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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Eu quem mesmo?

Dentre todos os paradoxos que a visão filosófica ocidental  provoca ao pesquisarmos a realidade a indagação do eu parece ser a mais facilmente observável, e, assim, mais direto ponto de partida para aqueles que se aventuram no auto-conhecimento.
Quem, afinal, é o sujeito que vive, que age, que presencia a realidade?
Experimente perguntar-se esta questão. Naturalmente a resposta será “eu, oras”. Que  eu? Ué, eu, fulano de tal, com tantos anos, formado nisto e naquilo, filho de fulano e pai de sicrano, etc. Porém, seguindo nas indagações, pergunte-se agora quem é este “eu” e tente responder sem qualquer atributo histórico. Experimente.
O que se passa? Uma estranha sensação de observar-se a si mesmo... tavez algo como um espelho paralelo a outro.
Continue a indagar, honestamente... o que é este eu? Percebe o silêncio que se abre? Esta sensação de algo consciente, que existe, mas  sem denominação?
Isto, que sempre esteve aí, que a si mesmo não se indaga, que é consciente sem pensar, que compreende sem raciocínio, é o que realmente existe.
Isto não tem identidade com o “eu” histórico que só existe quando é pensado.
A falta de história nos traz ao instante presente!
Porém a inérica da falta de presença nos carrega para a história conduzida nos meandros do pensamento, memória agitada e repensada na forma de passado ou na forma de futuro. Quando imersos na memória milhares de dúvidas nos assaltam sobre nossa natureza, o que somos realmente, etc. Este é o playground do “eu”. 
Quando vivos no instante presente não surgem dúvidas, o “eu” não faz parte desta dimensão de existência, muito mais próxima da realidade. Não se trata de uma “evolução do eu”, é simplesmente um estado de consciência mais presente; a idéia da evolução espiritual do “eu” é uma grande armadilha que simplesmente tem o efeito de fortalecer a própria identidade egóica. Não existe meio termo: quando se está presente não há um “eu” que se sinta feliz por estar presente e não estar mais perdido em pensamentos... se há algo desta natureza ocorrendo são simplesmente pensamentos mais bonitinhos.
Nós somos criações momentâneas que existem enquanto pensamos sobre elas; criaturas cujo cordão umbelical é construído a cada fluxo de pensamento que nos sustenta,  nos ilude fazendo crer que somos contínuos no tempo histórico. Nos instantes em que estamos presentes este cordão é cortado instantaneamente, estas criações não existem. Para comprovar isto basta refazer o exercício proposto acima. É simples. 
A indagação do eu pode abrir possibilidades de compreensão profundas se buscamos praticar de forma honesta  e curiosa.


(Para os interessados na indagação do eu por favor vejam ao lado o link para o site que contém ensinamentos de Ramana Maharshi)



Abraços,
Marcos

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Silêncio interior

A prática interior é - talvez para a imensa maioria de nós - o único pilar que consiga representar a sensação de certeza profunda sobre algo na vida. Segundo dizem os grandes sábios o que existe em verdade, é Sat-Cit-Ananda. 
Sat (existência, ser), Cit (consciência, sabedoria e conhecimento) e Ananda (bem aventurança, amor pleno como agente de integração) existem em uma dimensão que é subjacente, que dá base à própria existência.
Como podemos ter contato com aspectos - ainda que tênues - desta realidade última?
Imersos em nossos hábitos mentais de comportamento, que puxam a cada instante de percepção infindáveis elementos comparativos de memória, é muito difícil encontrar um momento de certeza. Estes hábitos, continuamente reforçados, acabam por trazer mais e mais diferenciação, isto é, momentos em que não estamos atentos ao presente que se sucede, mas sim envoltos pelas familiares vozes mil das cadeias de pensamento e memória, julgamento e distância. Conforme o tempo passa estes hábitos se tornam mais fortes, pois cremos com toda a convicção que somos eles.
O único elemento capaz de desfazer esta trama é a atenção.  A atenção aparece por trás, antes dos próprios hábitos mentais. Ao observarmos conscientemente estes hábitos eles se tornam mais frágeis, menos senhores de nós mesmos. Ao longo de muitos anos de uma vida a prática enfraquece os hábitos e dá oportunidade para um viver consciente. Ao longo de alguns minutos de uma prática de atenção interior (meditação) a atenção aniquila imediatamente o hábito que surge na forma de um pensamento ou emoção, permitindo uma percepção daquilo que existe antes do jogo de cenas de um teatro de fantoches.
A prática do silêncio é a porta para a chance de se resvalar na certeza da existência, da consciência, da bem-aventurança.
Quieto, com o corpo e os sentidos acalmados, atento ao que se passa internamente. Atento e curioso, investigando o que afinal é isso que somos, como se expressa. Atento ao compreender que existe antes de qualquer pensamento, imerso no vazio que é pleno de movimento e vida. É possível se perceber como se flexibilizam e aos poucos se mostram ilusórias as cadeias de restrições que nos fazem imaginar que o que existe é o corpo material, este “eu”,  ou mesmo que somos “algo” independente. Atentos, quietos e profundamente mergulhados em nosso próprio campo de existência, as certezas de uma mente pensante rapidamente se mostram duvidosas, e por fim falsas, ilusórias. Aquilo que compreende, como um espaço novo que se abre em nosso próprio espaço interno, se revela como tendo estado sempre ali. A compreensão completa de não ser algo, e ainda assim a completa certeza de ser. 
Este perfume que resta de uma prática interior não pode ser expresso em conceitos compreensíveis pela mente linear, mas ele permanece vivo como uma certeza mais profunda - ainda que em um campo sutil - da trama de fluxos de existência, consciência e amor que nos compõe.
Abraços,
Marcos

domingo, 31 de julho de 2011

Travessia

Assim disse Nisargadatta sobre a meditação:
“Nós conhecemos o mundo externo das sensações e das ações. Mas do mundo interno de pensamentos e desejos nós conhecemos muito pouco.O propósito primário da meditação é se tornar consciente com nossa vida interior. O propósito último é alcançar a fonte da vida e consciência. Incidentalmente a prática da meditação afeta profundamente nosso caráter. Nós somos escravos do que não conhecemos. Quando descobrimos qualquer vício ou fraqueza e compreendemos suas dinâmicas e causas  nós as superamos pelo próprio conhecimento. O inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. A mente se aquieta.”
O impacto que a prática de atenção constante ao presente tem na dinâmica da personalidade não é o objetivo da própria prática. A atenção ao aqui e agora tem como impulso a constatação de que esta é a única forma real de ser, a única maneira de compreender. As disciplinas (sadhanas) são necessárias para que os hábitos arraigados sejam aos poucos dissolvidos, trazendo quietude mental. Assim é crucial a prática interna de silêncio, uma disciplina necessária para cortar a indulgência na qual normalmente navegamos. Aos poucos a mente começa a encontrar um estado mais quieto, o que permitirá que a atenção se fixe mais continuadamente no presente.
Esta é uma longa travessia do irreal e oculto para o real e auto-luminoso.  
Nesta segunda-feira retomamos o grupo de meditação semanal às 19h30 no Instituto Brahmavidya. Fica o convite para os que buscam a coragem de empreender a travessia. 


