quarta-feira, 26 de maio de 2010

Onde tudo começa

Conversava outro dia com uma pessoa que buscava traçar paralelos entre as várias visões de diferentes linhas filosóficas e de busca. Me deparei com uma sutil questão - e muitas vezes estas sutilezas estão densa e concretamente exteriorizadas em palavras. Apareceu delicadamente em uma frase algo como “... e então evoluímos para...”. O que está oculto por trás desta simples colocação? 
A primeira grande ilusão aí oculta é o conceito de algo que evolui. 
A segunda grande ilusão é condição para a primeira, e pode ser resumida na certeza de que a mente individual é consciente em si mesma. 
Esta sutil condição permite o alastramento da falsa sensação de individualidade - de algo que se acredita ator e agente da realidade. Este ator - que só existe quando é recordado, isto é, quando a memória é agitada - se crê em evolução em direção a um outro estado. A ilusoriedade da existência do ator é suficiente para negar a condição de evolução real. Um estado de vida no instante presente  - ainda que fugaz - já não permite a existência deste ator. Assim não há quem evolua; se é que se pode considerar um estado de consciência presente mais “evoluído”, o eu (ator) já não faz parte deste estado. Também não há um “outro” lugar (ou dimensão) para onde se vá. A percepção da realidade  - assim como o agente de cognição que é consciente e percebe - é que muda.
Do ponto de vista Vedanta a mente não é auto-luminosa, isto é, ela não tem a capacidade de ser consciente por si mesma. Assim como a lua reflete a luz do sol, e assim parece possuir luz própria, também a mente individual possui a condição de atenção por conta da Consciência, substrato de toda a realidade. É por isso que à mente linear não  lhe é possível compreender a Consciência (ou a Realidade, ou o Amor) pois esta última é prévia à primeira.
Assim tudo começa no ponto em que percebemos a ilusão da existência em si mesma de nossa mente. Esta é uma construção favorita da personalidade, naturalmente, pois traz vida e importância para a mesma. Esta construção se sustenta a cada agitação mental desnecessária, a cada recordação que fazemos de nós mesmos. É por isso que para o aprendizado de meditação tudo começa com a aquietação da mente.
abraços
marcos

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Qual a nossa batalha?

A idéia por vezes subliminar de que os obstáculos a enfrentar assim como as causas de nossas dificuldades são eventos, circunstâncias e fatores externos a nós mesmos é uma grande ilusão em regime moto-contínuo.
De um modo muito simplista pode-se dizer que não existe uma “causa” externa para um problema que enfrentamos, a causa vem de uma raiz bastante mais ancestral, vêm de tendências de probabilidade acumuladas ao longo de muitos e muitos ciclos. Estas tendências são chamadas samskaras: são a concretização - no sentido causal – da produção infindável de desejos, intenções, hábitos repisados, ou seja, do karma. A partir da integração de todas estas tendências se produz a situação – individual e coletiva – de um novo ciclo. Segundo o Vedanta é esta situação que se concretiza a cada instante como o Presente (!!!) em nossas vidas. Ilusoriamente simples.

De novo: o Presente nada mais é que a expressão perfeita de seu caminho – ou Dharma! A não aceitação e participação integral no presente gera mais e mais tendências de probabilidade e assim a roda quase infinita de mortes e renascimentos permanece girando.
Conclusão: a única forma de (1) deixar de gerar novas tendências – karma, e (2) compreender, viver e percorrer seu Dharma, é viver no Presente.
Seria o equivalente a dizer que o Presente sempre é perfeito, em um tom mais emocional. Sob este ponto de vista fica evidente a ilusão de se colocar no ambiente, no mundo, na família, no vizinho, no marido, a “culpa” pelo que vivemos. É simplesmente falso. O obstáculo real nunca é externo. Ao final o único obstáculo real é a aceitação da plenitude no presente.
Cada instante do Presente representa a soma de infinitas correntes de probabilidade que se concretizam neste momento específico; na visão do indivíduo a trilha da soma destes instantes é a concretização das condições causadas por tendências anteriormente criadas; oculta em cada um dos passos desta trilha está a possibilidade de realização maior do indivíduo, seu Dharma. A chave: reagir com todos os seus sistemas disponíveis (mente, prana, corpo) apenas ao presente que se sucede a cada passo.
Boa sorte!
abraços
marcos

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O que permanece?

