quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A única escolha

Sempre falamos da pedra fundamental do auro-conhecimento que é o presente. Volta e meia aparece a pergunta: mas como vou saber se de fato estou presente ou não? A resposta é bem simples: se você está pensando sobre seu grau de presença, se você está julgando de alguma maneira, se você se pergunta se está presente, então você não está presente! 
Quando há presença não há um “eu” psico-histórico que viva o instante de presença. É simples e paradoxal. Se há um instante de presença ele normalmente só é detectado pela figura da identidade egóica (eu) depois; é quando a presença morre que o eu pode utilizar a propriedade da memória para buscar o “cheiro” da sensação e se dizer ter estado presente.
Entretanto, para nós, ainda ignorantes, a compreensão de que houve um instante de presença é bastante  importante, pois nos dá pistas e sinais do que não é um estado de  presença, e assim permite que, a cada momento de não-presença este possa ser, cada vez mais rapidamente, reconhecido. 
Uma vez que você reconhece que está em um estado de ausência (pensando, divagando), isto é, que não está vivendo aquilo que a realidade oferece naquele mesmo instante, você tem apenas uma alternativa: optar por permanecer ausente, ou voltar ao presente. Esta é a escolha que vai permear todos os momentos da vida de quem perdeu a inocência sobre a realidade de se estar presente. Uma vez que se tenha dado conta do que é o estar presente, ainda que em um grau bastante simples, a ausência (não-presença) cobra um preço cada vez maior.
Não há nenhuma outra escolha de tamanha magnitude na vida como essa uma vez que ela se faça aparente. Este é o “ser ou não ser”. 
Quem estiver com frio na barriga ante à possibilidade de perder a inocência pode aparecer no grupo de meditação das 4af’s para experimentar um pouco mais.  

abraços
marcos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Abstinência

No encontro da semana passada do grupo de meditação conversamos sobre o cultivo de um primeiro nível de discernimento em nosso dia a dia. 
A colcha de retalhos (também conhecidos por elementais, hábitos, ec.) que é nossa personalidade tem alguns poucos mecanismos básicos de negociação para garantir sua sobrevivência segundo as tendências (samskaras) trazidas no pacote deste ciclo de vida. Os primeiros passos no auto-conhecimento são direcionados a conhecer, ou reconhecer, estes mecanismos. Esta etapa não é muito complexa, e sempre vem acompanhada de assombro, surpresa, dor, emoção, etc. Porém a descoberta é apenas o começo. Muitas vezes nos apaixonamos ainda mais por estes mecanismos, nos dedicamos a estudá-los em detalhes , em toda a sua profundidade, e assim garantimos que nunca nos preocuparemos a encontrar a saída do labirinto, apenas nos deixamos passear mais e mais dentro dele. A questão não é descobrir causas ou detalhes destes mecanismos-raiz, mas sim reconhecer sua existência, e a partir daí aprender a desinflá-los, dia após dia.
Estes mecanismos só existem, naturalmente, como forma de expressão da identidade “eu” no mundo; enquanto forma, só existem como pensamentos. Assim, uma presença intensa no cotidiano naturalmente murcha a bexiga destes mecanismos. A reação natural e espontânea ante aos acontecimentos trazidos pelo presente deixará um espaço potencial cada vez menor para se enfiem as unhas compridas da personalidade no corpo do presente.
Mas como fazer no nosso dia a dia? Uma boa pista é buscar estar consciente de cada decisão que tomamos, em vez de nos deixarmos levar por um maremoto de possibilidades construídas mentalmente, que pouco tem a ver com a realidade. É uma primeira aproximação ao que o Ivan chama de estado de não-dúvida. Por exemplo: você precisa ir à academia fazer ginástica; perceba o que é mais inteligente neste momento e resolva. Não é uma questão de dever ou moral... ir ou não ir à academia não é o ponto. O ponto é o processo: se você está metido em uma dezena de razões para não ir, ou para ir, já estamos mal...
Uma outra pista é aprender a reconhecer cada vez mais prontamente as negociatas internas que fazemos para “ganhar” algo a que nos apegamos muito, geralmente de fundo emocional. Por exemplo: já que tive um dia muito difícil eu mereço comer esta barra de chocolate! Tudo bem, não precisa ser comida, podem ser duas horas de internet, ou um copo de uísque, ou..., bom cada um sabe bem de suas próprias negociações... especialmente nas relações. Se há negociação há um “eu” buscando justificar. Um modo rápido, mas não tranquilo, de perceber estes nossos apegos e justificativas é a prática da abstinência (por algum período de tempo, pelo menos) daquilo que apreciamos tanto. Observando as reações que surgem, a intensidade emocional, o arrazoado inteligente para burlar a própria proposta de abstinência, podemos ter uma pista do tamanho do poder que esta colcha de retalhos exerce, a potência com que estes mecanismos-raiz da personalidade nos subjugam, ainda que através de sutis e inteligentes justificativas.
Ao final, a prática da meditação é a abstinência última, a abstinência do próprio eu.

abraços
marcos

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ramana, e quem sou eu afinal?