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Kalpas e pedras

Outro dia meu filho mais velho me mostrou um vídeo na internet chamado “as pedras”, ou algo assim. Muito divertido, mostrava o mundo, a história, sob o ponto de vista de duas pedras. Mais interessante ainda, mostrava o tempo sob o ponto de vista das pedras. Para os humanos e animais que por ali viviam as pedras pareciam imóveis, mas a certa altura o filme passa a rodar na velocidade do tempo relativo das pedras. Como se cada dezena de anos humanos fosse um segundo para as pedras, elas interagem e conversam sobre a  rapidíssima ação humana. Cidades avancam e decaem em segundos, e ali estão as pedras dialogando.
Isto se assemelha à comparação entre a identidade egóica e aquilo que seria o observador final, nossa essência. Nossa idéia de personalidade - a ilusão de permanência e concretude - é como o tempo humano do filme: fulgaz, transitória, inconstante. Aquilo que observa é - um pouco - como as pedras: permanece, ali, sempre.
Diz-se na sabedoria hindu que um kalpa (um dia ou uma noite de Brahma) equivale a 1.000 yugas (eras), e uma yuga equivale aproximadamente a 4.320.000 anos. Assim um dia completo de Brahma equivaleria a 8.640.000.000 anos. Sem levar em conta cálculos, a idéia da relatividade é que importa. 
Nos movemos intensamente, desesperadamente, entre pensamento e ação, julgamento e expectativa, frustração e desejo, mais ação e mais pensamentos. Não temos o tempo para buscar a paciência e a diligência de sentar e observarmos a nós mesmos. Não temos a humildade de aceitar o instante e continuamos a depositar nossas fichas emocionais em uma caderneta de poupança a ser resgatada em um futuro quando tudo estará conforme sonhamos, um futuro que por definição não existe, não chega nunca. Não temos a coragem de abrir mão das indulgências mais confortáveis, nem das mais sutis. Assim permancemos mergulhados em nosso mar de criações, em nosso berçário de hábitos e tendências. 
Se nos decidirmos por um instante a advertir o que se passa naquele mesmo instante perceberemos que se dilui a diferença entre algo que faz e algo que recebe, entre sujeito e objeto, entre perceptor e percebido. Neste instante mesmo não há tempo. Se este instante é reconhecido toda a estrutura de certezas acerca de nossa idéia da permanência da personalidade e da necessidade de uma identidade egóica aparentemente independente começa a ser colocada em dúvida. 
De outro modo nos escapa, sempre, aquilo que esteve, está e estará eternamente ali. Aquilo que nos permite ser conscientes, conhecer, amar e existir. Aquilo que subexiste antes, durante e depois de nós. Aquilo para o qual o tempo não existe como variável.




Abraços,
Marcos

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Guga não-dual

Seguindo com as experiências reais de pessoas “comuns” que nos transmitem um pouco do que são estados de presença vou compartilhar um trecho da entrevista de Guga a Juca Kfouri. Guga explica o que ocorreu em um jogo de oitavas de final de Roland Garros:
“... foi uma sensação muito forte, a mais forte que senti em quadra... muito envolvimento, entrega total... atingi um nível de felicidade, de contemplação do todo... ao mesmo tempo observava a torcida, batia na bola, tudo... um grau de concentração tão alto, tão eficaz... experiência de estar acima, em algum lugar, mas não no padrão normal de sensações... muito forte.”
Este é um estado de consciência em que não há um “eu” que bata na bolinha, há um fluir com a realidade que ocorre, um fluir espontâneo e sem dúvida. Este jorrar de certeza advindo da reação natural ante o que se passa produz a ação correta, uma ação que não busca um fruto específico, nem é imaginada sendo controlada por um sujeito diferente da própria ação.
Como se origina um estado como esse? Bom, podemos começar por uma certeza: um estado de presença não se origina pelo desejo de alcançá-lo... tampouco pela dúvida de alcançá-lo. Tanto desejo quanto dúvida são perturbações criadas pela agitação mental, e denotam a existência de um “eu” psicológico que se crê capaz de alcançar algum outro “estado”. Há que se recordar de algo fundamental: este “eu“ não possui existência em si mesmo, não existe realmente quando estamos presentes. Este “eu” só possui existência real se prensado. Assim, qualquer estado de atenção no instante presente é um estado de inexistência - ainda que ultra momentânea - do “eu”. Por isso este sujeito nunca estará presente, nunca viverá um estado de presença. Haverá, claro, a memória, ou pelo menos uma sensação. Observem como é difícil explicar um estado como esse descrito acima. A memória não é um atributo da personalidade, a memória é um componente da mente que existe por termos a capacidade de sermos conscientes. Não deixa de haver consciência em um estado de presença, e é natural que haja um tipo de informação residente que é oriunda daquele estado. Nosso “eu” então busca se apropriar da sensação criando a ilusão de ter vivido aquele instante. Mas isto é apenas um golpe barato de quem nunca poderá viver tais instantes.
Um estado de presença se origina de maneira natural e espontânea, quando colocamos nossa atenção plena naquilo que se sucede no instante presente, seja o que seja. Vejam como Guga cita a palavra “entrega”.
Outra palavra para se lembrar: “eficaz”. Um estado sem interferência de um “eu” que busca fruto ou se apropria do que parece fazer é paradoxalmente muito mais eficaz. 
Um último ponto divertido: a falta de referência espacial: ao mesmo tempo ver a torcida, bater na bolinha, estar acima... a atenção focada nos objetos da realidade (bolinha, adversário, torcida) leva a uma permanência da atenção nestes mesmos objetos, e não em si mesmo. Isto é exatamente o que se propõe como prática meditativa externa. Com a permanência da atenção nos objetos, deixa de haver um sujeito auto-referenciado que executa a ação, a atenção está em vários objetos simultaneamente. Se o “eu” sujeito que executa ações e tem história não está presente, porém a ação é executada com eficácia e existe consciência do que se passa, quem é consciente? 
Isto quer dizer que o próprio sistema (bolinha, raquete, jogador, torcida) é consciente do que se passa.
Realmente do ponto de vista não-dual, em última instância, não existe consciência individual... Consciência existe previamente e como condição subjacente a qualquer ato ou objeto. Apenas percebemos um leve desvelar da ilusão da consciência individualizada em estados de intensa presença.


