Olá amigos,
Ao longo destes últimos anos tenho convivido e conversado com um grande número de pessoas que naturalmente expressam interesse em auto-conhecimento e meditação. Em geral há uma inquietação e vontade de explorar estes caminhos, mas também aparece a necessidade de algum tipo de acompanhamento, apoio e compartilhamento.
Como vários de vocês já sabem tenho seguido um caminho de estudos com Ivan Oliveros (Sesha) há 10 anos. Sesha é um mestre vivo da tradição Vedanta Advaita, filosofia milenar de origem hindu, um caminho que busca a compreensão da realidade através do discernimento acerca do Real, e é fundamentada no conceito da não-dualidade. É uma trilha de auto-conhecimento e sabedoria, simples e direta, sem dogmas, rituais ou artifícios. (Para mais informações vejam http://www.vedantaadvaita.com/).
Assim, a partir da próxima semana (7 de abril) coordenarei um novo grupo de meditação no Instituto Brahmavidya. Este grupo de meditação terá freqüência semanal, toda 4af, 19h15 até 20h15. Dedicaremos o tempo para reflexão sobre temas específicos, prática de meditação externa e interna e compartilhamento. O grupo é aberto, não é necessária qualquer experiência anterior.
Caso conheçam pessoas interessadas por favor divulguem esta mensagem.
Segue o endereço:
Instituto Brahmavidya
Rua Indiana, n. 1403 , Brooklin (paralela à rua Pe. Antonio J. Santos)
Abraços,
quarta-feira, 31 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Onde está o descanso?
Tenho tido muitas conversas com tantas pessoas diferentes, muitos universos fechados em si mesmos, certos, absolutamente, de suas certezas construídas pela retórica eterna dos diálogos internos. Construções fundamentadas na retórica interna dos diálogos sem fim. Algumas perguntas - um pouco de areia na engrenagem desta máquina de conversas loucas - e um espaço quase miraculoso de compreensão se abre. Há um vislumbre de paz dinâmica neste espaço, um reflexo de luz na penumbra úmida do pensar sem fim, como uma lufada de ar que finalmente penetra aquele cômodo fechado e começa a trazer a paz do movimento para dissipar a angústia da agitação estacionada.
Nestes momentos de compreensão há uma percepção muitas vezes inédita do que é a inteligência intuitiva. E imediatamente se percebe a mente linear (manas) reacelerando as engrenagens através de um apropriar-se lógico-racional daquilo que foi gerado sem pensamento. A personalidade (“eu”) possui uma máquina de etiquetas, como aquelas de preços em supermercados, e é totalmente obcecada em etiquetar cada instante, continuamente roubando o presente – aquilo que se sucede – de nós mesmos. A presença é roubada com o desejo de resultados pelas ações praticadas, e com a sensação de posse sobre o que acontece.
Sem o presente nos habituamos a glorificar a memória, e perdemos a glória do instante. Cada etiqueta leva o nosso nome, como se pudéssemos possuir nossa própria história, como se contabilizássemos cada momento em um grande balanço contábil, naturalmente esperando algum tipo de “lucro” ao final do ciclo... vida. Da busca do benefício e da sensação de posse se alimenta o Karma, e roda do samsara (ciclo de nascimentos e mortes) segue girando.
O pequeno instante de compreensão muitas vezes engravida as pessoas de uma sensação de beco sem saída...onde está o descanso então? Se estamos vivos, em ação, o descanso está fora, na realidade, no mundo, nos objetos de percepção. E não em nossos pensamentos. Se estamos vivos, em prática de silêncio interno, o descanso está nAquilo que percebe, e não em nossos pensamentos.
O descanso nunca está em nossos pensamentos... exceto quando a realidade apresenta esta demanda. Por exemplo, quando o instante presente requer que se raciocine sobre o plano de negócios para a confecção de uma apresentação. Neste momento é válido pensar sobre o plano de negócios – e apenas sobre isto. De resto, o descanso não está na mente. Como vivemos 2/3 de nossas vidas em vigília, especialmente para os que não costumam exercitar práticas de silêncio, o descanso está sempre fora. O descanso, o oxigênio para prosseguir, está no mundo, na realidade, nos objetos, e não em nossos pensamentos, memórias, etiquetas e viagens na maionese (day-dreaming). Focalizar, momento após momento, a atenção no mundo, nos objetos, e não em nossos pensamentos, é o bálsamo para um sistema nervoso exaurido por décadas de desgaste oriundos de um pensar sem fim - tanto no sentido de propósito quanto de tempo. Este bálsamo está ao nosso alcance, ao alcance um instante.
