No encontro do grupo de meditação de 4af na semana passada falávamos sobre atividades que nos inclinam mais naturalmente à presença, como identificá-las e fazer delas um trampolim para a presença mais frequente em nosso dia a dia.
Todos temos dons naturais - poucos, normalmente, mas temos. Durante a infância estes dons transparecem, se fazem evidentes com bastante facilidade. Entretanto nossa educação não prioriza a capacidade de detectar e estimular estes dons na juventude. Ao contrário, estabelece moldes únicos que padronizam aquilo que se imagina que possivelmente a sociedade mais reconhecerá como modelo de sucesso. Assim nós - em nosso próprio processo de amadurecimento desde crianças - nos adaptamos, nos tornamos geralmente máquinas de esforço na busca da adaptação. No meio do caminho ‘esquecemos’ nossos dons em alguma esquina temporal. Daí é um pequeno pulo para nos tornarmos adultos que se esforçam brutalmente para chegar lá (onde mesmo?). Este esforço muitas vezes é cruel, pois com a ignorância habitual que temos sobre nós mesmos é bem possível que focalizemos o esforço em campos e naturezas de atividades que estão distantes de nossos dons.
Quando estamos realizando uma atividade na qual somos destros esta se realiza com menor esforço. Quando desenvolvemos nossos dons naturais é muito mais simples estar em um estado de presença enquanto a ação se realiza. Assim, se podemos identificar estes dons, se podemos estimular por mais vezes ações nas quais somos destros, é mais natural que estejamos mais presentes - e mais do que isso, será mais provável nos darmos conta que estamos presentes. Daqui surge um trampolim essencial para nosso dia a dia de auto-conhecimento: a partir da compreensão limpa do que é um estado de presença, fica absolutamente claro o que não é um estado de presença! O estado de presença não é diferente conforme a atividade; a presença é sempre a presença. Aquilo que é consciente não varia, não muda. Deste modo uma vez que se tenha experimentado a consistência, o gosto, o perfume do estado de presença, não há mais dúvida: sabe-se com total clareza o que não é um estado presente no dia a dia. Como o presente sempre está existindo a cada instante, desde o nascimento até a morte, não há um momento que não requeira a presença para que seja pleno; o eixo que se ganha ao haver presença em uma ação natural (neste caso aquela que requer o uso de um de nossos dons) não se perde desde que haja simultaneamente a compreensão de se estar presente. (!!!) E isto basta para muitos e muitos anos de prática e auto-conhecimento.
abraços
marcos
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Aprendizagem e Educação
Estive em viagem, e aproveitei para participar do curso do Ivan em Barcelona - Educação para uma vida plena. Dos cerca de cem participantes 1/3 eram terapeutas e 1/3 professores, a maioria sem conhecimento prévio do Vedanta. Conversando com alguns era tão divertido ver os olhos brilhando e a mente a 1000 por hora, tentado se dar conta de toda aquela novidade, uma visão de cabeça para baixo sobre o que é a percepção da realidade ... real.
Aprendizagem e compreensão na primeira infância, crianças, adolescência e adultos, como os diversos componentes da mente se comportam e amadurecem, como a dinâmica entre eles possibilita (ou dificulta) o processo natural de aprendizagem. Como atuar em cada etapa (como pais, professores, terapeutas, líderes, coaches, gestores...) para que a janela da aprendizagem se abra, quais são os elementos de contexto que precisam ser criados - e sustentados.
Claro que não podia faltar um pouco de tempero: quem, afinal de contas, aprende? Onde está nosso eu quando a compreensão se dá - e quais as dinâmicas dos componentes da mente enquanto isto acontece?
E, ao final, um golpe sem dó: se aquele que busca construir as condições para um processo de aprendizagem não tem ele mesmo a experiência da presença, o caminho será muito difícil. Aqui, neste campo, não se trata de decorar uma técnica e repassar, não se trata de compreensão teórica, digestão a seco de um conteúdo e repetição. Se trata de ter conhecido e compreendido a partir da sua própria experiência pessoal, experiência real da vida como um só instante eterno, ainda que por vezes fugaz. Se buscamos atuar junto às pessoas (filhos, colegas, empregados, clientes) para que possam trilhar um caminho de aprendizagem e compreensão, precisamos nós mesmos estar em contínua trilha.