A raiz do sofrimento humano é a mudança. Uma grande fundamento dos ensinamentos do budismo é a impermanência. A compreensão - ainda que em seus estágios iniciais – da realidade mostra quão ingênua e profunda é a crença no controle e na permanência. Em toda a área e volume do castelo interno construído sob a ilusão da personalidade não existe sequer um tijolo que seja permanente. Escolhendo o exemplo mais doído: a própria personalidade é absoluta e inevitavelmente impermanente; para não gastarmos argumentos basta considerar a morte. A história pessoal cimentada na memória busca incessantemente a propriedade de continuidade e identidade única, quando basta um exame mais límpido para percebermos como a própria trilha histórica deste “eu” é uma colcha de retalhos mal costurada, com identidades variadas e variantes, tanto em relação a situações específicas quanto em relação à passagem do tempo. Então o que resta no nosso mundo interno que seja permanente?

Naturalmente toda a realidade externa percebida é absolutamente impermanente; a natureza o demonstra a cada ciclo, a cada era glacial, a cada ano, a cada minuto. Um bosque observado às 9h11min30seg não o mesmo bosque observado às 9h11min31seg. Por um outro lado toda a estrutura do universo é dinâmica. Quando olhamos pelo microscópio a constituição das partículas atômicas é intrinsecamente incerta (Heisenberg), vazia e em movimento. Quando olhamos pelo telescópio a constituição das galáxias e do universo distante basicamente existe vazio e movimento – e incerteza. Então o que resta no mundo externo que seja permanente?

Ainda mais, porque cargas d´agua haveriam de ser permanentes justamente as condições de existência de nosso pouco humilde “eu” se acreditando atuante, importante e real?

A condição de permanência em nosso mundo de pensamentos está intimamente vinculada à crença e necessidade de controle. Necessitamos do conforto psicológico de acreditar constantes certas referências. Referências externas (casa, cidade, família, emprego) e referências internas (identidade). São todas referências em constante mudança. E cremos que podemos controlar o andamento do mundo de acordo com nosso próprio óculos – engano brutal, não há nada que possa ser controlado neste sentido. A memória presta uma ajuda enorme em solidificar a ilusão de controle pois cria uma mesma imagem que se sobrepõe ao presente, à realidade. É por isso que o bosque das 9h11min31seg não parece diferente daquele das 9h11min30seg.
Enquanto nos identificamos através de referências, a cada vez que há mudanças nestas referências há sofrimento. A mente, em sua porção “ahamkara”, fundamenta a ilusão da posse sobre a realidade através das referências criadas, sendo a mais sutil de todas a noção do “eu” contínuo.

Assim o processo de prática meditativa – ao final o caminho do auto-conhecimento – é um contínuo despertar para a ilusão do que parece calçar nossa identidade. A busca sem descanso do que de fato permanece ao longo de todas as experiências pode nos levar a compreender com discernimento quem somos e o que é o mundo. Nisargadatta disse algo como “aquilo que não é real nunca existiu, aquilo que é permanente nunca morre”.