PS: novo vídeo do Ivan aqui no blog logo acima: "Aprender a não duvidar". Vale a pena ver!
Nestes momentos de compreensão há uma percepção muitas vezes inédita do que é a inteligência intuitiva. E imediatamente se percebe a mente linear (manas) reacelerando as engrenagens através de um apropriar-se lógico-racional daquilo que foi gerado sem pensamento. A personalidade (“eu”) possui uma máquina de etiquetas, como aquelas de preços em supermercados, e é totalmente obcecada em etiquetar cada instante, continuamente roubando o presente – aquilo que se sucede – de nós mesmos. A presença é roubada com o desejo de resultados pelas ações praticadas, e com a sensação de posse sobre o que acontece.
Sem o presente nos habituamos a glorificar a memória, e perdemos a glória do instante. Cada etiqueta leva o nosso nome, como se pudéssemos possuir nossa própria história, como se contabilizássemos cada momento em um grande balanço contábil, naturalmente esperando algum tipo de “lucro” ao final do ciclo... vida. Da busca do benefício e da sensação de posse se alimenta o Karma, e roda do samsara (ciclo de nascimentos e mortes) segue girando.
O pequeno instante de compreensão muitas vezes engravida as pessoas de uma sensação de beco sem saída...onde está o descanso então? Se estamos vivos, em ação, o descanso está fora, na realidade, no mundo, nos objetos de percepção. E não em nossos pensamentos. Se estamos vivos, em prática de silêncio interno, o descanso está nAquilo que percebe, e não em nossos pensamentos.
O descanso nunca está em nossos pensamentos... exceto quando a realidade apresenta esta demanda. Por exemplo, quando o instante presente requer que se raciocine sobre o plano de negócios para a confecção de uma apresentação. Neste momento é válido pensar sobre o plano de negócios – e apenas sobre isto. De resto, o descanso não está na mente. Como vivemos 2/3 de nossas vidas em vigília, especialmente para os que não costumam exercitar práticas de silêncio, o descanso está sempre fora. O descanso, o oxigênio para prosseguir, está no mundo, na realidade, nos objetos, e não em nossos pensamentos, memórias, etiquetas e viagens na maionese (day-dreaming). Focalizar, momento após momento, a atenção no mundo, nos objetos, e não em nossos pensamentos, é o bálsamo para um sistema nervoso exaurido por décadas de desgaste oriundos de um pensar sem fim - tanto no sentido de propósito quanto de tempo. Este bálsamo está ao nosso alcance, ao alcance um instante.
PS: novo vídeo do Ivan aqui no blog logo acima: "Aprender a não duvidar". Vale a pena ver!
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Um, nenhum cem mil e coaching
Por conta do curso de formação de coaches no Ecosocial li o livro Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello. O personagem vai se desconstruindo ao perceber a ilusão da realidade egóica. Ao final, diz: “E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida... Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções.”
Ou, em uma outra interpretação, nada é senão aquilo que é no instante presente. Esta conclusão final expressa de modo contundente a ascendência da presença sobre qualquer outro modo de vida para que se compreenda e viva a realidade.
Não há realidade em si nas vãs construções dos pensamentos. Vazios porque são nutridos sempre pela memória. A realidade é roubada de cada um de nós a cada instante em que o ego, ou a mente linear, ou a idéia do “eu” de Pirandello se apropria da mesma ao nos induzir a buscar os conteúdos residentes na memória. Trocamos uma realidade presente, só percebida por algo que não o “eu”, por uma pilha de memórias já guardadas, que nos dão senso de segurança e conforto, um nome e uma forma armazenados para cada diferente tonalidade de realidade percebida. Uma etiqueta – só existente na memória – que substitui a realidade sem subtítulos que se apresenta a cada momento.