As ramificações são imensas: educação de filhos, estruturas pedagógicas, trabalhos de desenvolvimento com adolescentes, andragogia, processos de grupos e equipes, terapia, desenvolvimento de liderança, coaching, gestão... as bases são elegantes e sólidas, agora cabe buscar através da própria experiência as pesquisas para o desenvolvimento em todos estes campos... isto tudo com certeza ainda vai dar um bom livro.
Por falar em livro, no site da associação Vedanta Advaita (www.vedantaadavaita.com) existem dois livros do Ivan que podem ser baixados em formato pdf de graça: ‘El eterno presente’ e ‘La paradoja divina’ - dêem uma olhada, não preciso nem dizer que vale muito a pena.
abraços
marcos
Aprendizagem e compreensão na primeira infância, crianças, adolescência e adultos, como os diversos componentes da mente se comportam e amadurecem, como a dinâmica entre eles possibilita (ou dificulta) o processo natural de aprendizagem. Como atuar em cada etapa (como pais, professores, terapeutas, líderes, coaches, gestores...) para que a janela da aprendizagem se abra, quais são os elementos de contexto que precisam ser criados - e sustentados.
Claro que não podia faltar um pouco de tempero: quem, afinal de contas, aprende? Onde está nosso eu quando a compreensão se dá - e quais as dinâmicas dos componentes da mente enquanto isto acontece?
E, ao final, um golpe sem dó: se aquele que busca construir as condições para um processo de aprendizagem não tem ele mesmo a experiência da presença, o caminho será muito difícil. Aqui, neste campo, não se trata de decorar uma técnica e repassar, não se trata de compreensão teórica, digestão a seco de um conteúdo e repetição. Se trata de ter conhecido e compreendido a partir da sua própria experiência pessoal, experiência real da vida como um só instante eterno, ainda que por vezes fugaz. Se buscamos atuar junto às pessoas (filhos, colegas, empregados, clientes) para que possam trilhar um caminho de aprendizagem e compreensão, precisamos nós mesmos estar em contínua trilha.
As ramificações são imensas: educação de filhos, estruturas pedagógicas, trabalhos de desenvolvimento com adolescentes, andragogia, processos de grupos e equipes, terapia, desenvolvimento de liderança, coaching, gestão... as bases são elegantes e sólidas, agora cabe buscar através da própria experiência as pesquisas para o desenvolvimento em todos estes campos... isto tudo com certeza ainda vai dar um bom livro.
Por falar em livro, no site da associação Vedanta Advaita (www.vedantaadavaita.com) existem dois livros do Ivan que podem ser baixados em formato pdf de graça: ‘El eterno presente’ e ‘La paradoja divina’ - dêem uma olhada, não preciso nem dizer que vale muito a pena.
abraços
marcos
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Particular e total
No último encontro do grupo de meditação fizemos uma prática bem divertida (pelo menos eu achei...) de atenção externa. Algo como escolher um objeto e mergulhar nele por 20 minutos. Até, quem sabe, poder realmente descansar no objeto.
Como sabemos “as coisas são o que realmente são quando quem observa não é diferente do que é observado”. Hoje lia um livreto de quadrinhos zen antes de uma reunião em um belo escritório, e uma das tirinhas dizia algo como: a flor é uma flor quando quem a observa é uma flor. É o mesmo. Quando a atenção pousa sem esforço na realidade os pensamentos e interpretações cessam, e a permanência da atenção no presente leva a um estado em que a relevância do observador gradualmente diminui, e prepondera o objeto (a realidade). Até que já não há alguém que observa algo, apenas o algo - apenas o presente e a realidade que se apresenta naquele instante. Há presença e consciência na realidade viva, sem a presença de alguém que se diga consciente de uma realidade viva.
Segundo o Vedanta Advaita a realidade não-dual é o que realmente existe; por conta de limitantes da mente nos habituamos a velar (a realidade não-dual) e projetar (uma realidade não real), a isto se chama maya. Um dos fatores limitantes, conforme explicado por Ivan, é o limitante espacial.