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Perguntas simples

As perguntas mais simples nos dão as chaves mais diretas para a percepção de que no nosso âmbito habitual do pensar reside um espaço amplo de ignorância.
O que, neste mundo, é permanente?
O que é real?
Quem é que percebe o que se passa?
O que é consciente da própria consciência?
Acordamos todos os dias nos lembrando do que éramos antes para poder reconstituir nossa própria identidade, entretanto percebemos, mais dia menos dia, que mudamos, sempre. Nosso corpo muda, amadurece, decai; o ambiente muda, as pessoas em volta mudam, nascem e morrem. A natureza é só mudança. E o homem é parte disso. Sabemos a teoria porém jamais compreendemos.
Internamente as coisas são um pouco mais complicadas. Na sopa de caos de um pensar ininterrupto nada tem firmeza, nada tem eixo. É na areia movediça das lembranças e repisares de hábitos de estimação que buscamos incessantemente fortalecer as raízes de uma história personalística, seus desejos, orgulhos e razões. 
Assim tentamos construir nossos castelos de areia à beira das ondas de ressaca da vida.
Não sabemos o que é Ser, e procuramos disfarçar e preservar o conforto aparente da ignorância com o parque de diversões de um dia a dia, noite a noite, mês após década de acúmulo de bens ideais ou materiais, futilidades divertidas e justificadas, aceitas e demandadas por toda a tribo, nossas famílias, comunidades e sociedade grupalmente afundadas na mesma ignorância. 
Há algo além disso, anterior a isso.
Há algo que sempre está, que é consciente do que se passa, e é consciente de ser consciente. Há algo que não tem história, que não tem dúvida. Há algo que é pleno simplesmente existindo e atuando conforme os trilhos do viver requerem, e neste atuar é mais eficiente e inteiro do que qualquer força de vontade poderia nos levar a ser. Há algo que não tem vontade de ser algo mais. Este algo já está bem aí, sempre esteve. Este algo é real e permanente, e é de verdade o que existe. Este algo é o que você é, antes de você existir - cronologicamente no nascimento ou no instante mesmo de pensar em si após ler esta frase.


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Senna, alpinismo e presença

Então onde está este bendito estado de presença de que tanto falamos? Parece uma criação mental, uma construção teórica para explicar algo que jamais conheceremos. Entretanto basta um pouco de atenção para percebermos que está logo aqui, logo agora.
Em muitos dos grupos de meditação aparece a dúvida sobre a presença. E em todos eles cada indivíduo consegue localizar experiências de presença mais profunda. Em nosso dia a dia é muito comum encontrarmos exemplos de pessoas que buscam situações extremas pela sensação que delas advêm. Vejamos dois exemplos.
Segue um trecho de uma entrevista de Ayrton Senna:
“...Mas passei por uma situação de risco muito maior na tomada de tempo para a corrida de de Mônaco em 1988. Eu já tinha a pole, mas continuava na pista. A cada volta aumentava a diferença para os outros pilotos. Eu estava me superando a cada volta e entrei em outra dimensão. Não via a pista, ela tinha virado um túnel. A distinção ente o homem e a máquina deixou de existir, me fundi com o carro, viramos a mesma coisa. Depois de cinco voltas, acordei para a situação de extremo perigo em que estava e fui para os boxes.”
E aqui um trecho de uma outra declaração de um alpinista, na Revista Brasileira de Psicologia do Esporte e do Exercício:  “ É uma coisa só... quando você chega a este nível é o êxtase.  É quando você consegue se dissolver. Quando você esquece totalmente do seu ego. Então você entra neste turbilhão... até chegar naquele pico... que é o de se entregar totalmente... porque não adianta, chega num ponto tal que você dilui.”
O risco de situações extremas faz com que todo a nossa atenção, todo o nosso sistema esteja atento e pronto para responder ao que se passa. Com a continuidade deste estado (como nos casos acima) a atenção se coloca mais intensamente no presente que se sucede, e cada vez menos no “eu”, no sujeito. Até um ponto em que a própria realidade é consciente do que se passa, sem a necessidade de um sujeito que se aproprie da idéia de consciência.  Assim um estado de consciência denominado observação, ou, mais profundamente, concentração, emerge. Nestes estados não há um “eu” personalístico que viva a situação, no entanto a ação que se produz é mais eficiente e mais inteligente, e a sensação é mais plena e mais viva. Quem produz a ação, quem vive a sensação? A própria realidade. 
O que ocorre é que no instante seguinte reaparace a agitação mental, reaparece um “eu” que pensa e se percebe de novo diferenciado da realidade mesma (como Senna retornando aos boxes), um “eu” que guarda na memória estas experiências e tentará de tudo para vivê-las novamente... embora este “eu  nunca as tenha vivido de fato.
Todos temos dons, ou vocações, que são tendências e qualidade naturais que trazemos em nosso sistema de corpo(s) + mente, como era por exemplo o automobilismo para Senna. Se compreendemos isto e buscamos atuar em nossas vidas de modo a utilizar e viver estas tendências de maneira intensa, nos será mais fácil aprender a reagir sem dúvidas ante à realidade nestes campos específicos. Isto porém é só o princípio. Depois poderemos experimentar como transbordar estas experiências do viver sem dúvida para os outros campos de nossas vidas, para o nosso dia a dia. 