O presente é o ambiente no qual tudo o que se sucede acontece, a chave mestra que pode nos abrir a porta da compreensão, do discernimento real. Entretanto para que a presença seja concreta é preciso que não nos voltemos às vazias construções dos pensamentos, ou seja, é necessário que nos mantenhamos ... presentes. Nosso hábito mais enraizado, por tantos anos de vida pisando a mesma trilha batida, é pensar sobre o mundo, nos distanciando dele. Para frear este hábito há que se ter coragem de abrir mão do suposto controle confortável que a distância da realidade nos proporciona. Há que se atirar ao mundo, no sentido de se estar ativamente atento ao que acontece. A cadeia infindável de pensamentos coloca um véu sobre a realidade, e, na maior parte das vezes, acabamos nos relacionando com nossa própria memória, e não com aquilo que acontece realmente.
A contínua prática de se viver no presente naturalmente nos mostra que existem outros agentes de percepção que não o “eu”, presentes em estados de consciência superiores do ponto de vista de discernimento da Realidade. Sem o peso da constante apropriação das ações que acontecem no presente pelo insaciável ego há uma trilha infindável de uma leveza e liberdade que talvez nem consigamos vislumbrar.
O processo de coaching, por exemplo, realmente só ocorre quando há Presença. De nada adianta buscar mentalmente fórmulas e arquétipos enquanto a conversa ocorre. A preparação sim pode ocorrer previamente. No momento da preparação o instante presente pede que a leitura e análise sejam feitas; e é perfeitamente natural que se use o processo associativo mental neste momento, é um pensar válido, pois é o que é requerido, naturalmente. Entretanto, no instante da conversa o que o presente requer é atenção plena na conversa, nada mais. Atenção plena, algo fácil de falar, difícil de fazer, essencial de se praticar. Todo o estudo, a preparação, se farão sentir de modo natural e intuitivo se a presença ocorre. A cada perda de atenção, a cada fuga para a memória, se perde o instante. Apenas no presente é possível que a inteligência intuitiva tenha a possibilidade de ser percebida, e nesta descansa toda e qualquer possibilidade de ação natural, pura, correta*.
* (neste sentido vale ler texto “budo, aikido, Consciência e liberdade, de 19/11/2009)
Ou, em uma outra interpretação, nada é senão aquilo que é no instante presente. Esta conclusão final expressa de modo contundente a ascendência da presença sobre qualquer outro modo de vida para que se compreenda e viva a realidade.
Não há realidade em si nas vãs construções dos pensamentos. Vazios porque são nutridos sempre pela memória. A realidade é roubada de cada um de nós a cada instante em que o ego, ou a mente linear, ou a idéia do “eu” de Pirandello se apropria da mesma ao nos induzir a buscar os conteúdos residentes na memória. Trocamos uma realidade presente, só percebida por algo que não o “eu”, por uma pilha de memórias já guardadas, que nos dão senso de segurança e conforto, um nome e uma forma armazenados para cada diferente tonalidade de realidade percebida. Uma etiqueta – só existente na memória – que substitui a realidade sem subtítulos que se apresenta a cada momento.
O presente é o ambiente no qual tudo o que se sucede acontece, a chave mestra que pode nos abrir a porta da compreensão, do discernimento real. Entretanto para que a presença seja concreta é preciso que não nos voltemos às vazias construções dos pensamentos, ou seja, é necessário que nos mantenhamos ... presentes. Nosso hábito mais enraizado, por tantos anos de vida pisando a mesma trilha batida, é pensar sobre o mundo, nos distanciando dele. Para frear este hábito há que se ter coragem de abrir mão do suposto controle confortável que a distância da realidade nos proporciona. Há que se atirar ao mundo, no sentido de se estar ativamente atento ao que acontece. A cadeia infindável de pensamentos coloca um véu sobre a realidade, e, na maior parte das vezes, acabamos nos relacionando com nossa própria memória, e não com aquilo que acontece realmente.
A contínua prática de se viver no presente naturalmente nos mostra que existem outros agentes de percepção que não o “eu”, presentes em estados de consciência superiores do ponto de vista de discernimento da Realidade. Sem o peso da constante apropriação das ações que acontecem no presente pelo insaciável ego há uma trilha infindável de uma leveza e liberdade que talvez nem consigamos vislumbrar.