A ver: podemos observar um objeto (externo ou interno) de duas formas, totalizando-o - nos perdendo no objeto - ou particularizando-o - ou seja, nos distanciando do objeto. Normalmente, quando estamos no dia a dia, nós, por hábito, nos distanciamos da realidade apresentada (através de pensamentos, interpretações, etc.). Por outro lado, quando estamos buscando a quietude interna nós, por hábito, mergulhamos em nossos pensamentos e fantasias. Pois o que devemos fazer é justamente o oposto! Quando ativos no mundo devemos nos totalizar com o mundo, de modo que os objetos ganhem relevância, e não o sujeito que observa. Quando quietos internamente devemos nos distanciar do que se apresenta, ou seja, particularizar os pensamentos e emoções de modo que o observador ganhe relevância, e não os objetos.
Até parece algo técnico, frio... mas a prática mostra que é bem longe disso a experiência real.
Experimentar, dia sim dia também, esta postura atenta pode mostrar novas trilhas, até, quem sabe, conseguirmos aprender a descansar na realidade que se apresenta para nós a cada instante.
abraços
marcos
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Poemas
Acho que já mostrei estes poemas de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) alguma vez no passado... mas, afinal, foi no passado. Vale a pena. Para aqueles que tem certa familiaridade com as questões que discutimos nos grupos de meditação vejam como estes versos são pílulas concentradas de alto impacto de filosofia da não dualidade. Divirtam-se.
O Universo
O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
Não Basta
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Assim Como
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Vive
Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade; Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente? É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas. Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar. Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las; Vê-las até não poder pensar nelas, Vê-las sem tempo, nem espaço, Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
abraços
marcos
O Universo
O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
Não Basta
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Assim Como
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Vive
Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade; Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente? É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas. Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar. Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las; Vê-las até não poder pensar nelas, Vê-las sem tempo, nem espaço, Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
abraços
marcos
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Mestre e amizade
Deixei Ivan no aeroporto hoje de manhã. Uns poucos dias, mas para mim meses. Como será possível expressar a riqueza desta visita, a boa sorte de poder passar horas e dias na presença simples e plena de uma pessoa que realiza o que é a Realidade, a inescrutável sensação de alegria e responsabilidade de ter esta verdadeira amizade.
Em uma de nossas conversas desta semana Ivan me explicava (já que eu não parava de fazer perguntas...) os diferentes tipos de professores: Gurus, no sentido original, cuidam de seus discípulos como pais cuidam de filhos, de modo mais paternalista; já um Rishi (que já não existe hoje em dia) acolhia uma criança em sua casa, como se fosso de sua família, e lhe ensinava até ficar mais velho, quando então este saía para o mundo. Por fim existem os Nagas, mestres que fundamentam sua relação com os discípulos através da amizade profunda, da disponibilidade de estar ali para ensinar. É esta a qualidade de mestre de Ivan, um Naga, como todos que estiveram no Instituto este final de semana puderam presenciar nas palestras, na proximidade das conversas durante os cafés, na alegria de estar ali para ensinar.
Uma outra característica de um Naga é que o discípulo normalmente desenvolve um certo grau de independência em suas pesquisas e caminho (o que não é usual no caso de Gurus). Por conta disso é tão bem encaixado o papel do Naga na tradição Vedanta Advaita, uma tradição que através da curiosidade e das indagações leva os discípulos a uma natural postura de auto-indagação, e assim os leva a construir com seus próprios pés seus caminhos.
Ivan deixa uma série de sementes. Quanto a mim, uma série delas percebo, muitas outras apenas intuo. Ainda há outras que são apenas a sensação de que algum aprendizado ocorreu, embora eu não saiba bem como, nem em que esfera. Como quando passamos um par de horas conversando em uma chopperia à tarde, e em um certo momento em que a conversa fluiu de modo profundo, como um avião que faz uma espiral descendente depois de alguns círculos de aproximação, minha mente não se movia, não tinha para onde ir, apenas se misturava às informações que fluiam. Um sentido muito real e brutal se fazia aparecer através de ecos distantes em minha mente enquanto continuávamos sentados, embora um universo inteiro parecesse ter se movido. Assim é a alegria e a responsabilidade de conviver com Ivan.
