A realidade não é o que você pensa.
A realidade é o que está continuamente acontecendo agora.
A realidade não é seu pensamento.
O paradoxo é que se você estiver pensando esta será , sim, concretamente, sua realidade.
A realidade não é o sonho bom sobre um futuro desejado.
A realidade não é a tristeza (ou alegria) de um passado ido.
A realidade não existe na sua mente viajante, a não ser que você permaneça embarcando em suas viagens continuamente, navegando em sua própria realidade auto-construída, mutante e variável conforme a meteorologia dos humores, dos contragostos, e dos gostos.
A realidade existe anterior e subjacente a qualquer juízo ou interpretação.
A realidade está logo ali... experimente... entre um pensamento e outro, naquele instante silencioso... em um fluxo atemporal.
A realidade não é o que você pensa, a não ser que você esteja pensando!
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Realidade e Ilusão
Estava outro dia conversando com um grupo sobre a realidade, e como saber se estamos presentes. Fora algumas pessoas que me olhavam com a certeza de que eu era absolutamente louco o grupo caiu naquele espaço da dúvida sincera em que há um leve chacoalho nas premissas do modo habitual de percepção da realidade.
Parece algo muito simples à primeira vista... mas a questão é justamente esta primeira vista. É como se resvalássemos na realidade (esta ‘primeira vista’) e assim que a atenção traz as primeiras informações do que é observado voltamos a atenção para a memória, buscando uma definição anteriormente registrada, e, quando a encontramos, nos satisfazemos com o registro passado que define e restringe a realidade que se apresenta. A partir deste ponto a realidade morre, e nos relacionamos com nossa própria memória.
Se mantivéssemos a primeira vista por mais tempo, isto é, se mantivéssemos a atenção na realidade, sem trazê-la de volta para a memória, começaríamos a perceber e observar o mundo, o objeto, que se apresenta naquele instante - sem nome, sem registro anterior reducionista.
As coisas são realmente aquilo que são quando quem observa não é diferente daquilo que é observado, diz Sesha.
Nos aproximamos da realidade quando não pensamos sobre ela, isto é, quando não a interpretamos e reduzimos. Experimente observar atentamente a folha de uma árvore. Por um longo, longo instante, observe cada detalhe, sem trazer a atenção à memória para resgatar a palavra “folha”. Esta palavra “folha” começa a perder o significado, soa até estranha, conforme a atenção permanece focalizada no objeto real. Aquilo que é observado é muito diferente, maior e mais concreto do que a palavra pode definir. E a relação que se dá entre aquilo que observa e aquilo que é observado também muda. Segundo o Vedanta não existe um observador (o eu), onde reside a consciência e a capacidade de atender algo, e um objeto percebido (o mundo). O próprio campo de cognição eu+folha é consciente em si mesmo. É isto que se começa a perceber em um estado de presença mais intenso. Entretanto, no dia a dia habitual, o filtro criado pela sensação de identidade egóica da mente (ahamkara) gera a ilusão (maya) de separação, e assim nos habituamos a crer que ‘eu’ sou consciente e observo um mundo diferente de mim.
Toda vez que nos relacionamos com uma interpretação daquilo que existe de fato nos relacionamos apenas com nossas próprias criações, e este que se relaciona deste modo é o ‘eu’ personalístico com sua história e hábitos. A este sujeito - este ‘eu’- não lhe é permitido conhecer a realidade. Quando se conhece a realidade - Presente - não há um ‘eu’ que se reconheça consciente, o próprio sistema se reconhece consciente. Assim é o limiar da não dualidade, a aurora da única liberdade real.
abraços
marcos
Parece algo muito simples à primeira vista... mas a questão é justamente esta primeira vista. É como se resvalássemos na realidade (esta ‘primeira vista’) e assim que a atenção traz as primeiras informações do que é observado voltamos a atenção para a memória, buscando uma definição anteriormente registrada, e, quando a encontramos, nos satisfazemos com o registro passado que define e restringe a realidade que se apresenta. A partir deste ponto a realidade morre, e nos relacionamos com nossa própria memória.
Se mantivéssemos a primeira vista por mais tempo, isto é, se mantivéssemos a atenção na realidade, sem trazê-la de volta para a memória, começaríamos a perceber e observar o mundo, o objeto, que se apresenta naquele instante - sem nome, sem registro anterior reducionista.
As coisas são realmente aquilo que são quando quem observa não é diferente daquilo que é observado, diz Sesha.
Nos aproximamos da realidade quando não pensamos sobre ela, isto é, quando não a interpretamos e reduzimos. Experimente observar atentamente a folha de uma árvore. Por um longo, longo instante, observe cada detalhe, sem trazer a atenção à memória para resgatar a palavra “folha”. Esta palavra “folha” começa a perder o significado, soa até estranha, conforme a atenção permanece focalizada no objeto real. Aquilo que é observado é muito diferente, maior e mais concreto do que a palavra pode definir. E a relação que se dá entre aquilo que observa e aquilo que é observado também muda. Segundo o Vedanta não existe um observador (o eu), onde reside a consciência e a capacidade de atender algo, e um objeto percebido (o mundo). O próprio campo de cognição eu+folha é consciente em si mesmo. É isto que se começa a perceber em um estado de presença mais intenso. Entretanto, no dia a dia habitual, o filtro criado pela sensação de identidade egóica da mente (ahamkara) gera a ilusão (maya) de separação, e assim nos habituamos a crer que ‘eu’ sou consciente e observo um mundo diferente de mim.