Ramana Maharshi propunha aos que o procuravam um método aparantemente muito simples de prática na busca do auto-conhecimento, chamado de método da auto-inquirição. Este método, basicamente, se resumia na prática de atenção interna através de uma pergunta raiz: quem sou eu?
No mundo interno existem várias formas de seguir o perfume do presente, e cabe a cada um encontrar aquela mais apropriada ao seu próprio sistema mental e nervoso. Uma das formas é esta proposta por Ramana, que, no entanto, é muitas vezes mal interpretada por nós.
Existem basicamente duas maneiras de se fazer esta pergunta a si mesmo. Na primeira a pergunta é feita de forma, digamos, leviana, corriqueira, como quem pergunta sobre o tempo. Feita desta maneira isto será simplesmente o início de um processo interminável de pensamentos enadeados. Quem sou eu? eu mesmo, ora... e quem sou este eu mesmo? eu... e assim vai ladeira abaixo, uma diversão para a personalidade, uma distração total do que pode ser o presente neste momento. Nesta altura estamos totalmente imersos em pensamentos sobre o tema, o que, como sabemos, não tem validade por ser um estado não associado ao presente.
A segunda forma, é aquela em que toda a atenção, com um grau de curiosidade absoluta,  está servindo como mola propulsora da pergunta ‘quem sou eu?’; ao formulá-la há uma genuína intenção de esperar uma resposta. É o mesmo tipo de foco de atenção que existe quando você aposta na mega sena, e ouve as dezenas sorteadas; imagine que você já acertou cinco, e a sexta vai ser anunciada... onde está sua atenção? divagando dobre o fim de semana, ou sobre a mágoa com a irmã, ou sobre ... claro que não, a atenção está 100% voltada ao instante presente, aguardando a sexta dezena! É este grau de atenção que é necessário para se esperar a resposta de uma pergunta do quilate de ‘quem sou eu’.  Surge então, no momento em que a questão se propõe, um estado de surpresa com a própria questão colocada. A mente linear, sem encontrar resposta dialética (por comparação com conteúdos prévios armazenados na memória) se vê por um instante paralisada. Manas (a atividade mental) estaciona subitamente, como um máquina engripada por uma corrente quebrada. Permanecendo aí, com atenção  firmemente postada no observador que percebe o vazio de respostas, pode nos ser oferecida a probabildiade de dilatação do vazio e do silêncio. Com a mente quieta, por pouquíssimos instantes, é possível que budhi se faça aparente. Este é o princípio do processo de silêncio, quiçá da meditação. 