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Auto-observação

Existem muitos mitos e lendas sobre os caminhos de auto-conhecimento, a maioria recehados de saltos imensos de compreensão súbita, portais que se abrem, universos que se desvelam.
Tudo certo, e provavelmente possível, mas possivelmente pouco provável para nós.
Dentro de nossos rumos de vida, nós - que permanecemos imersos sob camadas e mais camadas de pensamentos e teias de desejos segundo após segundo - temos muito provavelmente questões mais singelas a tratar antes de termos nossos sistemas mais amadurecidos a ponto de compreender algo maior.
Temos que ser humildes e fazer a lição de casa.
Esta lição de casa, invariavelmente, se chama auto-observação.
O velho ditado cristão - orai e vigiai - propõe o mesmo; este vigiar não é outra coisa que a observação de si mesmo.
Entretanto é necessário que se tenha uma dose não trivial de disciplina para que esta observação se dê, e que produza os efeitos ao longo do tempo. É preciso ter coragem de tomar nota de nossos mais íntimos passos. Nós somos tomados por uma idéia de personalidade que é constituída por uma miríade de pensamentos e desejos que se entremesclam ao longo de nossos dias; porém há apenas um par ou dois de pensamentos que são a raiz de toda esta selva. A auto-observação é o meio pelo qual se consegue reconhecer estes pensamentos-raiz. Aquilo que mais comumente pensamos sobre nós mesmos é aquilo que (aparentemente) somos e acreditamos ser.
Como todas as formas pensamento (pensamentos insuflados pelo desejo, pisados e repisados constantemente até que se tornem tendências) estes pensamentos raiz são criações ilusórias que se mostram realíssimas enquanto são insuflados; porém, como tigres de papel, perdem gradualmente o poder ilusório conforme tomamos consciência de sua existência. 
O modo mais frutífero de se trabalhar com a auto-observação e tomar consciência destes pensamentos-razi é através dos diálogos internos. Observe atentamente, em situações intensas, quais são os diálogos internos que passam pela sua mente. Perceba qual o rádio que transmite incessantemente sua própria narrativa; anote com detalhes e honestamente as frases que você fala para você mesmo, inclusive as mais violentas e duras. Depois procure organizar estes diálogos em conjunto com o modo como você se sente, age e fala. Procure perceber os polos nos quais você orbita  - geralmente um polo  mais “positivo”, e outro mais “negativo”. Perceba como, através dos diálogos, você transita de um para o outro.
Finalmente, dê-se conta de que esta é sua novela sem fim, a matéria prima para uma gangorra incessante que faz de você um servo dia após dia. O simples fato de você conseguir tomar consciência desta dinâmica fará com que esta gangorra perca gradualmente o poder ilusório de realidade. Se é possível para você perceber sues próprios pensamentos então você não é os pensamentos! Você é aquilo que está por trás,  que observa. Aos poucos a opção por não se deixar levar pela confortável e conhecida corrente de diálogos internos ficará mais palpável, e permanecer presente ficará mais provável.
Ao deixarmos de ser servos de nossas próprias construções personalísticas começamos a criar uma chance maior de encontrar momentos de compreensão real do que somos.


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tudo bem

Todos nós reclamamos por paz, por sossego. Todos pedimos um momento de tranquilidade, em que tudo esteja bem. E o mais divertido é que todos nós já vivemos momentos assim. E o que fazemos quando este momento chega? Em vez de vivê-lo plenamente começamos a construir o que virá depois, começamos a inventar e criar o futuro, os próximos dias, horas, o que acontecerá para... para que? Para alcançar o próximo momento de paz e sossego que não aproveitaremos, como este?
Não é incrível? E esta não é uma disposição teórica, é a experiência pura disponível para cada um de nós. Experimente perceber o que se passa em sua mente quando tudo está “bem”. Imediatamente, como uma coceira, há um princípio de atividade mental que busca algo mais, algo no futuro. E como uma coceira, quanto mais se coça, mais coça,
Experimente notar que neste momento há a semente de um pensamento longo e muito conhecido seu, um pensamento que iniciará uma cadeia de pensamentos, que resultará, finalmente, em uma situação futura imaginária que traz como fruto algum tipo de emoção específica que sua personalidade desesperadamente necessita. Pode ser, carinho, reconhecimento, vitimização, poder, etc., cada um tem a sua raiz específica e especial. Se você percebe a semente desta cadeia, compreenderá imediatamente o resultado final, e verá quão sem graça, quão repetitivo este hábito de pensar-se realmente é. Pois, ao final, a estrutura da identidade egóica é apenas aquilo que mais pensamos sobre nós mesmos, nossas tendências tornadas concretas por fantasias sem fim. 
O dar-se conta da moeda de troca emocional que jaz por trás de cada cadeia de pensamentos faz com que esta fique em suspensão, como que aguardando sua própria decisão consciente de seguir em frente - escorregando no toboágua dos devaneios - ou de permanecer aqui e agora. Este momento é precioso, é de fato a opção última de ser livre ou permanecer servo, é a expressão concreta e prática do livre arbítrio verdadeiro. A liberdade está radicada em não seguir a cadeia de frutos emocionais da personalidade, mas em perseguir a plenitude do instante.
Permanecer presente priva a personalidade deste fruto emocional específico, no qual somos absolutamente viciados, e daí surge a sensação de abstinência, o que normalmente nos leva de volta ao toboágua. É preciso vencer esta crise de abstinência para continuar presente.
Assim segue nossa comédia privada, tanto trágica quanto cômica. Talvez mais cômica enquanto não nos conscientizamos do tamanho do buraco que cavamos, talvez mais trágica quando nos encontramos lá no fundo, sem suspeitar que existe uma saída.
A saída? O precioso momento do livre arbítrio.




Abraços,
Marcos

segunda-feira, 14 de março de 2011

Terremoto e tsunami

E assim, com apenas um leve trejeito, o planeta deixa o recado pregado na consciência de todos que tem olhos para ver: impermanência.
Por mais que queiramos concretar nossos bons dias, planos e momentos em uma rígida ponte estruturada até o futuro longínquo, cada soluço é uma lembrança sutil de que a realidade simplemente não funciona desta maneira.
Pequenos contratempos do dia a dia passam esta mensagem: não conseguir chegar àquele encontro importante por conta do trânsito, não alcançar aquela promoção como planejado... O corpo e a natureza gritam isto o tempo todo: o decaimento do corpo, perder os cabelos!... Outros sofrimentos maiores tendem a trazer alertas mais fortes: a morte de um ente querido, uma doença séria.
Porém um desastre das proporções do terremoto e do tsunami no Japão nos coloca de joelhos em uma casquinha bem fininha em um aglomerado de matéria de núcleo imensamente quente, que se move a uma velocidade estúpida, parte da rabeira de uma galáxia também em movimento que navega no vazio do universo que não sonhamos conhecer.
A imensidão do todo e a impotência do um ficam estampadas, reduzem a pó a crença de controle e permanência dos minúsculos “eus”. Nos momentos seguintes ao terremoto surgiram comentários sobre os possíveis impactos na bolsa de tóquio. Inacreditável como precisamos imediatamente retomar todos os parâmetros de referência de uma coletividade de “eus” ignorantes, parâmetros sem os quais não conseguimos ler nosso próprio RG.
Assim, como crianças mimadas que não se conformam com o fim das férias, não aceitamos aceitar a realidade. Preferimos negá-la em troca de um controle firme e ditatorial que exercemos sobre nossa própria ignorância. Porque de fato somos donos de uma coisa apenas nesta existência: do vasto latifúndio de nossa ignorância. A crença desesperada no controle de nossos atos, de nossas famosas decisões, de que somos nós que escolhemos o caminho que seguimos, é simplesmente um truque deste indivíduo “eu” que precisa atestar sua própria e falsa idéia de existência contínua.
Tentar nos segurar nos pilares do “eu” nos dá a falsa sensação de permanência; a mesma sensação de firmeza que os moradores do vilarejo portuário de Minamisanriku tinham acerca de suas casas, até observarem o tsunami levá-las como barcos de papel. E, como sabemos, ou muitas vezes veladamente intuimos, o tsunami da Consciência sempre chega.


