Outro dia meu filho mais velho me mostrou um vídeo na internet chamado “as pedras”, ou algo assim. Muito divertido, mostrava o mundo, a história, sob o ponto de vista de duas pedras. Mais interessante ainda, mostrava o tempo sob o ponto de vista das pedras. Para os humanos e animais que por ali viviam as pedras pareciam imóveis, mas a certa altura o filme passa a rodar na velocidade do tempo relativo das pedras. Como se cada dezena de anos humanos fosse um segundo para as pedras, elas interagem e conversam sobre a rapidíssima ação humana. Cidades avancam e decaem em segundos, e ali estão as pedras dialogando.
Isto se assemelha à comparação entre a identidade egóica e aquilo que seria o observador final, nossa essência. Nossa idéia de personalidade - a ilusão de permanência e concretude - é como o tempo humano do filme: fulgaz, transitória, inconstante. Aquilo que observa é - um pouco - como as pedras: permanece, ali, sempre.
Diz-se na sabedoria hindu que um kalpa (um dia ou uma noite de Brahma) equivale a 1.000 yugas (eras), e uma yuga equivale aproximadamente a 4.320.000 anos. Assim um dia completo de Brahma equivaleria a 8.640.000.000 anos. Sem levar em conta cálculos, a idéia da relatividade é que importa.
Nos movemos intensamente, desesperadamente, entre pensamento e ação, julgamento e expectativa, frustração e desejo, mais ação e mais pensamentos. Não temos o tempo para buscar a paciência e a diligência de sentar e observarmos a nós mesmos. Não temos a humildade de aceitar o instante e continuamos a depositar nossas fichas emocionais em uma caderneta de poupança a ser resgatada em um futuro quando tudo estará conforme sonhamos, um futuro que por definição não existe, não chega nunca. Não temos a coragem de abrir mão das indulgências mais confortáveis, nem das mais sutis. Assim permancemos mergulhados em nosso mar de criações, em nosso berçário de hábitos e tendências.
Se nos decidirmos por um instante a advertir o que se passa naquele mesmo instante perceberemos que se dilui a diferença entre algo que faz e algo que recebe, entre sujeito e objeto, entre perceptor e percebido. Neste instante mesmo não há tempo. Se este instante é reconhecido toda a estrutura de certezas acerca de nossa idéia da permanência da personalidade e da necessidade de uma identidade egóica aparentemente independente começa a ser colocada em dúvida.
De outro modo nos escapa, sempre, aquilo que esteve, está e estará eternamente ali. Aquilo que nos permite ser conscientes, conhecer, amar e existir. Aquilo que subexiste antes, durante e depois de nós. Aquilo para o qual o tempo não existe como variável.
Abraços,
Marcos
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
467.200 horas
Precisamos aprender a ouvir o som da atenção. Precisamos aprender a sentir a consistência firme de um estado de presença. A atenção é uma propriedade da Consciência, a propriedade que permite que tenhamos capacidade de cognição como indivíduos.
Sem atenção não perceberíamos coisa alguma, o fato de percebermos algo denota a existência da atenção. De verdade nunca estamos desatentos, pois a atenção sempre está; pode estar direcionada para algo que não seja o que ocorre no instante presente, e estaríamos desatentos ao que ocorre naquele instante, mas ainda assim atentos a alguma outra corrente de informações, como nossos devaneios, por exemplo.
A atenção está presente continuamente, segundo após segundo, um jorro incessante; desde o nascimento até a morte, a questão é: o que fazemos com ela? para onde direcionamos este jorro ao longo de nossas 467.200 horas de vida (para uma vida de 80 anos, em vigília de 16 horas por dia)? Supondo que nos primeiros seis anos de vida estávamos mais presentes, e que talvez, por misericórdia ou sorte, em 5 minutos a cada hora estejamos realmente presentes (sendo bem bondoso na estimativa), chegamos à conclusão que desperdiçamos 68 anos de vida em vigília em nossos devaneios... aleluia!