O processo de coaching, por exemplo, realmente só ocorre quando há Presença. De nada adianta buscar mentalmente fórmulas e arquétipos enquanto a conversa ocorre. A preparação sim pode ocorrer previamente. No momento da preparação o instante presente pede que a leitura e análise sejam feitas; e é perfeitamente natural que se use o processo associativo mental neste momento, é um pensar válido, pois é o que é requerido, naturalmente. Entretanto, no instante da conversa o que o presente requer é atenção plena na conversa, nada mais. Atenção plena, algo fácil de falar, difícil de fazer, essencial de se praticar. Todo o estudo, a preparação, se farão sentir de modo natural e intuitivo se a presença ocorre. A cada perda de atenção, a cada fuga para a memória, se perde o instante. Apenas no presente é possível que a inteligência intuitiva tenha a possibilidade de ser percebida, e nesta descansa toda e qualquer possibilidade de ação natural, pura, correta*.
* (neste sentido vale ler texto “budo, aikido, Consciência e liberdade, de 19/11/2009)
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
2010
A todos os buscadores, a todos aqueles que seguem inquietos e assim pesquisam a realidade, a todos que não se conformam com o conforto do medo e a indulgência da ignorância, a todos que nutrem com coragem uma esperança de Ser, que trilham a vida com audácia e respeito, determinação e humildade, a todos estes desejo mais do mesmo, pois vocês já tem o que é necessário.
Para todos os outros desejo uma centelha de despertar.
abraços
Para todos os outros desejo uma centelha de despertar.
abraços
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Passa, ave, passa
Escreveu Fernando Pessoa (Alberto Caiero):
“Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
A mim me encanta especialmente “lembrar é não ver”, Fernando Pessoa namorou intimamente com a não-dualidade, existem muitos outros poemas belos que exaltam o presente. Lembrar é não ver posto que o véu do pensamento colocado em marcha pela poeira da agitação da memória impede a visão da realidade.
No Vedanta Advaita uma das primeiras letras do abecedário é conhecida por “nome e forma”; quando interagindo com a realidade nós recuamos a atenção para a memória na busca de uma definição para o que vemos, isto é um sinal evidente de que não estamos vivendo o instante presente. Façam um exercício simples: escolham um objeto qualquer à sua frente agora, e vejam o que vem imediatamente à mente: a definição do mesmo. Por exemplo, se há uma caneta à sua frente nosso hábito nos leva a apenas resvalar a atenção sobre a mesma, quantidade de atenção suficiente apenas para nos levar à memória na busca da identificação do conceito já pré-estabelecido de “caneta”. E daí em diante já não nos interessa observar a caneta. Nosso movimento de direcionamento da atenção saiu do presente (a caneta) e se fixou no passado (na memória que guarda o conceito do objeto genérico caneta). Façam agora um outro exercício: observe detidamente o mesmo objeto, mas procure não determinar o nome do objeto. Esforcem-se para que a atenção permaneça no objeto, pra que ela não se volte para a memória. Em pouquíssimo tempo, se vocês conseguirem, perceberão que o objeto ganha vida, e parece que há menor distância percebida entre o objeto e vocês.
A realidade não pode ser conceitualizada ou percebida através da memória... nunca. Só existe realidade no presente.
Para fechar uma linda frase de Nisargadatta: “ … a pura atenção – livre de memórias e expectativas – é o estado da mente no qual a descoberta pode acontecer. Afinal, liberação não é mais do que a liberdade de descobrir.”
Abraços
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Budo, Aikido, Consciência e Liberdade
Outro dia folheava um livro sobre Budo lá na Shinwa (academia de Aikido e sede da Fepai, onde treino toda semana) e me deparei com o seguinte trecho:
“...a consciência ordinária obstrui o movimento físico. Não importa o tipo de movimento, a prática constante é necessária para que nos tornemos verdadeiramente habilidosos. (A prática) deve se tornar uma segunda natureza de modo a dirimir as obstruções originadas em nossas mentes. Porém isto finalmente fará com que a consciência (ordinária) se torne independente do corpo físico. Como podemos mover o corpo conscientemente sem permitir que a consciência (ordinária) obstrua o movimento? Esta é a essência do Budo.”
(Yoro Taheshi, Prof. Emeritus, Tokyo University)
Bonito não? Excelente quadro da filosofia maior do Aikido, por exemplo.
Parece paradoxal e é. Para mim, que pratico o Aikido e a meditação Vedanta Advaita há dez anos, este é um paradoxo delicioso e absolutamente real. Talvez um ajuste de linguagem sob a ótica Vedanta ajude a compreensão do texto.