Abraços,
Marcos

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sentido da vida

Mas então qual o sentido disso tudo afinal? Esta não é uma pergunta pouco comum em todas os grupos, cursos, escolas de auto-conhecimento. Em algum momento aparece a dúvida, a angústia de compreender - não importa a linha de pesquisa ou a tradição.
E, invariavelmente, a resposta simplesmente... não existe. Podemos encontrar livros fantásticos, buscar raciocínios elaborados ou afirmações elegantes, que muitas vezes nos  emocionam, mas a resposta, como algo que explique a causa e o propósito de estarmos aqui, está misteriosamente impedida de ocorrer.
É como se estivéssemos na linha verde do metrô de São Paulo tentando chegar desesperadamente a Victoria station em Londres. Por mais que estudemos os mapas, compremos toneladas de bilhetes, e viajemos por dias e dias embaixo da terra, não chegaremos.
Esta resposta simplesmente não é possível neste estado de consciência em que vivemos - ou seja, pensando. Como em uma equação, as condições de contorno da solução são tais que neste estado de consciência vigílico-pensante a solução é inexistente. Entretanto existe - sim - uma solução, que está disponível em outro campo, em estados de consciência em que não há o predomínio da identidade egóica - “eu”. 
Conforme explica o Vedanta Advaita (a partir das descrições iniciais de Patanjali), podemos definir estados de existência em que a relação entre sujeito e realidade varia. Embora no ocidente em geral aceitemos apenas o sono e a vigília como estados, no campo de possibilidades do estado vigílico existem estados mais profundos de presença em que a personalidade, a identidade egóica pensante, não está presente. Nestes estados não ocorrem pensamentos, e a constância e o fluir da presença possibilitam uma compreensão cada vez mais plena da realidade. Falamos de compreensão, não de pensar sobre, a compreensão ocorre no vazio de pensamentos. Estes estados estão à nossa disposição, a realidade “real” é aquela que é compreendida no chamado estado último (samadhi). Esta é a realidade que nunca foi concebida mas sempre existiu. O alcançar deste estado comstuma-se chamar de realização do ser.  
Assim, como estamos ainda engatinhando nesta trilha, o mais divertido é considerar o seguinte: quando fazemos a pergunta “Qual o sentido disto tudo?”, quem está fazendo a pergunta? Esta proposição é muito mais rica  - quando feita de modo intenso, curioso e concentrado - que digressões intelectuais acerca de uma realidade que mal podemos intuir.




Abraços,
Marcos

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Wandering minds are unhappy minds

Pessoal, duas novidades.
Coloquei um novo vídeo (aqui em cima) muito bom do Ivan sobre a falsa identificação. Sobre isso, alguns tesouros (Astavakra Samhita): “Know that which has form to be unreal and the formless to be permanent... the world appears from the ignorance of the self and disappears with the knowledge of the self”.
Hoje recebi um e-mail (obrigado Capocchi!) com o link para um artigo muito divertido e instrutivo até para o mais cabeça-dura (segue link: http://tiny.cc/f8hds ). Trata-se de artigo da Scientific American relatando experiemento recém realizado por dois psicólogos para estudar a natureza da felicidade. Criaram um aplicativo para o Iphone que tocava aleatoriamente durante o dia e perguntava se a pessoa estava feliz, e se estava concentrada no que fazia ou pensando em outra coisa. O resultado (surpresa!) é que as pessoas ficam mais felizes quando concentradas no que fazem, e não quando fazem uma coisa e pensam em outra (ainda que a outra seja um ‘pensamento feliz’).
No artigo ainda há uma estimativa de que em mais de 50% das vezes as pessoas não estão naquilo que fazem; dadas as condições do experimento e minha própria experiência eu diria que este número é mais próximo de 95%.
O único “erro” do artigo é concluir que devemos “pensar no que estamos fazendo”; não! Devemos estar presentes no que fazemos, o que exclui o pensar sobre o que fazemos. Simplesmente fazer, estar, ser, e não pensar sobre fazer, pensar sobre estar, pensar sobre ser. A nossa mente ocidental não se cansa de pregar o pensamento...
Agora já tenho um artigo científico para convencer os céticos, ou pelo menos criar uma dúvida pertinente. Como se dois psicólogos fossem mais relevantes que cinco mil anos de filosofia e prática (rsrsrs). De todo modo é mais uma porta de entrada do mortal vírus advaita.