Imaginem a potência de 68 anos de hábitos de pensamento continuamente pisados e repisados! Assim se criam as tendências de nexo entre os ciclos de vida, assim se criam as condições kármicas, assim se perpetua a roda da ignorância.
Considerando que todos nós que lemos este texto ainda temos disponibilidade de atenção, há que se ter o senso de urgência de se perguntar o que realmente desejamos fazer com este fluxo incessante de vida e presença representado pela atenção.
Há que se aprender a escutar o som da atenção nas práticas de meditação interna, notar suas nuances, sua potência, sua volatilidade; há que se investigar a atenção trazendo-a para si mesma. Esta prática exercita e fortalece a capacidade de se perceber perdido em devaneios no dia a dia. Há que se estar pronto para, ao primeiro sinal de distração, trazer a atenção de volta para a realidade que se apresenta, uma e outra vez. A realidade, em seus múltiplos objetos que se sucedem no instante presente, puxa e demanda nossa atenção, temos apenas que deixar que o fluxo natural siga seu rumo, isto é, quando em ação no dia a dia a realidade é prioritária, não nossos devaneios. A atenção é demandada pelo presente que acontece, pelo mundo. A mente linear é que, ao gerar a ilusão da diferença, da individualidade criadora, puxa a atenção de volta para si mesma, para os devaneios eternos que dão a sensação de permanência a um “eu” impermanente. Há que se liberar o navegar no fluxo de atenção natural para buscar a cor real e não sua interpretação; o som que se ouve e não sua memória; o sabor do instante e não sua implicação futura.
abraços
marcos
Sem atenção não perceberíamos coisa alguma, o fato de percebermos algo denota a existência da atenção. De verdade nunca estamos desatentos, pois a atenção sempre está; pode estar direcionada para algo que não seja o que ocorre no instante presente, e estaríamos desatentos ao que ocorre naquele instante, mas ainda assim atentos a alguma outra corrente de informações, como nossos devaneios, por exemplo.
A atenção está presente continuamente, segundo após segundo, um jorro incessante; desde o nascimento até a morte, a questão é: o que fazemos com ela? para onde direcionamos este jorro ao longo de nossas 467.200 horas de vida (para uma vida de 80 anos, em vigília de 16 horas por dia)? Supondo que nos primeiros seis anos de vida estávamos mais presentes, e que talvez, por misericórdia ou sorte, em 5 minutos a cada hora estejamos realmente presentes (sendo bem bondoso na estimativa), chegamos à conclusão que desperdiçamos 68 anos de vida em vigília em nossos devaneios... aleluia!
Imaginem a potência de 68 anos de hábitos de pensamento continuamente pisados e repisados! Assim se criam as tendências de nexo entre os ciclos de vida, assim se criam as condições kármicas, assim se perpetua a roda da ignorância.
Considerando que todos nós que lemos este texto ainda temos disponibilidade de atenção, há que se ter o senso de urgência de se perguntar o que realmente desejamos fazer com este fluxo incessante de vida e presença representado pela atenção.
Há que se aprender a escutar o som da atenção nas práticas de meditação interna, notar suas nuances, sua potência, sua volatilidade; há que se investigar a atenção trazendo-a para si mesma. Esta prática exercita e fortalece a capacidade de se perceber perdido em devaneios no dia a dia. Há que se estar pronto para, ao primeiro sinal de distração, trazer a atenção de volta para a realidade que se apresenta, uma e outra vez. A realidade, em seus múltiplos objetos que se sucedem no instante presente, puxa e demanda nossa atenção, temos apenas que deixar que o fluxo natural siga seu rumo, isto é, quando em ação no dia a dia a realidade é prioritária, não nossos devaneios. A atenção é demandada pelo presente que acontece, pelo mundo. A mente linear é que, ao gerar a ilusão da diferença, da individualidade criadora, puxa a atenção de volta para si mesma, para os devaneios eternos que dão a sensação de permanência a um “eu” impermanente. Há que se liberar o navegar no fluxo de atenção natural para buscar a cor real e não sua interpretação; o som que se ouve e não sua memória; o sabor do instante e não sua implicação futura.
abraços
marcos
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Particular e total
No último encontro do grupo de meditação fizemos uma prática bem divertida (pelo menos eu achei...) de atenção externa. Algo como escolher um objeto e mergulhar nele por 20 minutos. Até, quem sabe, poder realmente descansar no objeto.