abraços
marcos

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

467.200 horas

Precisamos aprender a ouvir o som da atenção. Precisamos aprender a sentir a consistência firme de um estado de presença. A atenção é uma propriedade da Consciência, a propriedade que permite que tenhamos capacidade de cognição como indivíduos.
Sem atenção não perceberíamos coisa alguma, o fato de percebermos algo denota a existência da atenção. De verdade nunca estamos desatentos, pois a atenção sempre está; pode estar direcionada para algo que não seja o que ocorre no instante presente, e estaríamos desatentos ao que ocorre naquele instante, mas ainda assim atentos a alguma outra corrente de informações, como nossos devaneios, por exemplo.
A atenção está presente continuamente, segundo após segundo, um jorro incessante; desde o nascimento até a morte, a questão é:  o que fazemos com ela? para onde direcionamos este jorro ao longo de nossas 467.200 horas de vida (para uma vida de 80 anos, em vigília de 16 horas por dia)? Supondo que nos primeiros seis anos de vida estávamos mais presentes, e que talvez, por misericórdia ou sorte, em 5 minutos a cada hora estejamos realmente presentes (sendo bem bondoso na estimativa),  chegamos à conclusão que desperdiçamos 68 anos de vida em vigília em nossos devaneios... aleluia!
Imaginem a potência de 68 anos de hábitos de pensamento continuamente pisados e repisados! Assim se criam as tendências de nexo entre os ciclos de vida, assim se criam as condições kármicas, assim se perpetua a roda da ignorância.
Considerando que todos nós que lemos este texto ainda temos disponibilidade de atenção, há que se ter o senso de urgência de se perguntar o que realmente desejamos fazer com este fluxo incessante de vida e presença representado pela atenção.
Há que se aprender a escutar o som da atenção nas práticas de meditação interna, notar suas nuances, sua potência, sua volatilidade; há que se investigar a atenção trazendo-a para si mesma. Esta prática exercita e fortalece a capacidade de se perceber perdido em devaneios no dia a dia. Há que se estar pronto para, ao primeiro sinal de distração, trazer a atenção de volta para a realidade que se apresenta, uma e outra vez. A realidade, em seus múltiplos objetos que se sucedem no instante presente, puxa e demanda nossa atenção, temos apenas que deixar que o fluxo natural siga seu rumo, isto é, quando em ação no dia a dia a realidade é prioritária, não nossos devaneios. A atenção é demandada pelo presente que acontece, pelo mundo. A mente linear é que, ao gerar a ilusão da diferença, da individualidade criadora, puxa a atenção de volta para si mesma, para os devaneios eternos que dão a sensação de permanência a um “eu” impermanente. Há que se liberar o navegar no fluxo de atenção natural para buscar a cor real e não sua interpretação; o som que se ouve e não sua memória; o sabor do instante e não sua implicação futura. 


abraços
marcos

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Nosso leque de dons

No encontro do grupo de meditação de 4af na semana passada falávamos sobre atividades que nos inclinam mais naturalmente à presença, como identificá-las e fazer delas um trampolim para a presença mais frequente em nosso dia a dia.
Todos temos dons naturais - poucos, normalmente, mas temos. Durante a infância estes dons transparecem, se fazem evidentes com bastante facilidade. Entretanto nossa educação não  prioriza a capacidade de detectar e estimular estes dons na juventude. Ao contrário, estabelece moldes únicos que padronizam aquilo que se imagina que possivelmente a sociedade mais reconhecerá como modelo de sucesso. Assim nós - em nosso próprio processo de amadurecimento desde crianças - nos adaptamos, nos tornamos geralmente máquinas de esforço na busca da adaptação. No meio do caminho ‘esquecemos’ nossos dons em alguma esquina temporal. Daí é um pequeno pulo para nos tornarmos adultos que se esforçam brutalmente para chegar lá (onde mesmo?). Este esforço muitas vezes é cruel, pois com a ignorância habitual que temos sobre nós mesmos é bem possível que focalizemos o esforço em campos e naturezas de atividades que estão distantes de nossos dons. 
Quando estamos realizando uma atividade na qual somos destros esta se realiza com menor esforço. Quando desenvolvemos nossos dons naturais é muito mais simples estar em um estado de presença enquanto a ação se realiza. Assim, se podemos identificar estes dons, se podemos estimular por mais vezes ações nas quais somos destros, é mais natural que estejamos mais presentes - e mais do que isso, será mais provável nos darmos conta que estamos presentes. Daqui surge um trampolim essencial para nosso dia a dia de auto-conhecimento: a partir da compreensão limpa do que é um estado de presença, fica absolutamente claro o que não é um estado de presença! O estado de presença não é diferente conforme a atividade; a presença é sempre a presença. Aquilo que é consciente não varia, não muda. Deste modo uma vez que se tenha experimentado a consistência, o gosto, o perfume do estado de presença, não há mais dúvida: sabe-se com total clareza o que não é um estado presente no dia a dia. Como o presente sempre está existindo a cada instante, desde o nascimento até a morte, não há um momento que não requeira a presença para que seja pleno; o eixo que se ganha ao haver presença em uma ação natural (neste caso aquela que requer o uso de um de nossos dons) não se perde desde que haja simultaneamente a compreensão de se estar presente. (!!!) E isto basta para muitos e muitos anos de prática e auto-conhecimento.