Agora seguiremos com nossos próprios pés e pernas, nossa prática, nossas conversas. Seguimos com maior energia, maior curiosidade, talvez mais dúvidas, talvez menos certezas, e certamente com mais alegria.
abraços
marcos
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Sobre flechas e karma
Nossa compreensão usual sobre o karma carrega a idéia de culpa e ‘coisa ruim’. Tão longe desta sombra está a definição original deste conceito hindu. Talvez uma das imagens mais didáticas utilizadas para explicar o karma seja aquela das flechas: passamos a vida a atirar flechas para o alto, e, como sabemos, um dia elas cairão. Estas flechas que atiramos são impulsionadas pelo desejo fundamentado na sensação de individualidade do “eu” (ahamkara). A incessante busca pelo fruto, pelo benefício das ações que fazemos, associada à sensação de sermos os agentes da ação, produz uma modalidade de ação no mundo que gera tendências. No tempo linear estas ações cheias de desejo são as flechas lançadas, por exemplo, hoje, neste ano, neste ciclo de vida. Estas flechas cairão, certamente, e isto ocorrerá no futuro. Estas tendências serão concretizadas ao longo de outros ciclos de vida.
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa.
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar.
PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.
abraços
marcos
Assim, a construção de nossa vida atual é uma integração de um núcleo de tendências mais fortes (chamadas samskaras em sânscrito) que se conformam no momento de início de um novo ciclo. Esta integração das tendências forma, como em um imenso colar, todas as pérolas que encontraremos em nosso ciclo presente. A isto se dá o nome de Prarabda Karma, o caminho a ser percorrido nesta vida. Deste caminho não se escapa.
Mais divertido é considerar isto pelo seguinte ponto de vista: imagine que este imenso colar foi o presente mais detalhado e bem construído que as inteligências superiores poderiam ter feito para que você experimentasse cada instante da sua vida com o aprendizado perfeito (vejam bem, perfeito...) para sua própria existência. Isto é o Prarabda Karma. E como se faz para experimentar este presente divino? Estando presente a cada instante (surpresa!). A cada segundo em que criamos uma realidade a partir de nossos pensamentos e novelas estamos desprezando o universo, desprezando um finíssimo presente preparado de forma absolutamente individual para cada um de nós. Divertido não é?
E o mais elegante é que se estamos de verdade presentes, experimentando este presente (em duplo sentido), naturalmente nossas ações serão corretas, e assim não estaremos lançando novas flechas. Presentes, não há um “eu” que possa se apropriar ou iniciar uma ação a partir de seus desejos e egoísmo. Com este fluir no presente atinge-se uma vida em harmonia com seu próprio karma, ou seja, o Dharma.
Porém, se seguimos agindo, seja por omissão ou ação, do alto de nossa ignorância, seguimos lançando novas flechas e gerando outras tendências, novo fluxo de karma, que recebe o nome de Agami Karma. Nesta perspectiva estamos continuamente impulsionando a grande roda de morte e renascimento, também conhecida por samsara.
Cabe a nós, a partir de exatamente agora, nos propormos a encontrar o presente a cada momento, nos propormos a buscar o discernimento sobre o que o presente requer de nós, nos propormos a aceitar um colar de pérolas maravilhoso construído especialmente para cada um: se entregar a cada instante, de agora até o último suspirar.
PS: este final de semana temos Sesha no Brasil, para os que ainda não se inscreveram, há tempo. Oxalá esteja no karma de vocês poder ter contato com Sesha, um aprendizado com um valor tamanho que não pode ser medido.