Como sabemos “as coisas são o que realmente são quando quem observa não é diferente do que é observado”. Hoje lia um livreto de quadrinhos zen antes de uma reunião em um belo escritório, e uma das tirinhas dizia algo como: a flor é uma flor quando quem a observa é uma flor. É o mesmo. Quando a atenção pousa sem esforço na realidade os pensamentos e interpretações cessam, e a permanência da atenção no presente leva a um estado em que a relevância do observador gradualmente diminui, e prepondera o objeto (a realidade). Até que já não há alguém que observa algo, apenas o algo - apenas o presente e a realidade que se apresenta naquele instante. Há presença e consciência na realidade viva, sem a presença de alguém que se diga consciente de uma realidade viva.
Segundo o Vedanta Advaita a realidade não-dual é o que realmente existe; por conta de limitantes da mente nos habituamos a velar (a realidade não-dual) e projetar (uma realidade não real), a isto se chama maya. Um dos fatores limitantes, conforme explicado por Ivan, é o limitante espacial.
A ver: podemos observar um objeto (externo ou interno) de duas formas, totalizando-o - nos perdendo no objeto - ou particularizando-o - ou seja, nos distanciando do objeto. Normalmente, quando estamos no dia a dia, nós, por hábito, nos distanciamos da realidade apresentada (através de pensamentos, interpretações, etc.). Por outro lado, quando estamos buscando a quietude interna nós, por hábito, mergulhamos em nossos pensamentos e fantasias. Pois o que devemos fazer é justamente o oposto! Quando ativos no mundo devemos nos totalizar com o mundo, de modo que os objetos ganhem relevância, e não o sujeito que observa. Quando quietos internamente devemos nos distanciar do que se apresenta, ou seja, particularizar os pensamentos e emoções de modo que o observador ganhe relevância, e não os objetos.
Até parece algo técnico, frio... mas a prática mostra que é bem longe disso a experiência real.
Experimentar, dia sim dia também, esta postura atenta pode mostrar novas trilhas, até, quem sabe, conseguirmos aprender a descansar na realidade que se apresenta para nós a cada instante.
abraços
marcos
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Meditação Externa
A idéia habitual que temos sobre meditação é aquela do sujeito sentado de olhos fechados – quem sabe até com um incenso, roupas indianas, etc. Do ponto de vista Vedanta esta é uma prática interna, uma das duas possibilidades de prática possíveis. A segunda modalidade de prática possível é a prática externa.
Considerando nossos sentidos como fronteiras o campo de cognição externo é aquele que é percebido através dos sentidos: tato, audição, olfato, etc. Em contrapartida o campo interno é aquele percebido diretamente através da mente, sem a intermediação dos sentidos.
Para que a prática interna seja válida é necessário que os sentido sejam desconectados. Com a prática externa ocorre o oposto: os sentidos devem estar totalmente conectados com a realidade externa presente. Por exemplo: se você está comendo o sentido mais demandado será o paladar, se você está ouvindo música será a audição, etc.
O mais divertido é que com esta simples constatação caem por terra todos os argumentos para “não ter tempo de praticar a meditação...”, simplesmente porque a todo momento (de vigília, isto é, quando não estamos dormindo) a prática está à sua disposição uma vez que a todo momento se está vivo.
Então quando se aplica a prática externa? Sempre que não se estiver imerso na prática interna. Quanto tempo sobra para devaneios? Nenhum.
A prática externa está intimamente ligada com o caminho da ação (karma yoga) uma vez que a execução de ações sempre ocorre com uma execução externa. Esta discussão fica para um outro dia.
Um ponto chave da prática externa é que ela requer que estejamos atentos ao que acontece, ao mundo, à realidade apresentada naquele instante.
