: no início imaginávamos que a terra era o centro do sistema solar, com o sol e os planetas girando ao seu redor; depois se descobriu que o sol era o centro do sistema solar, e mais tarde que o sistema solar fica perdido no canto de uma galáxia, e agora descobrimos algo incrível: eu sou o centro do universo! (precisaremos de mais ou menos 6 bilhões de universos)
Parece demais? Pois é justamente o que reafirmamos a cada instante de auto-piedade, justificativas poderosas e razões absolutas sobre nossos atos, omissões, erros, acertos, etc. Neste latifúndio do “eu” que construímos com fervor, a cada vez anexando mais e mais porções de terra consciente por conta de usucapião da ausência de presença, nos deliciamos em cavalgar pelas imensas paragens admirando nossa obra de vida inteira: todo o rol de razões e explicações para nossos rumos tomados. Lá no fundo uma sombra quase imperceptível traz o eco da idéia de um julgamento, então precisamos ter muitas explicações razoáveis.
Todo este latifúndio assume uma capacidade de parecer concreto que se torna mais e mais poderosa conforme cavalgamos por ele, isto é, conforme pensamos a partir da idéia do ‘eu’ que atua e merece. E nós adoramos apreciar nossa grande propriedade, basta observar o quanto ‘sonhamos acordados’. Outro dia ouvi uma música que dizia algo como “sonhar não custa nada, sonhar acordado, etc.”. Sonhar acordado custa, e custa muito mais do que imaginamos.
É nas terras deste latifúndio que tudo o que acontece parece acontecer para a gente. Atenção: é a certeza ignorante da justiça do merecimento que nos leva ao centro egoísta do universo. Em outras paragens isto não é verdadeiro. Quando nos apresentamos presentes ao instante que se sucede e reagimos a ele naturalmente não há necessidade do conceito de justiça ou merecimento. Atuamos em harmonia com tudo mais que ocorre, e neste alinhamento há a paz e a liberdade de não sermos o centro do universo, mas sim o universo todo no holograma da Consciência.
abraços
marcos
Assinar:
Postagens (Atom)