abraços
marcos
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O Centro do Universo
Normalmente achamos que as coisas acontecem para a gente, expressamos isto ao dizer rotineiramente que não entendemos porque tal e tal coisa aconteceu para a gente. Agora vejam que divertido seria encarar sob um outro ponto de vista: as coisas não acontecem para mim, elas acontecem simplesmente, eu faço parte desta galáxia de situações, campos e realidades que simultaneamente acontecem. Quanta auto-importância em considerar, mesmo que sutilmente, que as coisas acontecem para mim. Embutida nesta afirmação está uma nova teoria astronômica: no início imaginávamos que a terra era o centro do sistema solar, com o sol e os planetas girando ao seu redor; depois se descobriu que o sol era o centro do sistema solar, e mais tarde que o sistema solar fica perdido no canto de uma galáxia, e agora descobrimos algo incrível: eu sou o centro do universo! (precisaremos de mais ou menos 6 bilhões de universos)
Parece demais? Pois é justamente o que reafirmamos a cada instante de auto-piedade, justificativas poderosas e razões absolutas sobre nossos atos, omissões, erros, acertos, etc. Neste latifúndio do “eu” que construímos com fervor, a cada vez anexando mais e mais porções de terra consciente por conta de usucapião da ausência de presença, nos deliciamos em cavalgar pelas imensas paragens admirando nossa obra de vida inteira: todo o rol de razões e explicações para nossos rumos tomados. Lá no fundo uma sombra quase imperceptível traz o eco da idéia de um julgamento, então precisamos ter muitas explicações razoáveis.
Todo este latifúndio assume uma capacidade de parecer concreto que se torna mais e mais poderosa conforme cavalgamos por ele, isto é, conforme pensamos a partir da idéia do ‘eu’ que atua e merece. E nós adoramos apreciar nossa grande propriedade, basta observar o quanto ‘sonhamos acordados’. Outro dia ouvi uma música que dizia algo como “sonhar não custa nada, sonhar acordado, etc.”. Sonhar acordado custa, e custa muito mais do que imaginamos.
É nas terras deste latifúndio que tudo o que acontece parece acontecer para a gente. Atenção: é a certeza ignorante da justiça do merecimento que nos leva ao centro egoísta do universo. Em outras paragens isto não é verdadeiro. Quando nos apresentamos presentes ao instante que se sucede e reagimos a ele naturalmente não há necessidade do conceito de justiça ou merecimento. Atuamos em harmonia com tudo mais que ocorre, e neste alinhamento há a paz e a liberdade de não sermos o centro do universo, mas sim o universo todo no holograma da Consciência.
abraços
marcos
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Realidade e Ilusão
Estava outro dia conversando com um grupo sobre a realidade, e como saber se estamos presentes. Fora algumas pessoas que me olhavam com a certeza de que eu era absolutamente louco o grupo caiu naquele espaço da dúvida sincera em que há um leve chacoalho nas premissas do modo habitual de percepção da realidade.
Parece algo muito simples à primeira vista... mas a questão é justamente esta primeira vista. É como se resvalássemos na realidade (esta ‘primeira vista’) e assim que a atenção traz as primeiras informações do que é observado voltamos a atenção para a memória, buscando uma definição anteriormente registrada, e, quando a encontramos, nos satisfazemos com o registro passado que define e restringe a realidade que se apresenta. A partir deste ponto a realidade morre, e nos relacionamos com nossa própria memória.
Se mantivéssemos a primeira vista por mais tempo, isto é, se mantivéssemos a atenção na realidade, sem trazê-la de volta para a memória, começaríamos a perceber e observar o mundo, o objeto, que se apresenta naquele instante - sem nome, sem registro anterior reducionista.
As coisas são realmente aquilo que são quando quem observa não é diferente daquilo que é observado, diz Sesha.
Nos aproximamos da realidade quando não pensamos sobre ela, isto é, quando não a interpretamos e reduzimos. Experimente observar atentamente a folha de uma árvore. Por um longo, longo instante, observe cada detalhe, sem trazer a atenção à memória para resgatar a palavra “folha”. Esta palavra “folha” começa a perder o significado, soa até estranha, conforme a atenção permanece focalizada no objeto real. Aquilo que é observado é muito diferente, maior e mais concreto do que a palavra pode definir. E a relação que se dá entre aquilo que observa e aquilo que é observado também muda. Segundo o Vedanta não existe um observador (o eu), onde reside a consciência e a capacidade de atender algo, e um objeto percebido (o mundo). O próprio campo de cognição eu+folha é consciente em si mesmo. É isto que se começa a perceber em um estado de presença mais intenso. Entretanto, no dia a dia habitual, o filtro criado pela sensação de identidade egóica da mente (ahamkara) gera a ilusão (maya) de separação, e assim nos habituamos a crer que ‘eu’ sou consciente e observo um mundo diferente de mim.