Como podemos saber se estamos atentos à realidade? Parece uma pergunta óbvia, mas de fato mesmo este discernimento primário é extremamente sutil. Nosso modus operandi mais habitual é o de inventar um presente imaginário através dos pensamentos, e vivê-lo acreditando que estamos vivendo o instante presente.
Façamos um pequeno teste: ligue seu i-pod, i-touch, ou walkman se você for mais velho e ainda tiver um; coloque uma música. De olhos abertos, coloque sua atenção na música, em cada tom. Tente perceber o que aconteceu com a sua percepção visual quando este movimento ocorreu. Agora, com a música ligada, tente focalizar sua visão em um objeto à sua frente. Tente perceber o que ocorreu com a percepção da música enquanto este movimento ocorre. Este é um exercício muito sutil, e pode requerer alguma prática, mas mostra um pouco o foco da atenção. Agora ligue novamente a música, colocando nela seu foco de atenção. Em seguida tente lembrar de uma situação de trabalho que causou ansiedade ou estresse. Perceba o que ocorreu com a percepção auditiva.
Quando a atenção se volta para pensamentos a atenção à realidade externa diminui. Esta é a chave para percebermos se estamos de fato atentos à realidade, a cada momento.
A presença na realidade que se sucede requer um contínuo forjar da mente para que a atenção escape das armadilhas dos devaneios e retorne, uma e outra vez, para a realidade que de fato acontece. Este pode ser um forjar de dias, anos, vidas, mas ao final frutificará em discernimento (viveka) acerca da realidade.
abraços,
marcos
Considerando nossos sentidos como fronteiras o campo de cognição externo é aquele que é percebido através dos sentidos: tato, audição, olfato, etc. Em contrapartida o campo interno é aquele percebido diretamente através da mente, sem a intermediação dos sentidos.
Para que a prática interna seja válida é necessário que os sentido sejam desconectados. Com a prática externa ocorre o oposto: os sentidos devem estar totalmente conectados com a realidade externa presente. Por exemplo: se você está comendo o sentido mais demandado será o paladar, se você está ouvindo música será a audição, etc.
O mais divertido é que com esta simples constatação caem por terra todos os argumentos para “não ter tempo de praticar a meditação...”, simplesmente porque a todo momento (de vigília, isto é, quando não estamos dormindo) a prática está à sua disposição uma vez que a todo momento se está vivo.
Então quando se aplica a prática externa? Sempre que não se estiver imerso na prática interna. Quanto tempo sobra para devaneios? Nenhum.
A prática externa está intimamente ligada com o caminho da ação (karma yoga) uma vez que a execução de ações sempre ocorre com uma execução externa. Esta discussão fica para um outro dia.
Um ponto chave da prática externa é que ela requer que estejamos atentos ao que acontece, ao mundo, à realidade apresentada naquele instante.
Como podemos saber se estamos atentos à realidade? Parece uma pergunta óbvia, mas de fato mesmo este discernimento primário é extremamente sutil. Nosso modus operandi mais habitual é o de inventar um presente imaginário através dos pensamentos, e vivê-lo acreditando que estamos vivendo o instante presente.
Façamos um pequeno teste: ligue seu i-pod, i-touch, ou walkman se você for mais velho e ainda tiver um; coloque uma música. De olhos abertos, coloque sua atenção na música, em cada tom. Tente perceber o que aconteceu com a sua percepção visual quando este movimento ocorreu. Agora, com a música ligada, tente focalizar sua visão em um objeto à sua frente. Tente perceber o que ocorreu com a percepção da música enquanto este movimento ocorre. Este é um exercício muito sutil, e pode requerer alguma prática, mas mostra um pouco o foco da atenção. Agora ligue novamente a música, colocando nela seu foco de atenção. Em seguida tente lembrar de uma situação de trabalho que causou ansiedade ou estresse. Perceba o que ocorreu com a percepção auditiva.
Quando a atenção se volta para pensamentos a atenção à realidade externa diminui. Esta é a chave para percebermos se estamos de fato atentos à realidade, a cada momento.