abraços
marcos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Abstinência

No encontro da semana passada do grupo de meditação conversamos sobre o cultivo de um primeiro nível de discernimento em nosso dia a dia. 
A colcha de retalhos (também conhecidos por elementais, hábitos, ec.) que é nossa personalidade tem alguns poucos mecanismos básicos de negociação para garantir sua sobrevivência segundo as tendências (samskaras) trazidas no pacote deste ciclo de vida. Os primeiros passos no auto-conhecimento são direcionados a conhecer, ou reconhecer, estes mecanismos. Esta etapa não é muito complexa, e sempre vem acompanhada de assombro, surpresa, dor, emoção, etc. Porém a descoberta é apenas o começo. Muitas vezes nos apaixonamos ainda mais por estes mecanismos, nos dedicamos a estudá-los em detalhes , em toda a sua profundidade, e assim garantimos que nunca nos preocuparemos a encontrar a saída do labirinto, apenas nos deixamos passear mais e mais dentro dele. A questão não é descobrir causas ou detalhes destes mecanismos-raiz, mas sim reconhecer sua existência, e a partir daí aprender a desinflá-los, dia após dia.
Estes mecanismos só existem, naturalmente, como forma de expressão da identidade “eu” no mundo; enquanto forma, só existem como pensamentos. Assim, uma presença intensa no cotidiano naturalmente murcha a bexiga destes mecanismos. A reação natural e espontânea ante aos acontecimentos trazidos pelo presente deixará um espaço potencial cada vez menor para se enfiem as unhas compridas da personalidade no corpo do presente.
Mas como fazer no nosso dia a dia? Uma boa pista é buscar estar consciente de cada decisão que tomamos, em vez de nos deixarmos levar por um maremoto de possibilidades construídas mentalmente, que pouco tem a ver com a realidade. É uma primeira aproximação ao que o Ivan chama de estado de não-dúvida. Por exemplo: você precisa ir à academia fazer ginástica; perceba o que é mais inteligente neste momento e resolva. Não é uma questão de dever ou moral... ir ou não ir à academia não é o ponto. O ponto é o processo: se você está metido em uma dezena de razões para não ir, ou para ir, já estamos mal...
Uma outra pista é aprender a reconhecer cada vez mais prontamente as negociatas internas que fazemos para “ganhar” algo a que nos apegamos muito, geralmente de fundo emocional. Por exemplo: já que tive um dia muito difícil eu mereço comer esta barra de chocolate! Tudo bem, não precisa ser comida, podem ser duas horas de internet, ou um copo de uísque, ou..., bom cada um sabe bem de suas próprias negociações... especialmente nas relações. Se há negociação há um “eu” buscando justificar. Um modo rápido, mas não tranquilo, de perceber estes nossos apegos e justificativas é a prática da abstinência (por algum período de tempo, pelo menos) daquilo que apreciamos tanto. Observando as reações que surgem, a intensidade emocional, o arrazoado inteligente para burlar a própria proposta de abstinência, podemos ter uma pista do tamanho do poder que esta colcha de retalhos exerce, a potência com que estes mecanismos-raiz da personalidade nos subjugam, ainda que através de sutis e inteligentes justificativas.
Ao final, a prática da meditação é a abstinência última, a abstinência do próprio eu.

abraços
marcos

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sobre flechas e karma

Nossa compreensão usual sobre o karma carrega a idéia de culpa e ‘coisa ruim’. Tão longe desta sombra está a definição original deste conceito hindu. Talvez uma das imagens mais didáticas utilizadas para explicar o karma seja aquela das flechas: passamos a vida a atirar flechas para o alto, e, como sabemos, um dia elas cairão. Estas flechas que atiramos são impulsionadas pelo desejo fundamentado na sensação de individualidade do “eu” (ahamkara). A incessante busca pelo fruto, pelo benefício das ações que fazemos, associada à sensação de sermos os agentes da ação, produz uma modalidade de ação no mundo que gera tendências. No tempo linear estas ações cheias de desejo são as flechas lançadas, por exemplo, hoje, neste ano, neste ciclo de vida. Estas flechas cairão, certamente, e isto ocorrerá no futuro. Estas tendências serão concretizadas ao longo de outros ciclos de vida.  
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa. 
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar. 


PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.


abraços
marcos

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Centro do Universo

Normalmente achamos que as coisas acontecem para a gente, expressamos isto ao dizer rotineiramente que não entendemos porque tal e tal coisa aconteceu para a gente.  Agora vejam que divertido seria encarar sob um outro ponto de vista: as coisas não acontecem para mim, elas acontecem simplesmente, eu faço parte desta galáxia de situações, campos e realidades que simultaneamente acontecem. Quanta auto-importância em considerar, mesmo que sutilmente, que as coisas acontecem para mim. Embutida nesta afirmação está uma nova teoria astronômica: no início imaginávamos que a terra era o centro do sistema solar, com o sol e os planetas girando ao seu redor; depois se descobriu que o sol era o centro do sistema solar, e mais tarde que o sistema solar fica perdido no canto de uma galáxia, e agora descobrimos algo incrível: eu sou o centro do universo! (precisaremos de mais ou menos 6 bilhões de universos)
Parece demais? Pois é justamente o que reafirmamos a cada instante de auto-piedade,  justificativas poderosas e razões absolutas sobre nossos atos, omissões, erros, acertos, etc. Neste latifúndio do “eu” que construímos com fervor, a cada vez anexando mais e mais porções de terra consciente por conta de usucapião da ausência de presença, nos deliciamos em cavalgar pelas imensas paragens admirando nossa obra de vida inteira: todo o rol de razões e explicações para nossos rumos tomados. Lá no fundo uma sombra quase imperceptível traz o eco da idéia de um julgamento, então precisamos ter muitas explicações razoáveis.
Todo este latifúndio assume uma capacidade de parecer concreto que se torna mais e mais poderosa conforme cavalgamos por ele, isto é,  conforme pensamos a partir da idéia do ‘eu’ que atua e merece. E nós adoramos apreciar nossa grande propriedade, basta observar o quanto ‘sonhamos acordados’.  Outro dia ouvi uma música que dizia algo como “sonhar não custa nada, sonhar acordado, etc.”. Sonhar acordado custa, e custa muito mais do que imaginamos. 
É nas terras deste latifúndio que tudo o que acontece parece acontecer para a gente. Atenção: é a certeza ignorante da justiça do merecimento que nos leva ao centro egoísta do universo. Em outras paragens isto não é verdadeiro. Quando nos apresentamos presentes ao instante que se sucede e reagimos a ele naturalmente não há necessidade do conceito de justiça ou merecimento. Atuamos em harmonia com tudo mais que ocorre, e neste alinhamento há a paz e a liberdade de não sermos o centro do universo, mas sim o universo todo no holograma da Consciência.
abraços
marcos