Toda vez que nos relacionamos com uma interpretação daquilo que existe de fato nos relacionamos apenas com nossas próprias criações, e este que se relaciona deste modo é o ‘eu’ personalístico com sua história e hábitos. A este sujeito - este ‘eu’- não lhe é permitido conhecer a realidade. Quando se conhece a realidade - Presente - não há um ‘eu’ que se reconheça consciente, o próprio sistema se reconhece consciente. Assim é o limiar da não dualidade, a aurora da única liberdade real.
abraços
marcos
Parece algo muito simples à primeira vista... mas a questão é justamente esta primeira vista. É como se resvalássemos na realidade (esta ‘primeira vista’) e assim que a atenção traz as primeiras informações do que é observado voltamos a atenção para a memória, buscando uma definição anteriormente registrada, e, quando a encontramos, nos satisfazemos com o registro passado que define e restringe a realidade que se apresenta. A partir deste ponto a realidade morre, e nos relacionamos com nossa própria memória.
Se mantivéssemos a primeira vista por mais tempo, isto é, se mantivéssemos a atenção na realidade, sem trazê-la de volta para a memória, começaríamos a perceber e observar o mundo, o objeto, que se apresenta naquele instante - sem nome, sem registro anterior reducionista.
As coisas são realmente aquilo que são quando quem observa não é diferente daquilo que é observado, diz Sesha.
Nos aproximamos da realidade quando não pensamos sobre ela, isto é, quando não a interpretamos e reduzimos. Experimente observar atentamente a folha de uma árvore. Por um longo, longo instante, observe cada detalhe, sem trazer a atenção à memória para resgatar a palavra “folha”. Esta palavra “folha” começa a perder o significado, soa até estranha, conforme a atenção permanece focalizada no objeto real. Aquilo que é observado é muito diferente, maior e mais concreto do que a palavra pode definir. E a relação que se dá entre aquilo que observa e aquilo que é observado também muda. Segundo o Vedanta não existe um observador (o eu), onde reside a consciência e a capacidade de atender algo, e um objeto percebido (o mundo). O próprio campo de cognição eu+folha é consciente em si mesmo. É isto que se começa a perceber em um estado de presença mais intenso. Entretanto, no dia a dia habitual, o filtro criado pela sensação de identidade egóica da mente (ahamkara) gera a ilusão (maya) de separação, e assim nos habituamos a crer que ‘eu’ sou consciente e observo um mundo diferente de mim.
Toda vez que nos relacionamos com uma interpretação daquilo que existe de fato nos relacionamos apenas com nossas próprias criações, e este que se relaciona deste modo é o ‘eu’ personalístico com sua história e hábitos. A este sujeito - este ‘eu’- não lhe é permitido conhecer a realidade. Quando se conhece a realidade - Presente - não há um ‘eu’ que se reconheça consciente, o próprio sistema se reconhece consciente. Assim é o limiar da não dualidade, a aurora da única liberdade real.
abraços
marcos
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Ensinamento e aprendizagem
Diz Sesha que o ensinamento (do ponto de vista da busca da compreensão maior das grandes tradições) não é mais que o processo de mudança de hábitos mentais. Com o tempo os hábitos mentais são reduzidos em quantidade, e com isso o sistema todo fica mais próximo (isto é, aumenta a probabilidade) de estar atento àquilo que se sucede no presente.
Somos mestres em construir e nutrir inúmeros hábitos mentais, colcha de retalhos que é o genótipo de nossa personalidade. Uma vida normal nos leva a dar a ignição nestes hábitos permanentemente, a cada hora do dia, em nosso trabalho, com a família, amigos, e especialmente sozinhos. Existe a crença de que há de fato um “eu” que age, controla, e é por princípio carente (de amor, de atenção, etc.) pois a pedra fundamental de sua construção é a separatividade do todo (!!) já que se não houvesse o filtro da separatividade não haveria porque conceber uma identidade egoísta diferenciada. É por isso que todos nós temos, como tijolo fundamental da construção da personalidade, a carência de algo, e a partir disso se desdobram, conforme as condições de prarabda karma, os diferentes modelos de máscaras e relacionamentos. A compreensão desta carência básica é passo crítico para a aquietação. A não-compreensão acelera o girar eternos das rodas dos hábitos mentais.