abraços
marcos

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Aprendizagem e Educação

Estive em viagem, e aproveitei para participar do curso do Ivan em Barcelona - Educação para uma vida plena. Dos cerca de cem participantes 1/3 eram terapeutas e 1/3 professores, a maioria sem conhecimento prévio do Vedanta. Conversando com alguns era tão divertido ver os olhos brilhando e a mente a 1000 por hora, tentado se dar conta de toda aquela novidade, uma visão de cabeça para baixo sobre o que é a percepção da realidade ... real. 
Aprendizagem e compreensão na primeira infância, crianças, adolescência e adultos, como os diversos componentes da mente se comportam e amadurecem, como a dinâmica entre eles possibilita (ou dificulta) o processo natural de aprendizagem. Como atuar em cada etapa (como pais, professores, terapeutas, líderes, coaches, gestores...) para que a janela da aprendizagem se abra, quais são os elementos de contexto que precisam ser criados - e sustentados. 
Claro que não podia faltar um pouco de tempero: quem, afinal de contas, aprende? Onde está nosso eu quando a compreensão se dá - e quais as dinâmicas dos componentes da mente enquanto isto acontece? 
E, ao final, um golpe sem dó: se aquele que busca construir as condições para um processo de aprendizagem não tem ele mesmo a experiência da presença, o caminho será muito difícil. Aqui, neste campo, não se trata de decorar uma técnica e repassar, não se trata de compreensão teórica, digestão a seco de um conteúdo e repetição. Se trata de  ter conhecido e compreendido a partir da sua própria experiência pessoal, experiência real da vida como um só instante eterno, ainda que por vezes fugaz. Se buscamos atuar junto às pessoas (filhos, colegas, empregados, clientes) para que possam trilhar um caminho de aprendizagem e compreensão, precisamos nós mesmos estar em contínua trilha.
As ramificações são imensas: educação de filhos, estruturas pedagógicas, trabalhos de desenvolvimento com adolescentes, andragogia, processos de grupos e equipes, terapia, desenvolvimento de liderança, coaching, gestão... as bases são elegantes e sólidas, agora cabe buscar através da própria experiência as pesquisas para o desenvolvimento em todos estes campos... isto tudo com certeza ainda vai dar um bom livro.
Por falar em livro, no site da associação Vedanta Advaita (www.vedantaadavaita.com) existem dois livros do Ivan que podem ser baixados em formato pdf de graça: ‘El eterno presente’ e ‘La paradoja divina’ - dêem uma olhada, não preciso nem dizer que vale muito a pena.


abraços
marcos

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Particular e total

No último encontro do grupo de meditação fizemos uma prática bem divertida (pelo menos eu achei...) de atenção externa. Algo como escolher um objeto e mergulhar nele por 20 minutos. Até, quem sabe, poder realmente descansar no objeto.
Como sabemos “as coisas são o que realmente são quando quem observa não é diferente do que é observado”. Hoje lia um livreto de quadrinhos zen antes de uma reunião em um belo escritório, e uma das tirinhas dizia algo como: a flor é uma flor quando quem a observa é uma flor. É o mesmo. Quando a atenção pousa sem esforço na realidade os pensamentos e interpretações cessam, e a permanência da atenção no presente leva a um estado em que a relevância do observador gradualmente diminui, e prepondera  o objeto (a realidade). Até que já não há alguém que observa algo, apenas o algo - apenas o presente e a realidade que se apresenta naquele instante. Há presença e consciência na realidade viva, sem a presença de alguém que se diga consciente de uma realidade viva.
Segundo o Vedanta Advaita a realidade não-dual é o que realmente existe; por conta de limitantes da mente nos habituamos a velar (a realidade não-dual) e projetar (uma realidade não real), a isto se chama maya. Um dos fatores limitantes, conforme explicado por Ivan, é o limitante espacial. 
A ver: podemos observar um objeto (externo ou interno) de duas formas, totalizando-o - nos perdendo no objeto - ou particularizando-o - ou seja, nos distanciando do objeto. Normalmente, quando estamos no dia a dia, nós, por hábito, nos distanciamos da realidade apresentada (através de pensamentos, interpretações, etc.). Por outro lado, quando estamos buscando a quietude interna nós, por hábito, mergulhamos em nossos  pensamentos e fantasias. Pois o que devemos fazer é justamente o oposto! Quando ativos no mundo devemos nos totalizar com o mundo, de modo que os objetos ganhem relevância, e não o sujeito que observa. Quando quietos internamente devemos nos distanciar do que se apresenta, ou seja, particularizar os pensamentos e emoções de modo que o observador ganhe relevância, e não os objetos.
Até parece algo técnico, frio... mas a prática mostra que é bem longe disso a experiência real. 
Experimentar, dia sim dia também, esta postura atenta pode mostrar novas trilhas, até, quem sabe, conseguirmos aprender a descansar na realidade que se apresenta para nós a cada instante.
abraços
marcos

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Poemas

Acho que já mostrei estes poemas de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) alguma vez no passado... mas, afinal, foi no passado. Vale a pena. Para aqueles que tem certa familiaridade com as questões que discutimos nos grupos de meditação vejam como estes versos são pílulas concentradas de alto impacto de filosofia da não dualidade. Divirtam-se.