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O jardim e a mata

Alguns poucos livros eu nunca deixo que se afastem de mim. Um deles é o “I am That”, do Nisargadatta Maharaj. Me deparei com um pequeno trecho especial agora há pouco:
“Não peça para a mente confirmar o que está além da mente”.
Não é de chacoalhar as certezas? Esta é uma típica ‘pulga atrás da orelha’ que o caminho de auto-conhecimento - em especial linhas de jnana yoga, caminho do conhecimento - fermenta e faz brotar. 
É como se tivéssemos a sensação de ter um belo jardim, onde aparentemente tudo está em seu perfeito lugar, uma ordem criada pela nossa idéia do que é um jardim: flores roxas neste canto, um pequeno arbusto ali, um longo gramado bem aparado. Porém aos poucos começamos a duvidar da realidade deste jardim, como em um sonho ele parece ter realidade só quando pensamos sobre ele de um modo específico. Quando deixamos de pensar deste modo o jardim parece perder o suporte de realidade, e algo diferente transparece. As flores por vezes somem, por vezes parecem imensas trepadeiras selvagens. Aquela sensação de ordem e conforto por vezes dá lugar a uma sensação de se estar virado do avesso, com um pequeno frio na barriga. Será que o meu maravilhoso jardim não é de verdade?
Aos poucos a dúvida sobre a realidade do jardim cresce, e começa a ser maior do que a certeza. Cada vez mais elementos perdem a consistência que pareciam ter. O intocável gramadao por vezes parece um caótico solo de uma mata atlântica, cheio de folhas, raízes e animais pequenos. Percebemos que este jardim só traz sentido de realidade quando inserido em um conjunto de condições que criamos ao formular nossos pensamentos sobre o que é a própria realidade. Finalmente começamos a perceber que o jardim  é apenas um cenário em 3D que nos dava a impressão digital do jardim. A tela em 3D dá a sensação de controle e conforto... para o “eu”. Uma realidade existente apenas quando pensada. Uma realidade inexistente. A mata do jardim real traz a surpresa, a compreensão o caos e a ordem, a sensação de plenitude e entrega.
Nesta metáfora o jardim real (a mata) só se percebe a partir das próprias naturezas das plantas e objetos que compõem, não se percebe “de fora”. O presente e a realidade nunca são “de fora”, não são vistos, sentidos ou percebidos de fora. Cada coisa só é realmente o que é quando é percebida a partir dela mesma. Para perceber as coisas deste modo há que se silenciar a mente. Assim a mata (realidade) nunca é percebida por esta mente. É por isso que não se pode pedir para a mente (que criou o jardim em 3D através de incessantes pensamentos condicionantes) atestar a existência da mata.
De modo análogo, não se pode pedir para a mente linear nos dar a certeza da compreensão dos estados de consciência associados ao presente e não duais. A mente linear é a causa concreta da dualidade, da diferenciação (do jardim). O que existe de verdade está disponível para ser vivido e compreendido pois há consciência em todos os estados; mas não está disponível para ser vivido pelo “eu”. 

abraços
marcos

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Onde tudo começa

Conversava outro dia com uma pessoa que buscava traçar paralelos entre as várias visões de diferentes linhas filosóficas e de busca. Me deparei com uma sutil questão - e muitas vezes estas sutilezas estão densa e concretamente exteriorizadas em palavras. Apareceu delicadamente em uma frase algo como “... e então evoluímos para...”. O que está oculto por trás desta simples colocação? 
A primeira grande ilusão aí oculta é o conceito de algo que evolui. 
A segunda grande ilusão é condição para a primeira, e pode ser resumida na certeza de que a mente individual é consciente em si mesma. 
Esta sutil condição permite o alastramento da falsa sensação de individualidade - de algo que se acredita ator e agente da realidade. Este ator - que só existe quando é recordado, isto é, quando a memória é agitada - se crê em evolução em direção a um outro estado. A ilusoriedade da existência do ator é suficiente para negar a condição de evolução real. Um estado de vida no instante presente  - ainda que fugaz - já não permite a existência deste ator. Assim não há quem evolua; se é que se pode considerar um estado de consciência presente mais “evoluído”, o eu (ator) já não faz parte deste estado. Também não há um “outro” lugar (ou dimensão) para onde se vá. A percepção da realidade  - assim como o agente de cognição que é consciente e percebe - é que muda.
Do ponto de vista Vedanta a mente não é auto-luminosa, isto é, ela não tem a capacidade de ser consciente por si mesma. Assim como a lua reflete a luz do sol, e assim parece possuir luz própria, também a mente individual possui a condição de atenção por conta da Consciência, substrato de toda a realidade. É por isso que à mente linear não  lhe é possível compreender a Consciência (ou a Realidade, ou o Amor) pois esta última é prévia à primeira.
Assim tudo começa no ponto em que percebemos a ilusão da existência em si mesma de nossa mente. Esta é uma construção favorita da personalidade, naturalmente, pois traz vida e importância para a mesma. Esta construção se sustenta a cada agitação mental desnecessária, a cada recordação que fazemos de nós mesmos. É por isso que para o aprendizado de meditação tudo começa com a aquietação da mente.
abraços
marcos

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O que permanece?

A raiz do sofrimento humano é a mudança. Uma grande fundamento dos ensinamentos do budismo é a impermanência. A compreensão - ainda que em seus estágios iniciais – da realidade mostra quão ingênua e profunda é a crença no controle e na permanência. Em toda a área e volume do castelo interno construído sob a ilusão da personalidade não existe sequer um tijolo que seja permanente. Escolhendo o exemplo mais doído: a própria personalidade é absoluta e inevitavelmente impermanente; para não gastarmos argumentos basta considerar a morte. A história pessoal cimentada na memória busca incessantemente a propriedade de continuidade e identidade única, quando basta um exame mais límpido para percebermos como a própria trilha histórica deste “eu” é uma colcha de retalhos mal costurada, com identidades variadas e variantes, tanto em relação a situações específicas quanto em relação à passagem do tempo. Então o que resta no nosso mundo interno que seja permanente?

Naturalmente toda a realidade externa percebida é absolutamente impermanente; a natureza o demonstra a cada ciclo, a cada era glacial, a cada ano, a cada minuto. Um bosque observado às 9h11min30seg não o mesmo bosque observado às 9h11min31seg. Por um outro lado toda a estrutura do universo é dinâmica. Quando olhamos pelo microscópio a constituição das partículas atômicas é intrinsecamente incerta (Heisenberg), vazia e em movimento. Quando olhamos pelo telescópio a constituição das galáxias e do universo distante basicamente existe vazio e movimento – e incerteza. Então o que resta no mundo externo que seja permanente?

Ainda mais, porque cargas d´agua haveriam de ser permanentes justamente as condições de existência de nosso pouco humilde “eu” se acreditando atuante, importante e real?

A condição de permanência em nosso mundo de pensamentos está intimamente vinculada à crença e necessidade de controle. Necessitamos do conforto psicológico de acreditar constantes certas referências. Referências externas (casa, cidade, família, emprego) e referências internas (identidade). São todas referências em constante mudança. E cremos que podemos controlar o andamento do mundo de acordo com nosso próprio óculos – engano brutal, não há nada que possa ser controlado neste sentido. A memória presta uma ajuda enorme em solidificar a ilusão de controle pois cria uma mesma imagem que se sobrepõe ao presente, à realidade. É por isso que o bosque das 9h11min31seg não parece diferente daquele das 9h11min30seg.
Enquanto nos identificamos através de referências, a cada vez que há mudanças nestas referências há sofrimento. A mente, em sua porção “ahamkara”, fundamenta a ilusão da posse sobre a realidade através das referências criadas, sendo a mais sutil de todas a noção do “eu” contínuo.