abraços


marcos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estados possíveis

O modelo do átomo nuclear - análogo ao sistema planetário – é aquele que mais comumente temos como representação do mundo atômico, e traz de modo subjacente a idéia de bolinhas concretas, massa firme, como bolas de bilhar. Algo concreto,observável, “real”.
A física quântica avançou neste campo e concluiu que não existem tais “bolinhas”, mas sim faixas (degraus) em que existem ondas de probabilidade de existência de matéria. Esta função de probabilidade da onda é que define sua natureza. Há uma probabilidade de a partícula estar em determinada região ou em outra dentro destas faixas. Os estados de existência são determinados pela probabilidade de ocorrência nestas faixas. A energia existe fisicamente em pacotinhos de tamanho determinado, e as condições de existência da matéria são neste sentido “quantizadas”, ou seja, existem regiões em que é permitida a existência. Por isto se usa a expressão saltos quânticos, há um salto de uma faixa a outra, sem que se percorra um caminho entre as duas.
O Vedanta Advaita explica a realidade através da relação observador-objeto de modo análogo. Existem níveis possíveis de relação entre aquele que observa e aquilo que é observado, são faixas de probabilidade de nos relacionarmos no mundo. Analogamente à física é possível “saltar” de um estado para outro, mas sem que se percorra um caminho. O ocidente reconhece dois níveis de consciência: vigília e sono. Para o Vedanta existem cinco estados possíveis: sono, pensamento, observação, concentração e meditação. A realização de si mesmo ou estado último, é chamado samadhi. Estes estados são analisados e explicados por Patanjali, Sankara, e em mais detalhes e de modo mais didático por Sesha.
Conforme nos relacionamos de modo mais ou menos presente em relação à realidade podemos nos encontrar em um ou outro estado. A questão fundamental para nós - aprendizes de aprendizes - compreendermos é que o agente de percepção (sujeito) que é consciente do que ocorre em cada um dos estados é diferente. O sujeito a que estamos habituados é a personalidade, o “eu”, que está presente no estado de pensamento. Como nos habituamos a viver 99,9% do tempo pensando, nos habituamos a acreditar que o “eu” é o único agente de percepção que existe. É um grande engano. Este “eu” necessita ser pensado recorrentemente para existir; em outros estados de relacionamento consciente com a realidade outros agentes de percepção (testemunhas) são conscientes do que ocorre. O estado mais profundo e pleno de consciência – a meditação – por exemplo, tem como agente consciente o Atman, nossa essência mais profunda. Nas palavras de Sesha “Atman é aquele agente cuja condição consciente, ao conhecer tudo o que potencialmente existe, não detecta o conhecido como diferente de si mesmo”.
O estado mais “próximo” de nossa habitual e pensada realidade que traz um agente de percepção que não é o “eu” é chamado de observação (pratiahara em sânscrito). Este é o estado que em nossa linguagem comum descrevemos como “estar muito concentrado no que faz”. Já neste estado não há o comum sujeito “eu”, mas, claramente, há consciência. O instante de surpresa ante uma pintura espetacular, um atleta em plena competição, um músico virtuoso se apresentando, a leitura de um livro que se gosta muito, são exemplos de estado de observação. São instantes em que o “eu” não se encontra, instantes em que somos mais presentes, mais produtivos, mais plenos e vivos. Instantes que logo fogem quando acionamos de volta o mecanismo da memória, e em um salto quântico reaparece o “eu”, buscando se apropriar de um momento que não viveu.
A prática interna e externa possibilitam que comecemos a reconhecer em que estado nos encontramos: sono? pensamento? observação?... Este músculo do discernimento que começa a ser desenvolvido é o sustentáculo da trilha do auto-conhecimento.