O Universo

O universo não é uma idéia minha. 
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha. 
A noite não anoitece pelos meus olhos, 
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos. 
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos 
A noite anoitece concretamente 
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso. 


Não Basta

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. 

Assim Como

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer  pensamento,  
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,  
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.  
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.  
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.  
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.  
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.  


O Espelho

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa. 
Pensar é essencialmente errar.     
Errar é essencialmente estar cego e surdo. 


Vive


Vive, dizes, no presente, 
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade; 
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente? 
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. 
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. 
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. 
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas  
                como cousas. 
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar. 
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las; 
Vê-las até não poder pensar nelas, 
Vê-las sem tempo, nem espaço, 
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.  
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma. 


abraços
marcos

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mestre e amizade

Deixei Ivan no aeroporto hoje de manhã. Uns poucos dias, mas para mim meses. Como será possível expressar a riqueza desta visita, a boa sorte de poder passar horas e dias na presença simples e plena de uma pessoa que realiza o que é a Realidade, a inescrutável sensação de alegria e responsabilidade de ter esta verdadeira amizade.
Em uma de nossas conversas desta semana Ivan me explicava (já que eu não parava de fazer perguntas...) os diferentes tipos de professores: Gurus, no sentido original, cuidam de seus discípulos como pais cuidam de filhos, de modo mais paternalista; já um Rishi (que já não existe hoje em dia) acolhia uma criança em sua casa, como se fosso de sua família, e lhe ensinava até ficar mais velho, quando então este saía para o mundo. Por fim existem os Nagas, mestres que fundamentam sua relação com os discípulos através da amizade profunda, da disponibilidade de estar ali para ensinar. É esta a qualidade de mestre de Ivan, um Naga, como todos que estiveram no Instituto este final de semana puderam presenciar nas palestras, na proximidade das conversas durante os cafés, na alegria de estar ali para ensinar.
Uma outra característica de um Naga é que o discípulo normalmente desenvolve um certo grau de independência em suas pesquisas e caminho (o que não é usual no caso de Gurus). Por conta disso é tão bem encaixado o papel do Naga na tradição Vedanta Advaita, uma tradição que através da curiosidade e das indagações leva os discípulos a uma natural postura de auto-indagação, e assim os leva a construir com seus próprios pés seus caminhos.
Ivan deixa uma série de sementes. Quanto a mim, uma série delas percebo, muitas outras apenas intuo.  Ainda há outras que são apenas a sensação de que algum aprendizado ocorreu, embora eu não saiba bem como, nem em que esfera. Como quando passamos um par de horas conversando em uma chopperia à tarde, e em um certo momento em que a conversa fluiu de modo profundo, como um avião que faz uma espiral descendente depois de alguns círculos de aproximação,  minha mente não se movia, não tinha para onde ir, apenas se misturava às informações que fluiam. Um sentido muito real e brutal se fazia aparecer através de ecos distantes em minha mente enquanto continuávamos sentados, embora um universo inteiro parecesse ter se movido. Assim é a alegria e a responsabilidade de conviver com Ivan.
Agora seguiremos com nossos próprios pés e pernas, nossa prática, nossas conversas. Seguimos com maior energia, maior curiosidade, talvez mais dúvidas, talvez menos certezas, e certamente com mais alegria.
abraços
marcos

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sobre flechas e karma

Nossa compreensão usual sobre o karma carrega a idéia de culpa e ‘coisa ruim’. Tão longe desta sombra está a definição original deste conceito hindu. Talvez uma das imagens mais didáticas utilizadas para explicar o karma seja aquela das flechas: passamos a vida a atirar flechas para o alto, e, como sabemos, um dia elas cairão. Estas flechas que atiramos são impulsionadas pelo desejo fundamentado na sensação de individualidade do “eu” (ahamkara). A incessante busca pelo fruto, pelo benefício das ações que fazemos, associada à sensação de sermos os agentes da ação, produz uma modalidade de ação no mundo que gera tendências. No tempo linear estas ações cheias de desejo são as flechas lançadas, por exemplo, hoje, neste ano, neste ciclo de vida. Estas flechas cairão, certamente, e isto ocorrerá no futuro. Estas tendências serão concretizadas ao longo de outros ciclos de vida.  
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa. 
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar. 


PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.


abraços
marcos