Podemos traduzir a consciência ordinária por mente, mais especificamente um de seus vários constituintes, o Ahamkara. Este é o “órgão” da mente responsável pela sensação de posse de um eu; no Ahamkara reside a ilusão de uma personalidade (eu) que acredita atuar de modo independente e acredita ser merecedora dos frutos desta ações. Eis aí o princípio causador da “obstrução” ao movimento físico no exemplo acima.
Já o movimento físico em si mesmo, ao ser uma “segunda natureza” é o movimento natural que ocorre por si mesmo. Por que dizemos que ocorre por si mesmo? Não é apenas um modo de dizer. O corpo do aikidoísta e de seu parceiro, assim como o dojo, e todos os presentes, conformam um campo, um sistema, que – como qualquer outro no universo – existe porque há Consciência. Esta é a Consciência com “C” maiúsculo, aquilo que dá origem a todo o resto, mas não é originada por nada. Aquilo que é a raiz de tudo o que existe, mas em nada existente possui raízes. Qualquer campo é Consciente, independentemente da presença de uma consciência ordinária (ahamkara), isto é, não é porque um eu está percebendo e se apropriando em sua memória de uma situação (um campo de cognição) que este campo existe... o campo já existe, e é a base sobre a qual o “eu” se sustenta para ilusoriamente se achar consciente e diferente (individualizado) do campo mesmo.
Assim, o próprio campo gera e conduz os movimentos físicos!
A presença do Ahamkara obstrui, polui, contamina este movimento natural. Como percebemos se isto está ocorrendo? É fácil, basta percebermos se estamos pensando sobre o que ocorre. Se pensamos não estamos presentes, quem está presente é o “eu”. Então como conseguir com que estes movimentos ocorram naturalmente? A única chave é a Presença. Só no presente é possível aquietar a mente, ativar os sentidos, e começar a perceber a conexão entre todos os constituintes do campo, e daí permitir que o movimento ocorra naturalmente. Deste modo de fato a consciência ordinária (ahamkara) deixa de estar presente, e os movimentos ocorrem por conta da Consciência do próprio campo existente naquele momento presente.
O Budo, para mim, é isto. E o treino físico, assim como os movimentos aqui explicados, é apenas um exemplo do que de fato pode ocorrer em todas as nossas ações, em nosso trabalho, em casa, etc. As horas de treino no Budo são um laboratório e uma arena de aprendizagem para todos os outros segundos da vida, pois estamos continuamente em ação, e a cada instante o campo / sistema em que estamos mergulhados subsiste na Consciência, e a nós nos cabe simplesmente fluir com o que nos é apresentado de modo natural, aceitando plenamente a assustadora liberdade do Presente.
“...a consciência ordinária obstrui o movimento físico. Não importa o tipo de movimento, a prática constante é necessária para que nos tornemos verdadeiramente habilidosos. (A prática) deve se tornar uma segunda natureza de modo a dirimir as obstruções originadas em nossas mentes. Porém isto finalmente fará com que a consciência (ordinária) se torne independente do corpo físico. Como podemos mover o corpo conscientemente sem permitir que a consciência (ordinária) obstrua o movimento? Esta é a essência do Budo.”
(Yoro Taheshi, Prof. Emeritus, Tokyo University)
Bonito não? Excelente quadro da filosofia maior do Aikido, por exemplo.
Parece paradoxal e é. Para mim, que pratico o Aikido e a meditação Vedanta Advaita há dez anos, este é um paradoxo delicioso e absolutamente real. Talvez um ajuste de linguagem sob a ótica Vedanta ajude a compreensão do texto.
Podemos traduzir a consciência ordinária por mente, mais especificamente um de seus vários constituintes, o Ahamkara. Este é o “órgão” da mente responsável pela sensação de posse de um eu; no Ahamkara reside a ilusão de uma personalidade (eu) que acredita atuar de modo independente e acredita ser merecedora dos frutos desta ações. Eis aí o princípio causador da “obstrução” ao movimento físico no exemplo acima.