Toda vez que nos relacionamos com uma interpretação daquilo que existe de fato nos relacionamos apenas com nossas próprias criações, e este que se relaciona deste modo é o ‘eu’ personalístico com sua história e hábitos. A este sujeito - este ‘eu’- não lhe é permitido conhecer a realidade. Quando se conhece a realidade - Presente - não há um ‘eu’ que se reconheça consciente, o próprio sistema se reconhece consciente. Assim é o limiar da não dualidade, a aurora da única liberdade real.
abraços
marcos
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O que permanece?
A raiz do sofrimento humano é a mudança. Uma grande fundamento dos ensinamentos do budismo é a impermanência. A compreensão - ainda que em seus estágios iniciais – da realidade mostra quão ingênua e profunda é a crença no controle e na permanência. Em toda a área e volume do castelo interno construído sob a ilusão da personalidade não existe sequer um tijolo que seja permanente. Escolhendo o exemplo mais doído: a própria personalidade é absoluta e inevitavelmente impermanente; para não gastarmos argumentos basta considerar a morte. A história pessoal cimentada na memória busca incessantemente a propriedade de continuidade e identidade única, quando basta um exame mais límpido para percebermos como a própria trilha histórica deste “eu” é uma colcha de retalhos mal costurada, com identidades variadas e variantes, tanto em relação a situações específicas quanto em relação à passagem do tempo. Então o que resta no nosso mundo interno que seja permanente?
Naturalmente toda a realidade externa percebida é absolutamente impermanente; a natureza o demonstra a cada ciclo, a cada era glacial, a cada ano, a cada minuto. Um bosque observado às 9h11min30seg não o mesmo bosque observado às 9h11min31seg. Por um outro lado toda a estrutura do universo é dinâmica. Quando olhamos pelo microscópio a constituição das partículas atômicas é intrinsecamente incerta (Heisenberg), vazia e em movimento. Quando olhamos pelo telescópio a constituição das galáxias e do universo distante basicamente existe vazio e movimento – e incerteza. Então o que resta no mundo externo que seja permanente?
Ainda mais, porque cargas d´agua haveriam de ser permanentes justamente as condições de existência de nosso pouco humilde “eu” se acreditando atuante, importante e real?
A condição de permanência em nosso mundo de pensamentos está intimamente vinculada à crença e necessidade de controle. Necessitamos do conforto psicológico de acreditar constantes certas referências. Referências externas (casa, cidade, família, emprego) e referências internas (identidade). São todas referências em constante mudança. E cremos que podemos controlar o andamento do mundo de acordo com nosso próprio óculos – engano brutal, não há nada que possa ser controlado neste sentido. A memória presta uma ajuda enorme em solidificar a ilusão de controle pois cria uma mesma imagem que se sobrepõe ao presente, à realidade. É por isso que o bosque das 9h11min31seg não parece diferente daquele das 9h11min30seg.
Enquanto nos identificamos através de referências, a cada vez que há mudanças nestas referências há sofrimento. A mente, em sua porção “ahamkara”, fundamenta a ilusão da posse sobre a realidade através das referências criadas, sendo a mais sutil de todas a noção do “eu” contínuo.
Assim o processo de prática meditativa – ao final o caminho do auto-conhecimento – é um contínuo despertar para a ilusão do que parece calçar nossa identidade. A busca sem descanso do que de fato permanece ao longo de todas as experiências pode nos levar a compreender com discernimento quem somos e o que é o mundo. Nisargadatta disse algo como “aquilo que não é real nunca existiu, aquilo que é permanente nunca morre”.
abraços
marcos
Naturalmente toda a realidade externa percebida é absolutamente impermanente; a natureza o demonstra a cada ciclo, a cada era glacial, a cada ano, a cada minuto. Um bosque observado às 9h11min30seg não o mesmo bosque observado às 9h11min31seg. Por um outro lado toda a estrutura do universo é dinâmica. Quando olhamos pelo microscópio a constituição das partículas atômicas é intrinsecamente incerta (Heisenberg), vazia e em movimento. Quando olhamos pelo telescópio a constituição das galáxias e do universo distante basicamente existe vazio e movimento – e incerteza. Então o que resta no mundo externo que seja permanente?
Ainda mais, porque cargas d´agua haveriam de ser permanentes justamente as condições de existência de nosso pouco humilde “eu” se acreditando atuante, importante e real?
A condição de permanência em nosso mundo de pensamentos está intimamente vinculada à crença e necessidade de controle. Necessitamos do conforto psicológico de acreditar constantes certas referências. Referências externas (casa, cidade, família, emprego) e referências internas (identidade). São todas referências em constante mudança. E cremos que podemos controlar o andamento do mundo de acordo com nosso próprio óculos – engano brutal, não há nada que possa ser controlado neste sentido. A memória presta uma ajuda enorme em solidificar a ilusão de controle pois cria uma mesma imagem que se sobrepõe ao presente, à realidade. É por isso que o bosque das 9h11min31seg não parece diferente daquele das 9h11min30seg.
Enquanto nos identificamos através de referências, a cada vez que há mudanças nestas referências há sofrimento. A mente, em sua porção “ahamkara”, fundamenta a ilusão da posse sobre a realidade através das referências criadas, sendo a mais sutil de todas a noção do “eu” contínuo.
Assim o processo de prática meditativa – ao final o caminho do auto-conhecimento – é um contínuo despertar para a ilusão do que parece calçar nossa identidade. A busca sem descanso do que de fato permanece ao longo de todas as experiências pode nos levar a compreender com discernimento quem somos e o que é o mundo. Nisargadatta disse algo como “aquilo que não é real nunca existiu, aquilo que é permanente nunca morre”.
abraços
marcos
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