abraços,


marcos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Meditação Externa

A idéia habitual que temos sobre meditação é aquela do sujeito sentado de olhos fechados – quem sabe até com um incenso, roupas indianas, etc. Do ponto de vista Vedanta esta é uma prática interna, uma das duas possibilidades de prática possíveis. A segunda modalidade de prática possível é a prática externa.
Considerando nossos sentidos como fronteiras o campo de cognição externo é aquele que é percebido através dos sentidos: tato, audição, olfato, etc. Em contrapartida o campo interno é aquele percebido diretamente através da mente, sem a intermediação dos sentidos.
Para que a prática interna seja válida é necessário que os sentido sejam desconectados. Com a prática externa ocorre o oposto: os sentidos devem estar totalmente conectados com a realidade externa presente. Por exemplo: se você está comendo o sentido mais demandado será o paladar, se você está ouvindo música será a audição, etc.
O mais divertido é que com esta simples constatação caem por terra todos os argumentos para “não ter tempo de praticar a meditação...”, simplesmente porque a todo momento (de vigília, isto é, quando não estamos dormindo) a prática está à sua disposição uma vez que a todo momento se está vivo.
Então quando se aplica a prática externa? Sempre que não se estiver imerso na prática interna. Quanto tempo sobra para devaneios? Nenhum.
A prática externa está intimamente ligada com o caminho da ação (karma yoga) uma vez que a execução de ações sempre ocorre com uma execução externa. Esta discussão fica para um outro dia.
Um ponto chave da prática externa é que ela requer que estejamos atentos ao que acontece, ao mundo, à realidade apresentada naquele instante.
Como podemos saber se estamos atentos à realidade? Parece uma pergunta óbvia, mas de fato mesmo este discernimento primário é extremamente sutil. Nosso modus operandi mais habitual é o de inventar um presente imaginário através dos pensamentos, e vivê-lo acreditando que estamos vivendo o instante presente.
Façamos um pequeno teste: ligue seu i-pod, i-touch, ou walkman se você for mais velho e ainda tiver um; coloque uma música. De olhos abertos, coloque sua atenção na música, em cada tom. Tente perceber o que aconteceu com a sua percepção visual quando este movimento ocorreu. Agora, com a música ligada, tente focalizar sua visão em um objeto à sua frente. Tente perceber o que ocorreu com a percepção da música enquanto este movimento ocorre. Este é um exercício muito sutil, e pode requerer alguma prática, mas mostra um pouco o foco da atenção. Agora ligue novamente a música, colocando nela seu foco de atenção. Em seguida tente lembrar de uma situação de trabalho que causou ansiedade ou estresse. Perceba o que ocorreu com a percepção auditiva.
Quando a atenção se volta para pensamentos a atenção à realidade externa diminui. Esta é a chave para percebermos se estamos de fato atentos à realidade, a cada momento.
A presença na realidade que se sucede requer um contínuo forjar da mente para que a atenção escape das armadilhas dos devaneios e retorne, uma e outra vez, para a realidade que de fato acontece. Este pode ser um forjar de dias, anos, vidas, mas ao final frutificará em discernimento (viveka) acerca da realidade.

abraços,


marcos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

mente, o órgão interno

“A mente não é a base da cognição, não tem luz própria, nem possui consciência por si mesma. É um instrumento de cognição.” (Sesha)
No ocidente nos acostumamos a designar uma série de funções e atributos com uma mesma palavra: mente. O Vedanta (assim como outras escolas orientais) designa a mente como um órgão interno chamado Antakarana, e explica em detalhes o funcionamento desta mente a partir de 4 consituintes principais.
  • Chitta: matéria mental armazenada em forma de memória.
  • Manas: atividade mental manifestada quando chitta está em movimento (pensamento).
  • Ahamkara: sentido de posse, eu-dade.
  • Budhi: reflexo da Consciência não-dual, assento da Consciência individual.
Assim como a lua brilha apenas por reflexo dos raios solares, também a mente não possui luz própria, mas adquire a condição de cognição (atenção) por reflexo da Consciência não-dual. A raiz da cognição não está na mente individual - eis aqui um grande marco de diferença para as filosofias e tradições ocidentais. A mente é apenas um instrumento de cognição, e não a raiz da mesma.
Quando existem modificações no estado natural da mente é como se agitássemos um copo de água cheio de areia: ele se torna turvo. Quando a mente alcança um estado natural de repouso é como se a areia do copo sedimentasse no fundo, e resta a água cristalina. A atividade mental de pensar (manas) é a agitação de chitta, isto é, a agitação da memória. Quando a mente entra em um estado de agitação aparece ahamkara, isto é, a sensação de posse sobre as percepções, atos, pensamentos. Se a mente está em seu estado natural não há agitação de memórias, não há pensamentos, e não surge a condição para que ahamkara apareça, isto é, não surge o famosíssimo “eu”, e budhi pode emergir.
Assim se diz que havendo conhecimento (budhi) não há eu, e havendo eu não há conhecimento! Vejam bem: a própria noção de eu é uma modificação mental, uma agitação, e havendo agitação budhi não tem condições de emergir. Assim também se diz que havendo dúvida (pensamento, agitação) não há conhecimento (budhi), mas havendo conhecimento não há dúvida!
A prática de silêncio interno busca justamente aquietar as agitações mentais. Sem a presença do “eu” uma pequena porta se abre - budhi, o reflexo da Consciência - para uma jornada eterna.
abraços 
Marcos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Presente