Conforme amadurece a percepção do que somos realmente e se disciplina o velho macaco louco (a mente na metáfora budista) os hábitos mentais murcham, começam a exercer menos poder, e aos poucos são esvaziados. Com o tempo ficam menos e menos hábitos mentais, os desejos se sutilizam, e é mais provável que o sistema esteja mais atento ao que se passa a cada instante - ao Presente - e não perdido no labirinto interno. Aos poucos estar imerso na brilhante corrente do presente se torna mais provável, e custa mais voltar ao labirinto dos hábitos mentais. E assim se segue o processo de compreensão.
Outro ponto fundamental da aprendizagem e amadurecimento é que durante os ensinamentos e práticas há instantes - ainda que fugazes - de presença, de compreensão em um nível mais profundo, fora do campo da mente linear. São instantes em que parece que o universo todo está ali. Estes momentos muitas vezes não carregam imediatamente um entendimento racional, por vezes se assemelham a nuvens de quase-compreensão, como se algo certamente tivesse se passado, mas não sabemos determinar o que. Estes momentos são como sementes que ficam latentes, sementes nutridas da presença real que existia naquele momento. No tempo adequado da vida estas sementes começarão a crescer e a compreensão se fará clara. Mas atenção: o momento adequado normalmente não é aquele que o “eu” espera.
Assim se dá o processo real de aprendizagem e desenvolvimento da compreensão. Não é um processo linear, são saltos - para cima, para baixo e para os lados - como um processo dinâmico, turbulento, caótico: a ordem que existe não é reconhecida pela mente que raciocina e que suporta as justificativas e expectativas do “eu”.
abraços
marcos
quarta-feira, 21 de julho de 2010
As pulgas, o fantoche e a prática interna
Quando uma inquietação sobre si mesmo e sobre a realidade começa a aparecer no horizonte de uma pessoa muitas dúvidas aparecem, e também muitas oportunidades de aprendizagem. Neste tipo de situação alguns tem a sorte de encontrar pistas, traços de compreensão que ecoam em seu próprio coração. Quando estas pistas tem origem em uma tradição viva de realização (que tenha pessoas realizadas através deste caminho ensinando) há a possibilidade de uma nova trilha de busca se abrir. E esta trilha é ao mesmo tempo maravilhosa, angustiante, paradoxal.
No caso do Vedanta Advaita, plantam-se “pulgas atrás das orelhas”, uma após outra, após outra, após outra. É como um vírus de busca da compreensão que, uma vez instalado, começa a agir subvertendo a ordem aparente que a realidade até então claramente apresentava. E o mais divertido é que o indíviduo que tem as dúvidas é justamente aquele que subsiste apenas através da ilusão do pensar-se. Daí se segue uma miríade de armadilhas montadas pelo fantoche que tenta reafirmar a certeza de sua existência real. Então... o Vedanta Advaita explica o teatro, o palco, as cordas e o fantoche (a ilusão da realidade), a um sistema consciente (uma pessoa) que inclui a própria idéia de identidade do fantoche. E este último inicia um processo quase interminável de contraposições racionais e truques mentais para se reafirmar existente.
Que paradoxo! Como seguir?
A resposta não é mental ou linear. A única forma comprovada de se dar conta de tudo isso é a prática. Em especial a prática interna é capaz de desvendar as mais sutis armadilhas engendradas pelo fantoche.
O Vedanta propõe uma prática interna sem qualquer tipo de bengala. A prática interna consiste, de modo simples, em desconectar os sentidos e trazer a atenção para aquilo que ocorre internamente. Ao observar com distância os pensamentos/emoções, aos poucos estes próprios perdem intensidade, e aumenta a intensidade da presença daquilo que observa. Conforme a atenção se fortalece na própria presença deste observador o silêncio se aprofunda, e novas trilhas de percepção e consciência se abrem.
Não existe caminho de compreensão da realidade que se baseie apenas em conhecimento teórico; a experiência é que tem, de fato, validade. Um “eu” que pensa pode passar vidas no labirinto das dúvidas teóricas. Assim, todas as pulgas atrás da orelha, ao final, são esclarecidas pela prática.
Just do it.
abraços
marcos
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