Já o movimento físico em si mesmo, ao ser uma “segunda natureza” é o movimento natural que ocorre por si mesmo. Por que dizemos que ocorre por si mesmo? Não é apenas um modo de dizer. O corpo do aikidoísta e de seu parceiro, assim como o dojo, e todos os presentes, conformam um campo, um sistema, que – como qualquer outro no universo – existe porque há Consciência. Esta é a Consciência com “C” maiúsculo, aquilo que dá origem a todo o resto, mas não é originada por nada. Aquilo que é a raiz de tudo o que existe, mas em nada existente possui raízes. Qualquer campo é Consciente, independentemente da presença de uma consciência ordinária (ahamkara), isto é, não é porque um eu está percebendo e se apropriando em sua memória de uma situação (um campo de cognição) que este campo existe... o campo já existe, e é a base sobre a qual o “eu” se sustenta para ilusoriamente se achar consciente e diferente (individualizado) do campo mesmo.
Assim, o próprio campo gera e conduz os movimentos físicos!
A presença do Ahamkara obstrui, polui, contamina este movimento natural. Como percebemos se isto está ocorrendo? É fácil, basta percebermos se estamos pensando sobre o que ocorre. Se pensamos não estamos presentes, quem está presente é o “eu”. Então como conseguir com que estes movimentos ocorram naturalmente? A única chave é a Presença. Só no presente é possível aquietar a mente, ativar os sentidos, e começar a perceber a conexão entre todos os constituintes do campo, e daí permitir que o movimento ocorra naturalmente. Deste modo de fato a consciência ordinária (ahamkara) deixa de estar presente, e os movimentos ocorrem por conta da Consciência do próprio campo existente naquele momento presente.
O Budo, para mim, é isto. E o treino físico, assim como os movimentos aqui explicados, é apenas um exemplo do que de fato pode ocorrer em todas as nossas ações, em nosso trabalho, em casa, etc. As horas de treino no Budo são um laboratório e uma arena de aprendizagem para todos os outros segundos da vida, pois estamos continuamente em ação, e a cada instante o campo / sistema em que estamos mergulhados subsiste na Consciência, e a nós nos cabe simplesmente fluir com o que nos é apresentado de modo natural, aceitando plenamente a assustadora liberdade do Presente.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
video Sesha
Olá amigos,
tantas vezes escrevi sobre a limitação da visão ocidental em relação à realidade e à Consciência. Agora finalmente os vídeos de Sesha (http://www.vedantaadvaita.com) estão mais fáceis de abrir, sem ter que copiá-los, e coloquei aqui no blog (bem no alto da página) um destes vídeos como aperitivo, é só apertar play. É justamente a gravação de uma parte de um seminário do Ivan sobre o Bhagavad Gita, e neste trecho ele discorre sobre a pobreza e limitações do modelo cognitivo ocidental.
Bom proveito!
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
deboche
O que mais me diverte quando converso com (tantas) pessoas sobre o que é a realidade sob a perspectiva Vedanta Advaita é o olhar quase incrédulo, às vezes veladamente debochado, de quem me ouve.
Nossa máquina cerebral e psicológica tem um software escrito em código de máquina, inscrito em fogo, que pede constantemente algo em troca, um resultado. Se não houver algo ‘positivo’ em troca, não há negócio. Parece fazer sentido. É assim que tocamos todas as negociações de nossas vidas, desde pequenos.
Assim, quando confrontado com a possibilidade de não haver sentido nestas negociações, é natural que haja um desconforto.
Viver o instante presente a atuar ativamente na atmosfera do presente implica reagir ao mundo que se apresenta com a inteligência que subsiste nesta própria atmosfera deste instante.
Existe Consciência independentemente de existir uma parcela da mente que julgue estar consciente. E é a inteligência própria desta Consciência que provê os meios para que a ação se dê, naturalmente. Isto só ocorre sem a presença do “eu” que se considera possuidor da consciência.
Quem negocia? Quem quer algo em troca? Ora, este “eu” que se enxerga existindo independentemente do resto do universo, possuidor de uma consciência individual, merecedor de todos os lucros pelos quais luta tanto em todas as negociações psico-emocionais.
Assim, é natural que este”eu” fique levemente nervoso ao ouvir sobre sua imensa insignificância, perceptível ao alcance de três segundos de silêncio interior. E este leve nervosismo é traduzido ao nível consciente como um olhar incrédulo, às vezes veladamente debochado.
Nossa máquina cerebral e psicológica tem um software escrito em código de máquina, inscrito em fogo, que pede constantemente algo em troca, um resultado. Se não houver algo ‘positivo’ em troca, não há negócio. Parece fazer sentido. É assim que tocamos todas as negociações de nossas vidas, desde pequenos.
Assim, quando confrontado com a possibilidade de não haver sentido nestas negociações, é natural que haja um desconforto.