A presença na realidade que se sucede requer um contínuo forjar da mente para que a atenção escape das armadilhas dos devaneios e retorne, uma e outra vez, para a realidade que de fato acontece. Este pode ser um forjar de dias, anos, vidas, mas ao final frutificará em discernimento (viveka) acerca da realidade.
abraços,
marcos
sexta-feira, 5 de março de 2010
Onde está o descanso?
Tenho tido muitas conversas com tantas pessoas diferentes, muitos universos fechados em si mesmos, certos, absolutamente, de suas certezas construídas pela retórica eterna dos diálogos internos. Construções fundamentadas na retórica interna dos diálogos sem fim. Algumas perguntas - um pouco de areia na engrenagem desta máquina de conversas loucas - e um espaço quase miraculoso de compreensão se abre. Há um vislumbre de paz dinâmica neste espaço, um reflexo de luz na penumbra úmida do pensar sem fim, como uma lufada de ar que finalmente penetra aquele cômodo fechado e começa a trazer a paz do movimento para dissipar a angústia da agitação estacionada.
Nestes momentos de compreensão há uma percepção muitas vezes inédita do que é a inteligência intuitiva. E imediatamente se percebe a mente linear (manas) reacelerando as engrenagens através de um apropriar-se lógico-racional daquilo que foi gerado sem pensamento. A personalidade (“eu”) possui uma máquina de etiquetas, como aquelas de preços em supermercados, e é totalmente obcecada em etiquetar cada instante, continuamente roubando o presente – aquilo que se sucede – de nós mesmos. A presença é roubada com o desejo de resultados pelas ações praticadas, e com a sensação de posse sobre o que acontece.
Sem o presente nos habituamos a glorificar a memória, e perdemos a glória do instante. Cada etiqueta leva o nosso nome, como se pudéssemos possuir nossa própria história, como se contabilizássemos cada momento em um grande balanço contábil, naturalmente esperando algum tipo de “lucro” ao final do ciclo... vida. Da busca do benefício e da sensação de posse se alimenta o Karma, e roda do samsara (ciclo de nascimentos e mortes) segue girando.
O pequeno instante de compreensão muitas vezes engravida as pessoas de uma sensação de beco sem saída...onde está o descanso então? Se estamos vivos, em ação, o descanso está fora, na realidade, no mundo, nos objetos de percepção. E não em nossos pensamentos. Se estamos vivos, em prática de silêncio interno, o descanso está nAquilo que percebe, e não em nossos pensamentos.
O descanso nunca está em nossos pensamentos... exceto quando a realidade apresenta esta demanda. Por exemplo, quando o instante presente requer que se raciocine sobre o plano de negócios para a confecção de uma apresentação. Neste momento é válido pensar sobre o plano de negócios – e apenas sobre isto. De resto, o descanso não está na mente. Como vivemos 2/3 de nossas vidas em vigília, especialmente para os que não costumam exercitar práticas de silêncio, o descanso está sempre fora. O descanso, o oxigênio para prosseguir, está no mundo, na realidade, nos objetos, e não em nossos pensamentos, memórias, etiquetas e viagens na maionese (day-dreaming). Focalizar, momento após momento, a atenção no mundo, nos objetos, e não em nossos pensamentos, é o bálsamo para um sistema nervoso exaurido por décadas de desgaste oriundos de um pensar sem fim - tanto no sentido de propósito quanto de tempo. Este bálsamo está ao nosso alcance, ao alcance um instante.
PS: novo vídeo do Ivan aqui no blog logo acima: "Aprender a não duvidar". Vale a pena ver!
Nestes momentos de compreensão há uma percepção muitas vezes inédita do que é a inteligência intuitiva. E imediatamente se percebe a mente linear (manas) reacelerando as engrenagens através de um apropriar-se lógico-racional daquilo que foi gerado sem pensamento. A personalidade (“eu”) possui uma máquina de etiquetas, como aquelas de preços em supermercados, e é totalmente obcecada em etiquetar cada instante, continuamente roubando o presente – aquilo que se sucede – de nós mesmos. A presença é roubada com o desejo de resultados pelas ações praticadas, e com a sensação de posse sobre o que acontece.