Segundo a linha Vedanta Advaita a realidade pode ser compreendida a partir de alguns cânones fundamentais. Um deles estabelece a identidade entre a mais profunda essência do indíviduo (Atman) e a Consciência absoluta (Brahman). Esta realização é o objetivo último da existência. O caminho para se chegar a isto requer que nossa interface com a realidade se dê de modo apropriado, de modo válido. Eis aqui um ponto importante: não se propõe que outros modos de “estar vivo” não são válidos em si mesmos; se propõe apenas que outros modos não são válidos para o caminho de realização do Ser.
Assim, quais as características deste modo válido de estar vivo?
A maneira mais simples de se explicar este modo de vida é através do conceito de presente.
A aparente simplicidade do conceito de presente esconde uma série de condições e hábitos dentro de nossa labiríntica mente linear que impedem a compreensão real e experimentada do mesmo. Todos nós sabemos racionalmente o que é o presente, entretanto normalmente não o-experimentamos. Todos nós já vivemos instantes plenos e intensos de presença, entretanto sua fugaz natureza desafia nossa mais arraigada crença de controle sobre a vida.
O Presente é tudo aquilo – e apenas aquilo – que esta sucedendo no aqui e agora. Não é o passado: aquilo que já aconteceu há um instante ou há dez anos. Isto é memória em movimento. Não é o futuro: aquilo que poderá acontecer segundo nossas fantasias, e que ao final é projeção de memória em movimento.
O presente é sempre aquilo que a Natureza, a Realidade, nos apresentam neste exato momento. Se você está lendo este texto a Realidade apresenta para você a oportunidade de lê-lo. Nada mais. Do mesmo modo, a Realidade apresenta cada instante de cada dia de cada ano por toda a vida. Aprender a habitar este universo chamado presente é a arte do buscador da verdade.
A chave para este universo está em aprender a abrir mão dos apegos e da ilusão de controle. Para compreender o capítulo de apegos basta lembrar dos seus mais habituais devaneios: são como adesivos que você cola em frente à realidade para não ter que vivê-la, adesivos que trazem (a partir da memória) situações, pessoas, emoções ás quais você se apega por hábito. Já a compreensão da ilusão de controle é um pouco mais sutil: normalmente guardamos uma crença de que conseguimos (e devemos) controlar nossa aparente realidade, entretanto isto é absolutamente impossível. Você não pode dizer com certeza se estará vivo dentro de 15 minutos! A prova mais cabal da ilusão está exatamente no fato de que não conseguimos “controlar” a própria presença no aqui e agora, inevitavelmente voltamos aos devaneios. Abrir mão da tensão (da ilusão) do controle e do prazer dos apegos é condição para Presença. De fato nosso dia a dia habitual expõe de modo claro como somos realmente fantoches da mimada personalidade (aquela mesma que tem certeza que controla o rumo de sua vida, que vive e morre pelos prazeres e gostinhos emocionais). É um paradoxo: uma personalidade ilusória (pois foi criada a partir de hábitos e pensamentos) se crê concreta e assim nos aprisiona ao mundo da memória (em que supomos ter liberdade de “escolher” nossa realidade). A saída? Ora, o Presente. Porquê? No Presente não há personalidade. Ao abrir mão do controle e dos apegos, ao se entregar ao que se sucede, se ganha a liberdade. Mais no próximo texto.
Abraços

PS: novo vídeo de Sesha (aqui acima) sobre a “virtude”; vale a pena ver, são 7 minutos.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Grupo de Meditação Semanal