Assim o processo de prática meditativa – ao final o caminho do auto-conhecimento – é um contínuo despertar para a ilusão do que parece calçar nossa identidade. A busca sem descanso do que de fato permanece ao longo de todas as experiências pode nos levar a compreender com discernimento quem somos e o que é o mundo. Nisargadatta disse algo como “aquilo que não é real nunca existiu, aquilo que é permanente nunca morre”.


abraços


marcos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estados possíveis

O modelo do átomo nuclear - análogo ao sistema planetário – é aquele que mais comumente temos como representação do mundo atômico, e traz de modo subjacente a idéia de bolinhas concretas, massa firme, como bolas de bilhar. Algo concreto,observável, “real”.
A física quântica avançou neste campo e concluiu que não existem tais “bolinhas”, mas sim faixas (degraus) em que existem ondas de probabilidade de existência de matéria. Esta função de probabilidade da onda é que define sua natureza. Há uma probabilidade de a partícula estar em determinada região ou em outra dentro destas faixas. Os estados de existência são determinados pela probabilidade de ocorrência nestas faixas. A energia existe fisicamente em pacotinhos de tamanho determinado, e as condições de existência da matéria são neste sentido “quantizadas”, ou seja, existem regiões em que é permitida a existência. Por isto se usa a expressão saltos quânticos, há um salto de uma faixa a outra, sem que se percorra um caminho entre as duas.
O Vedanta Advaita explica a realidade através da relação observador-objeto de modo análogo. Existem níveis possíveis de relação entre aquele que observa e aquilo que é observado, são faixas de probabilidade de nos relacionarmos no mundo. Analogamente à física é possível “saltar” de um estado para outro, mas sem que se percorra um caminho. O ocidente reconhece dois níveis de consciência: vigília e sono. Para o Vedanta existem cinco estados possíveis: sono, pensamento, observação, concentração e meditação. A realização de si mesmo ou estado último, é chamado samadhi. Estes estados são analisados e explicados por Patanjali, Sankara, e em mais detalhes e de modo mais didático por Sesha.
Conforme nos relacionamos de modo mais ou menos presente em relação à realidade podemos nos encontrar em um ou outro estado. A questão fundamental para nós - aprendizes de aprendizes - compreendermos é que o agente de percepção (sujeito) que é consciente do que ocorre em cada um dos estados é diferente. O sujeito a que estamos habituados é a personalidade, o “eu”, que está presente no estado de pensamento. Como nos habituamos a viver 99,9% do tempo pensando, nos habituamos a acreditar que o “eu” é o único agente de percepção que existe. É um grande engano. Este “eu” necessita ser pensado recorrentemente para existir; em outros estados de relacionamento consciente com a realidade outros agentes de percepção (testemunhas) são conscientes do que ocorre. O estado mais profundo e pleno de consciência – a meditação – por exemplo, tem como agente consciente o Atman, nossa essência mais profunda. Nas palavras de Sesha “Atman é aquele agente cuja condição consciente, ao conhecer tudo o que potencialmente existe, não detecta o conhecido como diferente de si mesmo”.
O estado mais “próximo” de nossa habitual e pensada realidade que traz um agente de percepção que não é o “eu” é chamado de observação (pratiahara em sânscrito). Este é o estado que em nossa linguagem comum descrevemos como “estar muito concentrado no que faz”. Já neste estado não há o comum sujeito “eu”, mas, claramente, há consciência. O instante de surpresa ante uma pintura espetacular, um atleta em plena competição, um músico virtuoso se apresentando, a leitura de um livro que se gosta muito, são exemplos de estado de observação. São instantes em que o “eu” não se encontra, instantes em que somos mais presentes, mais produtivos, mais plenos e vivos. Instantes que logo fogem quando acionamos de volta o mecanismo da memória, e em um salto quântico reaparece o “eu”, buscando se apropriar de um momento que não viveu.
A prática interna e externa possibilitam que comecemos a reconhecer em que estado nos encontramos: sono? pensamento? observação?... Este músculo do discernimento que começa a ser desenvolvido é o sustentáculo da trilha do auto-conhecimento.


abraços,


marcos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

mente, o órgão interno

“A mente não é a base da cognição, não tem luz própria, nem possui consciência por si mesma. É um instrumento de cognição.” (Sesha)
No ocidente nos acostumamos a designar uma série de funções e atributos com uma mesma palavra: mente. O Vedanta (assim como outras escolas orientais) designa a mente como um órgão interno chamado Antakarana, e explica em detalhes o funcionamento desta mente a partir de 4 consituintes principais.
  • Chitta: matéria mental armazenada em forma de memória.
  • Manas: atividade mental manifestada quando chitta está em movimento (pensamento).
  • Ahamkara: sentido de posse, eu-dade.
  • Budhi: reflexo da Consciência não-dual, assento da Consciência individual.
Assim como a lua brilha apenas por reflexo dos raios solares, também a mente não possui luz própria, mas adquire a condição de cognição (atenção) por reflexo da Consciência não-dual. A raiz da cognição não está na mente individual - eis aqui um grande marco de diferença para as filosofias e tradições ocidentais. A mente é apenas um instrumento de cognição, e não a raiz da mesma.
Quando existem modificações no estado natural da mente é como se agitássemos um copo de água cheio de areia: ele se torna turvo. Quando a mente alcança um estado natural de repouso é como se a areia do copo sedimentasse no fundo, e resta a água cristalina. A atividade mental de pensar (manas) é a agitação de chitta, isto é, a agitação da memória. Quando a mente entra em um estado de agitação aparece ahamkara, isto é, a sensação de posse sobre as percepções, atos, pensamentos. Se a mente está em seu estado natural não há agitação de memórias, não há pensamentos, e não surge a condição para que ahamkara apareça, isto é, não surge o famosíssimo “eu”, e budhi pode emergir.
Assim se diz que havendo conhecimento (budhi) não há eu, e havendo eu não há conhecimento! Vejam bem: a própria noção de eu é uma modificação mental, uma agitação, e havendo agitação budhi não tem condições de emergir. Assim também se diz que havendo dúvida (pensamento, agitação) não há conhecimento (budhi), mas havendo conhecimento não há dúvida!
A prática de silêncio interno busca justamente aquietar as agitações mentais. Sem a presença do “eu” uma pequena porta se abre - budhi, o reflexo da Consciência - para uma jornada eterna.
abraços 
Marcos