Sem o presente nos habituamos a glorificar a memória, e perdemos a glória do instante. Cada etiqueta leva o nosso nome, como se pudéssemos possuir nossa própria história, como se contabilizássemos cada momento em um grande balanço contábil, naturalmente esperando algum tipo de “lucro” ao final do ciclo... vida. Da busca do benefício e da sensação de posse se alimenta o Karma, e roda do samsara (ciclo de nascimentos e mortes) segue girando.
O pequeno instante de compreensão muitas vezes engravida as pessoas de uma sensação de beco sem saída...onde está o descanso então? Se estamos vivos, em ação, o descanso está fora, na realidade, no mundo, nos objetos de percepção. E não em nossos pensamentos. Se estamos vivos, em prática de silêncio interno, o descanso está nAquilo que percebe, e não em nossos pensamentos.
O descanso nunca está em nossos pensamentos... exceto quando a realidade apresenta esta demanda. Por exemplo, quando o instante presente requer que se raciocine sobre o plano de negócios para a confecção de uma apresentação. Neste momento é válido pensar sobre o plano de negócios – e apenas sobre isto. De resto, o descanso não está na mente. Como vivemos 2/3 de nossas vidas em vigília, especialmente para os que não costumam exercitar práticas de silêncio, o descanso está sempre fora. O descanso, o oxigênio para prosseguir, está no mundo, na realidade, nos objetos, e não em nossos pensamentos, memórias, etiquetas e viagens na maionese (day-dreaming). Focalizar, momento após momento, a atenção no mundo, nos objetos, e não em nossos pensamentos, é o bálsamo para um sistema nervoso exaurido por décadas de desgaste oriundos de um pensar sem fim - tanto no sentido de propósito quanto de tempo. Este bálsamo está ao nosso alcance, ao alcance um instante.
PS: novo vídeo do Ivan aqui no blog logo acima: "Aprender a não duvidar". Vale a pena ver!
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Passa, ave, passa
Escreveu Fernando Pessoa (Alberto Caiero):
“Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
A mim me encanta especialmente “lembrar é não ver”, Fernando Pessoa namorou intimamente com a não-dualidade, existem muitos outros poemas belos que exaltam o presente. Lembrar é não ver posto que o véu do pensamento colocado em marcha pela poeira da agitação da memória impede a visão da realidade.
No Vedanta Advaita uma das primeiras letras do abecedário é conhecida por “nome e forma”; quando interagindo com a realidade nós recuamos a atenção para a memória na busca de uma definição para o que vemos, isto é um sinal evidente de que não estamos vivendo o instante presente. Façam um exercício simples: escolham um objeto qualquer à sua frente agora, e vejam o que vem imediatamente à mente: a definição do mesmo. Por exemplo, se há uma caneta à sua frente nosso hábito nos leva a apenas resvalar a atenção sobre a mesma, quantidade de atenção suficiente apenas para nos levar à memória na busca da identificação do conceito já pré-estabelecido de “caneta”. E daí em diante já não nos interessa observar a caneta. Nosso movimento de direcionamento da atenção saiu do presente (a caneta) e se fixou no passado (na memória que guarda o conceito do objeto genérico caneta). Façam agora um outro exercício: observe detidamente o mesmo objeto, mas procure não determinar o nome do objeto. Esforcem-se para que a atenção permaneça no objeto, pra que ela não se volte para a memória. Em pouquíssimo tempo, se vocês conseguirem, perceberão que o objeto ganha vida, e parece que há menor distância percebida entre o objeto e vocês.
A realidade não pode ser conceitualizada ou percebida através da memória... nunca. Só existe realidade no presente.
Para fechar uma linda frase de Nisargadatta: “ … a pura atenção – livre de memórias e expectativas – é o estado da mente no qual a descoberta pode acontecer. Afinal, liberação não é mais do que a liberdade de descobrir.”
Abraços
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