Olá amigos,

Ao longo destes últimos anos tenho convivido e conversado com um grande número de pessoas que naturalmente expressam interesse em auto-conhecimento e meditação. Em geral há uma inquietação e vontade de explorar estes caminhos, mas também aparece a necessidade de algum tipo de acompanhamento, apoio e compartilhamento.
Como vários de vocês já sabem tenho seguido um caminho de estudos com Ivan Oliveros (Sesha) há 10 anos. Sesha é um mestre vivo da tradição Vedanta Advaita, filosofia milenar de origem hindu, um caminho que busca a compreensão da realidade através do discernimento acerca do Real, e é fundamentada no conceito da não-dualidade. É uma trilha de auto-conhecimento e sabedoria, simples e direta, sem dogmas, rituais ou artifícios. (Para mais informações vejam http://www.vedantaadvaita.com/).
Assim, a partir da próxima semana (7 de abril) coordenarei um novo grupo de meditação no Instituto Brahmavidya. Este grupo de meditação terá freqüência semanal, toda 4af, 19h15 até 20h15. Dedicaremos o tempo para reflexão sobre temas específicos, prática de meditação externa e interna e compartilhamento. O grupo é aberto, não é necessária qualquer experiência anterior.
Caso conheçam pessoas interessadas por favor divulguem esta mensagem.


Segue o endereço:
Instituto Brahmavidya
Rua Indiana, n. 1403 , Brooklin (paralela à rua Pe. Antonio J. Santos)

Abraços,

sexta-feira, 5 de março de 2010

Onde está o descanso?

Tenho tido muitas conversas com tantas pessoas diferentes, muitos universos fechados em si mesmos, certos, absolutamente, de suas certezas construídas pela retórica eterna dos diálogos internos. Construções fundamentadas na retórica interna dos diálogos sem fim. Algumas perguntas - um pouco de areia na engrenagem desta máquina de conversas loucas - e um espaço quase miraculoso de compreensão se abre. Há um vislumbre de paz dinâmica neste espaço, um reflexo de luz na penumbra úmida do pensar sem fim, como uma lufada de ar que finalmente penetra aquele cômodo fechado e começa a trazer a paz do movimento para dissipar a angústia da agitação estacionada.

Nestes momentos de compreensão há uma percepção muitas vezes inédita do que é a inteligência intuitiva. E imediatamente se percebe a mente linear (manas) reacelerando as engrenagens através de um apropriar-se lógico-racional daquilo que foi gerado sem pensamento. A personalidade (“eu”) possui uma máquina de etiquetas, como aquelas de preços em supermercados, e é totalmente obcecada em etiquetar cada instante, continuamente roubando o presente – aquilo que se sucede – de nós mesmos. A presença é roubada com o desejo de resultados pelas ações praticadas, e com a sensação de posse sobre o que acontece.
Sem o presente nos habituamos a glorificar a memória, e perdemos a glória do instante. Cada etiqueta leva o nosso nome, como se pudéssemos possuir nossa própria história, como se contabilizássemos cada momento em um grande balanço contábil, naturalmente esperando algum tipo de “lucro” ao final do ciclo... vida. Da busca do benefício e da sensação de posse se alimenta o Karma, e roda do samsara (ciclo de nascimentos e mortes) segue girando.

O pequeno instante de compreensão muitas vezes engravida as pessoas de uma sensação de beco sem saída...onde está o descanso então? Se estamos vivos, em ação, o descanso está fora, na realidade, no mundo, nos objetos de percepção. E não em nossos pensamentos. Se estamos vivos, em prática de silêncio interno, o descanso está nAquilo que percebe, e não em nossos pensamentos.