Viver o instante presente a atuar ativamente na atmosfera do presente implica reagir ao mundo que se apresenta com a inteligência que subsiste nesta própria atmosfera deste instante.
Existe Consciência independentemente de existir uma parcela da mente que julgue estar consciente. E é a inteligência própria desta Consciência que provê os meios para que a ação se dê, naturalmente. Isto só ocorre sem a presença do “eu” que se considera possuidor da consciência.
Quem negocia? Quem quer algo em troca? Ora, este “eu” que se enxerga existindo independentemente do resto do universo, possuidor de uma consciência individual, merecedor de todos os lucros pelos quais luta tanto em todas as negociações psico-emocionais.
Assim, é natural que este”eu” fique levemente nervoso ao ouvir sobre sua imensa insignificância, perceptível ao alcance de três segundos de silêncio interior. E este leve nervosismo é traduzido ao nível consciente como um olhar incrédulo, às vezes veladamente debochado.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
master card meditação
chopp: R$ 5
pizza: R$ 40
conversar com o Ivan sobre campos de cognição na mesa da Pizzaria Marguerita explicando a não-dualidade numa garrafa de azeite: não tem preço
pizza: R$ 40
conversar com o Ivan sobre campos de cognição na mesa da Pizzaria Marguerita explicando a não-dualidade numa garrafa de azeite: não tem preço
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
cotidiano
“A Inteligência associada ao presente opera em todo momento e a todo instante. Ela determina quando as ações devem começar e também quando devem morrer. A destreza no ato de deixar nascer e morrer as ações é algo que será aprendido com a entrega da vontade ao presente... compreensão que permite dar-se conscientemente, deixar-se ir à ação (que a realidade nos apresenta) sem temor, não buscar ou desejar algo que não exista no momento presente... situação onde o ‘eu’ desaparece e nasce a inteligência ordenada que finalmente nos conduzirá à experiência Não-dual.” (Ivan Oliveros - Sesha)
Toda a experiência prática meditativa, seja ela na ação (externa) ou no silêncio (interna) tem como raiz esta entrega. Nosso cotidiano é pleno de oportunidades de presença verdadeira; cada momento é uma nova oportunidade de entrega. Mas nos perdemos nos futuros e passados, nas fotos e telenovelas criadas a partir o liquidificador turbo-atômico da memória, e neste ciclone atravessamos o presente quase sempre sem percebê-lo.
E para aqueles que começam a perceber uma inquietação em se dar conta do que realmente existe fica o paradoxo: a própria personalidade tenta decodificar o que significa esta entrega, mas literalmente morre de medo dela...claro, pois a entrega ao presente é a construção, instante a instante, da contínua morte da personalidade. O ‘eu’ não compreende o presente, pois não o-vive, o habitat do ‘eu’ é a memória, a potente ponte das etiquetas do passado com o desejo e controle do futuro nascido pretérito. A compreensão do presente só se faz nele mesmo. Daí a importância da prática.
Para quem deseja aprender e ouvir palavras imensamente mais sábias e verdadeiras que estas, teremos oportunidades nas datas abaixo com Ivan.
abs
Palestra Gratuita
Dia 26/08 (quarta-feira)
Horario: 20:00h
Local: SPFit Club
R. Padre João Manoel, 903 - Jardins
Tel.: 3085.8632
Retiro:
Dias 03 a 07 de setembro (quarta a domingo)
Inicio: às 11h do dia 05/09
Término: após almoço do dia 07/09
Local: Recanto Betânia (Embu-guaçu – a 35 KM de São Paulo)
Valor: R$ 850,00
Inclui hospedagem e refeições.
Workshop
Dias 29/08 e 30/08(sábado e domingo)
Horário: 09 as 16h
Local: Instituto Brahmavidya Do Brasil
R. Indiana, 1403
Tel.:(11)5506.5220
Valor : R$ 300,00
Inclui refeição leve no almoço e coffee break
Observações:
O pagamento dos cursos poderá ser parcelado em até 3 vezes.
Workshop + Retiro para inscrições até 25/07 = R$ 1.000,00 que poderão ser pagos em 4 vezes
Informações e inscrições com:
Regina: (11) 9189-8990, (11) 3085-7101
Eloi: (11) 5506 5220, (11) 91019086
Marcos: (11) 72058391
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