O descanso nunca está em nossos pensamentos... exceto quando a realidade apresenta esta demanda. Por exemplo, quando o instante presente requer que se raciocine sobre o plano de negócios para a confecção de uma apresentação. Neste momento é válido pensar sobre o plano de negócios – e apenas sobre isto. De resto, o descanso não está na mente. Como vivemos 2/3 de nossas vidas em vigília, especialmente para os que não costumam exercitar práticas de silêncio, o descanso está sempre fora. O descanso, o oxigênio para prosseguir, está no mundo, na realidade, nos objetos, e não em nossos pensamentos, memórias, etiquetas e viagens na maionese (day-dreaming). Focalizar, momento após momento, a atenção no mundo, nos objetos, e não em nossos pensamentos, é o bálsamo para um sistema nervoso exaurido por décadas de desgaste oriundos de um pensar sem fim - tanto no sentido de propósito quanto de tempo. Este bálsamo está ao nosso alcance, ao alcance um instante.

PS: novo vídeo do Ivan aqui no blog logo acima: "Aprender a não duvidar". Vale a pena ver!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Um, nenhum cem mil e coaching

Por conta do curso de formação de coaches no Ecosocial li o livro Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello. O personagem vai se desconstruindo ao perceber a ilusão da realidade egóica. Ao final, diz: “E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida... Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções.”



Ou, em uma outra interpretação, nada é senão aquilo que é no instante presente. Esta conclusão final expressa de modo contundente a ascendência da presença sobre qualquer outro modo de vida para que se compreenda e viva a realidade.


Não há realidade em si nas vãs construções dos pensamentos. Vazios porque são nutridos sempre pela memória. A realidade é roubada de cada um de nós a cada instante em que o ego, ou a mente linear, ou a idéia do “eu” de Pirandello se apropria da mesma ao nos induzir a buscar os conteúdos residentes na memória. Trocamos uma realidade presente, só percebida por algo que não o “eu”, por uma pilha de memórias já guardadas, que nos dão senso de segurança e conforto, um nome e uma forma armazenados para cada diferente tonalidade de realidade percebida. Uma etiqueta – só existente na memória – que substitui a realidade sem subtítulos que se apresenta a cada momento.


O presente é o ambiente no qual tudo o que se sucede acontece, a chave mestra que pode nos abrir a porta da compreensão, do discernimento real. Entretanto para que a presença seja concreta é preciso que não nos voltemos às vazias construções dos pensamentos, ou seja, é necessário que nos mantenhamos ... presentes. Nosso hábito mais enraizado, por tantos anos de vida pisando a mesma trilha batida, é pensar sobre o mundo, nos distanciando dele. Para frear este hábito há que se ter coragem de abrir mão do suposto controle confortável que a distância da realidade nos proporciona. Há que se atirar ao mundo, no sentido de se estar ativamente atento ao que acontece. A cadeia infindável de pensamentos coloca um véu sobre a realidade, e, na maior parte das vezes, acabamos nos relacionando com nossa própria memória, e não com aquilo que acontece realmente.


A contínua prática de se viver no presente naturalmente nos mostra que existem outros agentes de percepção que não o “eu”, presentes em estados de consciência superiores do ponto de vista de discernimento da Realidade. Sem o peso da constante apropriação das ações que acontecem no presente pelo insaciável ego há uma trilha infindável de uma leveza e liberdade que talvez nem consigamos vislumbrar.


O processo de coaching, por exemplo, realmente só ocorre quando há Presença. De nada adianta buscar mentalmente fórmulas e arquétipos enquanto a conversa ocorre. A preparação sim pode ocorrer previamente. No momento da preparação o instante presente pede que a leitura e análise sejam feitas; e é perfeitamente natural que se use o processo associativo mental neste momento, é um pensar válido, pois é o que é requerido, naturalmente. Entretanto, no instante da conversa o que o presente requer é atenção plena na conversa, nada mais. Atenção plena, algo fácil de falar, difícil de fazer, essencial de se praticar. Todo o estudo, a preparação, se farão sentir de modo natural e intuitivo se a presença ocorre. A cada perda de atenção, a cada fuga para a memória, se perde o instante. Apenas no presente é possível que a inteligência intuitiva tenha a possibilidade de ser percebida, e nesta descansa toda e qualquer possibilidade de ação natural, pura, correta*.


* (neste sentido vale ler texto “budo, aikido, Consciência e liberdade, de 19/11/2009)